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Francisco Duarte Mangas (1960)

Francisco Duarte Mangas (1960)

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23. Outono

das aves caem
as penas.
emigram as árvores
à procura de outro sol. 

22.
Primavera:
Quando te vejo pela manhã
apetece-me ser eterno. 

21.
na alfândega da fé
deus vasculha a cabeça,
o silêncio, os bolsos
dos fieis
só assim escusa a imoral simonia. 

20.
Furão é palavra bravia. 

19.
no amor em pousio
dorme uma tangerina
ainda verde 

18.
Toupeira
Um bicho verdadeiramente apaixonado
pela intimidade da terra. 

17.
a primavera é uma enxurrada
de verdura pelos campos 

16.
Truta
As tuas pintas cor de fogo
não as apaga a água, 

15.
Urso: escorre mel por esta palavra. 

14.
Urubu
Dos tempos de escola
só se lembra de uma vogal.

13.
Veado: Pequena árvore andante. 

12.
Vespa: Uma abelha
que não aprendeu
a ser doce. 

11.
Em Abril,
águas mil
não sei quantos
que fugiram
para o Brasil. 

10.
Xaputa: Peixe marinho. Em árabe o seu nome é xabbut. 

9.
o silêncio da água
abriga-se na raiz dos plátanos 

8.
as árvores são como os homens, embora
não andem. 

7.
os estorninhos outra vez
em bando pelo meio da névoa
que penúria tão funda os arrasta
como o povo do nosso tempo? 

6.
o fogo outonal nas árvore

prova que a beleza da natureza
se estende até à morte.

uma morte transitória. 

5.
a caça. abriu a caça os cães pela madrugada dentro sôfregos, cheios de doçura e morte. 

4. Janela

certas noites por aí
convido a lua
tomamos chá de cidreira
trocamos versos antigos. 

3. A barca dos dias

um dia cheio de chuva
sobe lentamente a barca
na sereníssima água do tempo 

2. Utopia realizável

é na rua que tudo começa.

hoje foi lindo: hoje voltei
a ter orgulho de ser português. 

1.
Na juventude gostava de pregar
partidas: batia às portas e fugia. 

Francisco Duarte Mangas (Rossas, 1960) foi professor três anos e jornalista durante quase três décadas. Autor de mais de duas dezenas de obras nos domínios da ficção, poesia e  literatura infanto-juvenil. O seu primeiro livro, Diário de Link, foi distinguido  com o Prémio Carlos de Oliveira. Geografia do medo, A morte do Dali , O coração transido dos mouros,  A rapariga dos lábios azuis e Jacarandá são alguns dos seus romances. No campo da poesia, publicou  Cavalo dentro da cabeçaEspécies cinegéticasPequeno livro da terra, Transumância,  Brévia e A Fome Apátrida das Aves. Na literatura para os mais novos começou com O elefantezinho verde;  contaria depois as histórias de O gato Karl,  O ladrão de palavras,  O noitibó a gralha e outros bichosA menina, Sílvio, domador de caracóis e O gato Karl- a palavraria. Com Augusto Baptista escreveu O Medo não podia ter tudo, e partilharia ainda a escrita de  Breviário do Sol e  Breviário da Água com João Pedro Mésseder.  Integrou a direção do Teatro Experimental do Porto-Círculo de Cultura Teatral, quando o TEP tinha sede na margem direita do Douro,  foi vice-presidente do Sindicato dos Jornalistas,  é o presidente da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto.

Foto de Augusto Baptista

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