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O meu Mercado da Beira-Rio

O meu Mercado da Beira-Rio

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LÁ consegui pegar no sono, mas acordei pouco depois estendido em pleno mercado da Beira-Rio ao qual toda a gente chama de Praça, despertei com a algazarra habitual dos sábados de manhã. A Praça estava apinhada, procurei pela minha avó, sentia-me ainda meio atarantado com os restos de sono na minha cabeça. A minha avó conhece toda a gente. Desde o Bernardino da Padaria, o senhor Aguiar do Talho, ao senhor Silvino e à Mariazinha dos Frangos, dá-se com todas lavradeiras que vêm dos confins de Gaia que para mim era a mesma coisa que Trás-os-Montes, fala com todas elas. As mais velhas falam até acabar o ar nos tubos, às vezes falam de sítios e de épocas que me são estranhos. Tive de esfregar bem os olhos para acordar, apesar da confusão e do barulho.

Na parte do mercado onde estavam alinhadas as vendedoras de galinhas e de pintainhos, vi uma galinha enorme, com um peito enorme que tapava quase todo o avental que trazia à cintura e, à sua frente, havia uma gaiola com meia dúzia de mulheres anãs. Estas mulheres anãs tinham os pés descalços, vestiam uma roupa muito colorida e não pareciam estar muito incomodadas por estarem engaioladas. O mercado tinha sempre mais mulheres do que homens. As mulheres estavam divididas em dois grupos: as que tinham um corpo em pirâmide e as que tinham o corpo em pirâmide invertida. As mulheres-pirâmide tinham pernas muito gordas (algumas até tinham os tornozelos gordos como se as peles e a gordura das pernas tivessem caído de uma vez só) e as mulheres-pirâmide invertida tinham o peito muito, muito grande e roçavam-se sempre nas outras pessoas quando conversavam, parecia que traziam uma varanda debaixo do pescoço, com dois vasos redondos enormes. Andavam sempre tarefadas, essas mulheres tropeçavam em mim e quase que me calcavam para depois me deitarem um olhar de poucos amigos. Levantei-me. Dei duas voltas à Praça para tentar encontrar a minha avó. Percorri toda a rua de trás, a rua das Alminhas, que estava também cheia de gente. Estavam a descarregar sacos de batatas de pequenos camiões encavalitados uns em cima dos outros, do céu choviam pés de alface, tronchudas, agriões, nabos, nabiças, cenouras, pimentos de todas as cores, réstias de cebolas, tomates, fruta de todo o tipo, etc., etc., todos falavam ao mesmo tempo e todos se entendiam, quando alguém não entendia o que o outro lhe estava a dizer, essa pessoa berrava um palavrão e aí o outro já entendia. Fiquei um pouco tonto com tudo aquilo, ainda era muito cedo e eu estava em jejum, procurei por moedas nos bolsos, ainda tinha algumas embrulhadas em cotão do troco do dinheiro dos maços de tabaco para o meu pai.

Tornei a meter-me pela “rua de trás” quando senti uma espécie de um “cachaço” muito leve, muito meigo, como se me estivessem a fazer festas na nuca. Virei-me e a vinte metros de mim reparei numa menina muito bonita dentro de uma furgoneta a cair de podre. Deveria ser filha de um dos vendedores e estava a olhar fixamente para mim. A menina fez-me sinal com o dedo para eu me aproximar e depois apontou com o mesmo dedito para a minha avó que estava no talho do senhor Aguiar. Como é que ela conhecia a minha avó? Não me lembro de ter visto esta miúda antes e vou à Praça com a minha avó quase todos os sábados. Deslizei pelas folhas de couve e de alface esmagadas no chão até chegar ao talho. Mais uma vez, a minha avó e o senhor Aguiar do Talho estavam a falar de coisas muito antigas, da primeira grande guerra, da fome, da miséria, etc. e quando apareci por entre as fitas coloridas da soleira, a minha avó fartou-se de me insultar. Levei uma descompostura daquelas à frente do senhor Aguiar que não parava de cortar ossos. Atrás dele, havia um quadro dos Alpes com uma vaca deitada num enorme prado verde a olhar para nós. Já era quase meio-dia e a minha avó estava cansada de acartar com as sacas das compras de um lado para o outro. Ainda tentei arranjar desculpas, “Mas óh bó, mas óh bó”, mas a minha avó lançou aquele seu olhar de morte que me trespassou a cabeça e eu calei-me logo. Não posso ser pardal quando a minha avó se zanga, ela podia matar-me só com os olhos que parecem estar sempre a desembaracem-se dos nós feitos pelas muitas rugas que ela tem nas covas dos olhos. O Manel desatou logo às gargalhadas. O Manel é filho do senhor Aguiar e seu ajudante. Eu gosto do Manel, anda sempre com a barba por fazer e é daquelas pessoas que estão sempre a sorrir. Traz a bata toda ensanguentada, cheia de medalhas de sangue, nunca vi aquela bata limpa, isto só pode querer dizer que ele adora o seu trabalho. O senhor Aguiar pediu-lhe para ir buscar carne do vazio. Ele abriu a porta da enorme e antiga câmara frigorífica, imaginem uma roulotte sem janelas e sem rodas metida num talho, vestiu um kispo, entrou e fechou a porta grossa atrás de si. Quando eu e a minha avó nos despedimos do senhor Aguiar, o Manel ainda não tinha saído. Saímos sem a carne do vazio. Ele é como eu, adora o frio, um dos meus sonhos é ir à Lapónia ou ao Pólo Norte. Eu acho que a câmara frigorífica tem um acesso secreto a um longo túnel que vai dar ao fundo do oceano e que depois sobe até ao Pólo Norte onde o Manel anda à caça de focas. Talvez seja por isso que o Manel demora tanto tempo a sair da câmara. Talvez seja por isso que os dois, o Manel e o pai, chamam-na de carne do vazio, porque o Pólo Norte é um imenso vazio branco.

SOBRE O AUTOR:
Pedro Amaral, natural do Porto, nasceu em 1974. É tradutor freelancer.
É autor do blogue Pedro e o Lobo. Iniciou a sua colaboração com o Correio do Porto em 2016.

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