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Rua da Estrad...

Rua da Estrada da conversa redonda

Foto: Álvaro Domingues

PARA muitas mentes bondosas e inocentes, a cama redonda é um assunto de incómoda abordagem. Não é coisa prática. Não faltam jogos de lençóis e edredons para camas normais de todos os tamanhos, mas é muito mais difícil a escolha do têxtil-lar redondo. É que a própria denominação têxtil-lar, com tudo o que a palavra lar significa, também não bate certo com a ousadia deste dispositivo oferecido à transparência e à devassa do asfalto. O lar é o recato, é o lar doce lar, o aconchego, a privacidade, a harmonia possível da vida em família. No lar da cama redonda com dossel negro tipo mantilha de quem vai para os fados e para a má vida, não se enxerga muito bem o recato e a privacidade. É vidro à volta sem um psiché ou um biombo que defina um atrás, uma coisa que tape alguma necessidade que apareça. Não há resguardo.

Na cama redonda não existe o conceito debaixo da cama. Nada. Nem um mínimo espaço para o vaso de noite. Claro que há o cadeirão mas, mesmo esse parece estar fora do sítio, praticamente em cima da cama. E depois aquele metal todo em modo facetado, os seixos brancos, os jarrões, os cactos, as palmeiras anãs. Não se sabe o que esta botânica nos está a querer dizer. O par de jarrões ia bem numa entrada, a coroar um portal, a rematar uma escadaria e outras cenas de jarrões a fazer parelha e sentinela. Aqui parecem perdidos. Por sua vez, os cactos são espinhosos, agrestes; têm aquele ar tropical e exótico das palmeiras mas a agressividade do cacto, o pico aguçado, não faz o género de planta que acompanhe alcovas e ambientes domésticos. Enfim, como o estranhamento sempre foi motivo de fixação da atenção, quanto mais o olhar se demora, mais se fixa na mente o vício e a fogosidade rosa tinto desta cama.

Alargando vistas, aparece a loja de móveis que regurgitou a montra para a frente quase no limite da estrada. A linguagem permanece fria, metal e vidro. Só a chaminé e o telhado cerâmico de duas águas denunciam uma casa que aqui houve: um lar, o fogo do lar. Agora chama-se outlet. Palavra difícil. Na língua de origem significa tomada de electricidade, saída, escape, escoamento, vazadouro, evacuação, etc.

É muito complicado. Percebe-se, claro, que é um negócio e todo o negócio precisa de escoar mercadoria, vazar. O que verdadeiramente me confundiu foi uma conversa que ouvia em surdina entre um casal que estava perto de mim e que entre risinhos, arrufos e apalpões, punha a hipótese de ir para a cama redonda, ou que o negócio atrairia mais curiosidade se eles estivessem na cama, ou coisa parecida. Percebi finalmente. Coisa a fazer lembrar aquele protesto pacifista que o John Lennon e Yoko Ono fizeram em Montreal, o então chamado bed-in para protestar contra a guerra no Vietnam. Hoje, não sei se o Trump apoiaria, mesmo que fosse por causa de uma intervenção na Coreia do Norte para resgatar o Kim Jong-un e traze-lo para os EUA para um concurso de penteados. O Trump é mais de muros e twitter. Aqui não há muros, é tudo transparente, acessível, circulável. Por isso é que a cama é redonda. Talvez, se calhar.
Uuuuff…

Por Álvaro Domingues autor de A Rua da Estrada.

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