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Rua da Estrad...

Rua da Estrada das obscenidades e das coisas piedosas

Foto: Álvaro Domingues

SABE-SE, passando nestas encruzilhadas:
– que o grupo Thema Solus vai apresentar um DVD,
– que se deve rezar às 3 da tarde, todos os dias 1 Pai Nosso e 3 Avé Marias Jesus, eu confio em vós (nada mais),
– que, não tarda nada, num lugar chamado Pias, se vai realizar a Feira da Foda, para espanto de uma ovelha de olhar desorbitado que fixa o passante com mais atenção do que a Brigada de Trânsito, que será?,
– mais raso ao chão e em tamanho comedido, fica anunciado um circo que apresenta as terríveis piranhas gigantes da Amazónia. Cruzes!
– finalmente, seguindo uma ou outra indicação, poderá chegar-se a Melgaço ou ao Rio Park que não é nome de terra; pode ser centro comercial na avenida da Galiza ou um hotel em Benidorm, segundo consta na net que lo sabe todo como Dios.

Apesar desta publicidade que nos informa de coisas tão variadas que há, a realidade é cada vez mais difícil de destrinçar quando toda a cacofonia se junta: as piranhas gigantes, a foda e as ovelhas, e as rezas. Só a música nos pode salvar. Parece não ser a quantidade de informação e de publicidade que verdadeiramente nos atrapalha; tudo depende da quantidade de atenção que dedicarmos a essa tralha e assim ela se expande ou encolhe consoante a dose de excitação que se lhe dedique. São coisas da natureza e da cognição.

Em contrapartida, a contradição, o inesperado ou qualquer outra dissonância estética ou moral, funcionam como alavancas que nos empurram para direcções diferentes no mesmo espaço e ao mesmo tempo, provocando a deriva e a colisão dos neurónios em territórios incertos.

Está no fim. As piranhas no circo evoluem em cardume dentro de vasto aquário onde um jovem mergulha sujeitando-se, sabe-se lá, a um festim carnívoro, muita dentada e sangue diluído na mente do espectador.

E disto não se sai. Foda é o que se sabe no relativo a certas práticas sexuais, mas, fora das formalidades e dos salões, aplica-se também como qualificativo de coisa complicada, problemática ou com um elevado grau de dificuldade. Poucos saberão que é uma receita de cozinha para assar anho, cabrito ou borrego no forno, pingando para o arroz que enche um alguidar de barro vidrado. Coisas de Monção. É muito triste ser uma ovelha a anunciar esta hecatombe de ovinos e caprinos dizimados na primeira infância, 1 Pai Nosso e 3 Avé Marias pela sua triste sorte.

Uff, está o céu muito carregado. Vou-me daqui para Melgaço que é terra sossegada onde se come arroz de lampreia que assim mesmo se chama, tal qual. Lapa, Lapela, Monção, Valadares, o diabo leve estes quatro lugares, dizia-se no antigamente, 1 Pai Nosso e 3 Avé Marias para acomodar tão espaçoso esconjuro.

Por Álvaro Domingues autor de A Rua da Estrada.

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