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Rua da Estrada da Ilha Pura

Rua da Estrada da Ilha Pura

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ILHA Pura é o nome infeliz desta molhada de torres onde se empilham mais de 3600 apartamentos construídos para alojar os atletas das olimpíadas do Rio de Janeiro, 2016. Está tudo vazio esperando uma falência estrondosa que a banca pública engolirá e que o capitalismo privado com nomes conhecidos como a Carvalho Hosken e a Odebrecht chorará com muitas lágrimas de crocodilo nesta terra de Jacarepaguá, a enseada dos jacarés primos dos crocodilos das lágrimas.

Este reptilário de animais de sangue quente não pára de crescer. É a vitamina urbana dos nossos tempos que transforma tudo em máquina de fazer dinheiro, de o transportar do público para o privado, das comissões para as luvas, dos impostos por pagar para os paraísos fiscais, da fortuna de muitos para a falência de outros, do Estado tomado pelo capital para contas secretas que às vezes se descobrem (pouco). Chamam-se Parcerias Público-Privadas, PPPs para os mais treinados, às magias que o próprio Estado criou para se suicidar, pregando aos quatro ventos que assim combinaria as virtudes empresariais – sempre eficientes – à missão pública do Estado – sempre justo –, conseguindo a suprema peripécia de juntar a vertigem do dinheiro que faz dinheiro à ética do serviço público e da equidade ou da justiça social. Nunca se tinha visto tal coisa para lá do pequeno mundo das iniciativas das fundações privadas e de outras instituições que gerem legados acumulados em negócios justos e injustos.

Saravá – tudo se pode privatizar, concessionar, terciarizar: o esgoto, a água, a energia, os transportes, a paz, o pão, saúde, educação, como cantava o Sérgio Godinho nos idos de 74. Se o almoço é gordo e tem olimpíada, exposição universal ou outra grandiosa procissão, o apetite é voraz e ultrapassa toda a razoabilidade até rebentar. Rebentando, é o pobre que mais apanha. Essa parte não é nova.

Em tempos de liberalismo global, a retórica luminosa da cidade como dispositivo civilizacional emancipador, deu lugar a esta grandiosa raspadinha onde todos os valores se transformam em preço e toda a aragem libertária se converte em fumaça. Nos intervalos, para entretenimento empreendedor e ópio do povo, canta-se a cidade inteligente, verde, sustentável, ciclável e outros prodígios.

Por isso abunda o arame farpado, ilhas, arquipélagos, muros entre quem nada tem e a quem muito lhe sobra. Se para uns o negócio vai em maré viva, para outros é a coisa barata misturada com peixe graúdo, a extorsão de uns cêntimos aqui e ali, no gás, na milícia, no reino de deus, no narco, na renda da casa (chamemos-lhe assim ao abrigo sumário). Corrupção, dizem uns, informal, dizem outros. Não interessa, está tudo misturado na favela, no condomínio, no business center, no paraíso fiscal, no claríssimo contrato que o Estado (formalmente) assinou com assinatura reconhecida para finalidades conhecidas. Não há formal e informal claramente contrastados quando um se dissolveu no outro não interessa a ordem. Ficou tudo reduzido a uma terceira coisa, esguia, enguia, opaca. Salve-se quem puder.

SOBRE O AUTOR:
Álvaro Domingues (Melgaço, 1959) é geógrafo e professor na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, onde também é investigador no CEAU-Centro de Estudos de Arquitectura e Urbanismo. É autor de A Rua da Estrada. Colabora com o Correio do Porto desde janeiro de 2015.

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