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Teresa Guedes...

Teresa Guedes (1957-2007)

Há animais herbívoros,
há plantas carnívoras
e há pessoas pagívoras. 

§

POEMA DA CONSOANTE

No sambódromo
saltitam solas,
sinos, sinetas,
sainetes, sombrinhas,
sonhos, suspiros,
sorrisos, sustos. 

§

O meu lápis

É impossível pintar
a canção do vento
ou o choro das árvores
quando são abatidas. 

§

Avionar

“Não esteja na Lua
desça à Terra.”
E o menino a replicar:
“Não me chega esta terra.”
“Seja realista, terra a terra.”
“Mas eu sou do tipo ar, ar.”
E os olhos do menino
já eram balões quando a professora
lhe ordenou que saísse.
Despediu-se da colega e disse:
“Conto estrelas em ti”.
Ao sair, deixou na mesa da professora
o mais bonito avião de papel
que se possa imaginar.
Era uma prenda desesperada
de um menino triste
por não a poder contagiar.
Na sala, um silêncio ficou suspenso
por palavras que também quiseram
voar.

Teresa Guedes, in Real…mente, Caminho

§

Branco

Tenho a palavra branco
e não tenho rima nem poema para ela.
Vou levá-la para a noite e negociar
no mercado negro das palavras.

in Em Branco, Editorial Caminho, 2002, página 67

§

Neve

Todos os invernos as montanhas
se cobrem com edredões brancos.
Os turistas enfiam-se nos mais fofos e espessos. 

§

Geada

Estende-me um véu de tule
para eu noivar o chão.

in Em Branco, Editorial Caminho, 2002, página 12

§

Envelope

Abre-me para as tua palavras.
Lambe-me devagar.
Fecha-me com a tua saliva:
Branco no branco.
Depois prensa-me suavemente
com os teus dedos para colar
e verás empalidecer de inveja
e de prazer, faxes e e-mails
que pensam saber comunicar.

in Em Branco, Editorial Caminho, 2002, página 49

§

Maria Teresa Guedes nasceu em 1957. Licenciada em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras do Porto, concluiu, em 1988, a sua formação em serviço, da qual fez parte o estudo, apresentado à Escola Superior de Educação do Porto, que mais tarde viria a resultar na obra Ensinar Poesia (ASA, 1990). Foi professora efectiva do 2º ciclo do ensino básico em escolas públicas de Vila Nova de Gaia, onde vivia, e dedicou-se à dinamização de oficinas de escrita criativa, para docentes e alunos. Desde a sua estreia em livro, publicou três títulos de poesia para jovens (Em Branco, 2002; Real… mente, 2005; e Tu Escolhes, 2007) e diversas obras de incentivo à escrita de intenção literária em contexto educativo. Escrevia, versos, contos, crónicas. E amava a vida. Deixou-nos repentinamente em 25 de Setembro deste ano (2007), com uma obra por completar, uma obra ainda por cumprir. Marcada pelo humor e pelo dom da invenção e do jogo linguísticos, a sua escrita poética evidenciava também uma ironia discreta e um fundo sentido do humano, a que não era estranha uma notória agudeza na observação das relações entre pessoas.

A memória do luminoso ser que era e a importância dos livros que nos legou são motivo mais do que suficiente para aqui lhe rendermos afectuoso e merecido tributo.

Sito in http://195.23.38.178/casadaleitura/

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