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O Bernardino

O Bernardino

ENTREI na padaria do Bernardino que ocupava uma das lojas exteriores do mercado. O Bernardino usa uns velhos óculos bastante graduados que lhe aumentam os olhos. Quando limpa os óculos, os seus olhos parecem dois pontos finais debaixo da testa cheia de travessões. Os olhos do Bernardino têm vida própria, isto é, cada olho olha numa direcção diferente do outro, quando o esquerdo olha para cima, o da direita olha para baixo ou para o lado. É muito confuso quando queremos pedir-lhe alguma coisa.

O Bernardino engana-se sempre no troco a seu favor e a minha avó manda vir sempre com ele. Tem o péssimo hábito de caçar moscas com a sua língua de camaleão, mesmo à frente dos clientes, e fica pior que estragado quando alguma mosca lhe escapa ou quando vê uma a dançar e a esfregar as patitas em cima de um molete como que a dizer “és todo meu”. Apetecia-me um bolo mas como não tinha dinheiro suficiente, pedi um cantinho de broa. Adoro trincar a côdea da broa de milho e depois amassar o miolo com a língua.

Perguntei-lhe pela minha avó, mas ele é meio surdo (ou faz-se), já estava concentrado a caçar uma varejeira com a sua rapidíssima e compridíssima língua roxa. Certa vez, uma mosca velha entrou-lhe para o olho esquerdo e nunca mais de lá saiu e ele diz que vê as coisas e as pessoas como um…calei… um ca-lei-dos-có-pio (desse olho), vive aterrorizado que outra mosca faça o mesmo no outro olho. Tornei a meter-me pela rua de trás quando senti uma espécie de um “cachaço” muito leve, muito meigo, como se me estivessem a fazer festas na nuca. Virei-me e a vinte metros de mim reparei numa menina muito bonita dentro de um furgão velho. Deveria ser filha de um dos vendedores e estava a olhar fixamente para mim.

A menina fez-me sinal com o dedo para eu me aproximar e depois apontou com o mesmo dedito para a minha avó que estava no talho do senhor Aguiar. Como é que ela conhecia a minha avó? Não me lembro de ter visto esta miúda antes e vou à Praça com a minha avó quase todos os sábados. Deslizei pelas folhas de couve e de alface esmagadas no chão até chegar ao talho.

Texto de Pedro Amaral e ilustração da Wikipédia

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