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Domingos da Mota (1946)

Domingos da Mota (1946)

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29.
Senhora da pós-verdade,
dizei-me, porque mentis
com a naturalidade
dum Pinóquio sem nariz 

27.
O seu umbigo é o centro
do mundo    do universo
visto por fora ou por dentro
do direito       ou do avesso: 

26.
Não sei como dizê-lo, mas se vejo
naquela indiferença um não sei quê 

25.
Vira a noite
do avesso: a insónia
desalmada esmiúça 

24.
O offshore da minha rua é o mais secreto offshore da minha aldeia, 

23.
Dissesse do Natal o muito que
se olha sem se ver, aquando e onde
o outro é transparente, como se
fosse um corpo invisível que se esconde, 

22.
Onde se lê passado, deve ler-se presente.
Onde se lê presente, deve ler-se futuro

21.
Arrastado na fuga para a vala
comum que aprofunda a crueldade 

20.
Desaba o sol, o silêncio,
a dor no coração da terra
comovida; na levada 

19.
Ofício de verão –
a sede abrasa o canto
insurrecto das cigarras 

18.
Perdi a veia, ou melhor, se a tive,
alguma vez teria de a perder 

17.
Mesmo sem fé o coração se deita
a sondar o além, o que há-de vir
na época precisa da colheita 

16.
Acendeste o silêncio,
esse silêncio feito
de terra e cal, de erva 

15.
Usarei a palavra que me resta,
por muito que indicie algum desgaste, 

14.
Colho as flores negras do tempo
que murcharam no jardim; 

13.
Por tardia que seja, é sempre cedo
que se faz a viagem sem regresso, 

12.
Oiro da noite
pó das estrelas
chuva de cinzas 

11.
A voz que te nomeia
a boca que te chama
a língua que se ateia
não segreda – clama 

10.
Olhar as rugas, ver
as cicatrizes que o rosto
desenrola sulco a sulco: 

9.
Poema para não ler
pois que a cegueira o cobre
com a nudez a valer
e mesmo nu se desdobra 

8.
Engolir cobras, lagartos,
elefantes, crocodilos,
e calar, mesmo que fartos
de bramidos e sibilos 

7.
Não acodem as palavras
tão afastadas de mim 

6.
Quando dizes
que sim, que não,
que talvez,

5.
não sentes
a língua a dobrar-se,
não vês? 

4.
Não vou somar aquilo que perdi,
sequer subtrair o que ganhei 

3.
Vós que suportais a miséria imposta
por estes que outras coisas prometeram 

2.
Dado o dito por não dito
(irrevogável questão),
que pensar do sobredito
e do seu golpe de mão? 

1.
Este pov’assim
Aguenta tudo
Debita o banqueiro
E dobra o ministro
Um com ar cimeiro
Outro d’ar sinistro 

Domingos da Mota nasceu a 15 de Dezembro de 1946, em Cedrim, Sever do Vouga. Licenciou-se em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Trabalhou num laboratório da indústria farmacêutica. Reside em V. N. de Gaia. Tem poemas dispersos por colectâneas, revistas, jornais, e em diversos sítios do ciberespaço. Actualiza com mais frequência o blogue http://fogomaduro.blogspot.com .

Sito in http://domingosmota.blogspot.pt/

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