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Francisco Dua...

Francisco Duarte Mangas (1960)

Foto: Augusto Baptista

Primavera:

Quando te vejo pela manhã
apetece-me ser eterno. 

§

na alfândega da fé
deus vasculha a cabeça,
o silêncio, os bolsos
dos fieis
só assim escusa a imoral simonia. 

§

Furão é palavra bravia. 

§

no amor em pousio
dorme uma tangerina
ainda verde 

§

Toupeira
Um bicho verdadeiramente apaixonado
pela intimidade da terra. 

§

a primavera é uma enxurrada
de verdura pelos campos 

§

Truta
As tuas pintas cor de fogo
não as apaga a água, 

§

Urso: escorre mel por esta palavra. 

§

Urubu
Dos tempos de escola
só se lembra de uma vogal.

§

Veado: Pequena árvore andante. 

§

Vespa: Uma abelha
que não aprendeu
a ser doce. 

 §

Em Abril,
águas mil
não sei quantos
que fugiram
para o Brasil. 

§

Xaputa: Peixe marinho. Em árabe o seu nome é xabbut. 

§

o silêncio da água
abriga-se na raiz dos plátanos 

§

as árvores são como os homens, embora
não andem. 

§

os estorninhos outra vez
em bando pelo meio da névoa
que penúria tão funda os arrasta
como o povo do nosso tempo? 

§

o fogo outonal nas árvore

prova que a beleza da natureza
se estende até à morte.

uma morte transitória. 

§

a caça. abriu a caça os cães pela madrugada dentro sôfregos, cheios de doçura e morte. 

§

Janela

certas noites por aí
convido a lua
tomamos chá de cidreira
trocamos versos antigos. 

A barca dos dias

um dia cheio de chuva
sobe lentamente a barca
na sereníssima água do tempo 

§

Utopia realizável

é na rua que tudo começa.

hoje foi lindo: hoje voltei
a ter orgulho de ser português. 

§

Na juventude gostava de pregar
partidas: batia às portas e fugia. 

§

Francisco Duarte Mangas (Rossas, 1960) foi professor três anos e jornalista durante quase três décadas. Autor de mais de duas dezenas de obras nos domínios da ficção, poesia e  literatura infanto-juvenil. O seu primeiro livro, Diário de Link, foi distinguido  com o Prémio Carlos de Oliveira. Geografia do medo, A morte do Dali , O coração transido dos mouros,  A rapariga dos lábios azuis e Jacarandá são alguns dos seus romances. No campo da poesia, publicou  Cavalo dentro da cabeçaEspécies cinegéticasPequeno livro da terra, Transumância,  Brévia e A Fome Apátrida das Aves. Na literatura para os mais novos começou com O elefantezinho verde;  contaria depois as histórias de O gato Karl,  O ladrão de palavras,  O noitibó a gralha e outros bichosA menina, Sílvio, domador de caracóis e O gato Karl- a palavraria. Com Augusto Baptista escreveu O Medo não podia ter tudo, e partilharia ainda a escrita de  Breviário do Sol e  Breviário da Água com João Pedro Mésseder.  Integrou a direção do Teatro Experimental do Porto-Círculo de Cultura Teatral, quando o TEP tinha sede na margem direita do Douro,  foi vice-presidente do Sindicato dos Jornalistas,  é o presidente da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto.

Foto de Augusto Baptista

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