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ATM

Ilustração de Rui Ricardo

O MOÇO deixa-se cair pesadamente no único lugar livre e dá um longo suspiro para que os outros dois sentissem um pouquinho a sua dor. Aquele corredor era um desfile de voluntárias, auxiliares, administrativas, enfermeiros e enfermeiras, médicos e médicas. Um dos homens que estava sentado à espera de consulta de urgência acena-lhe com a cabeça como se o conhecesse e continua a conversa.

Tinha dito à minha catraia que queria ir ver os primeiros raios do sol do ano, sabe como são as mulheres, queria impressioná-la, ano novo, vida nova, não queria meter a pata na poça como fiz com as outras…ela ficou toda contente, vestiu-se à pressa, já estava com as cuequinhas novas do ano novo, as gajas são muito supersticiosas, que sonho, meu Deus, você não está bem a ver a minha catraia, um docinho. Bom, fizemos o que tínhamos a fazer e, vai daí, saímos pela garagem privada. Estes gajos dos motéis pensam em tudo. Metemo-nos no jipe e fomos até à serra de Santa Justa. Já lá foi? Tem umas vistas do Porto ao longe…É muito bonito, muito verde, aqueles ares, aquela natureza…bom, meti-me pelo corta-fogo, ala por ali acima, 145 cavalinhos a puxarem forte e feio, conheço o monte como a palma da minha mão. Mas não é que quando chego a meio, o caralh…o caraças do motor começa aos soluços e a deitar fumo por tudo quanto é lado? Saí, tava um frio de rachar, abri o capô. Que fumarada, meu Deus, e vou a ver, era a junta da colaça que tava toda queimada. Falta de água. Como é que é possível. E eu, ah put… pulha que pariu que não tenho sorte nenhuma. E a catraia dentro do carro a olhar para mim, como que a pensar, como é que fui-me meter com este tonhó. Você está a ver a minha vida? Pior ainda, qual era o reboque que me vinha buscar o jipe na madrugada do Ano Novo, ali no meio do monte?…

Senhor Alfredo Ferreira?
Parreira, Parreira, emenda o homem que estava a contar a história.
Oh, Parreira, sim, desculpe. Faz favor.
Tava a ver que não. Não vou gritar como o colega que acabou de sair, pois não, seu doutora?
A médica que abriu a porta era novinha, tinha um ar simpático, aponta com a mão para o interior do gabinete. O outro homem, mais velho, continua sentado e bate com o indicador na têmpora como que a dizer que o outro não jogava com o baralho todo, devia ser maluco.

Sempre que passava uma médica ou enfermeira mais jeitosa, o velhote descruzava os braços, seguia o derrière da senhora com o olhar e depois coçava o cachaço ou as narinas, ou então passava as mãos pelas calças e queria que o jovem sentado ali a seu lado fosse cúmplice naquela sua avaliação. O velhote estava empenhado em fecundar as doutoras e as enfermeiras com o seu olhar azul-maroto, mas sozinho não dava conta do recado, queria que ele o ajudasse. Mas o moço não lhe deu troco, estava a olhar em frente para a porta, esperava pela sua vez, parecia uma daquelas estátuas dos faraós sentados com as mãos em cima das pernas. Ao aperceber-se que o moço não estava para ali virado, o velho apoiou os cotovelos nos joelhos e tapou a cara com as manápulas.

Ai meu Deus, meu Deus, estou condenado, estou tão sozinho neste mundo, gemeu ele baixinho.
Deus devia estar atento naquele momento: assim que o sénior acaba de invocar o Seu nome, a porta do consultório abre-se e uma luz cor de pérola é derramada sobre aquela ovelha. O contador da história do jipe sai disparado pelo corredor, parecia que ia tirar o pai da forca.

Sr. Romão Correia?, alguém gritou do consultório.
O velhote pega num envelope grande e salta lá para dentro já com outro ânimo.
Dá licença, seu doutora?, e bate com a porta.

Duas mulheres de meia-idade muito parecidas, deveriam ser irmãs, sentam-se nos dois lugares vagos. Não cumprimentam o moço. Começam a falar sem parar, falam de tudo e de nada, da filha de uma, do marido de outra, de fulano, sicrano e beltrano, falam, isto é, metralham palavras sem se preocuparem se a outra estava atenta. Uma pegava na última palavra da outra para encadear o respectivo chorrilho de desabafos até ficar sem fôlego, ou então falavam ao mesmo tempo, eram o muro das lamentações uma da outra. Parece que já não se viam há anos e escolheram o hospital de Santos Silva para se reencontrarem e falarem das suas vidas e das vidas dos outros.

Ouve-se um aaaahh seguido de um aaaiiiiiii abafado pela porta, as duas irmãs calaram-se e arregalam os olhos, parece que naquele momento se deram conta do sítio onde estavam.

Aiiii, aiiii meu Deus. Aaahhh.

A carnificina prosseguia lá dentro. Sempre que ouviam um berro ou um gemido, as mulheres estremeciam, limpavam os assentos com os rabos largueirões e irrequietos, temiam pelas suas vidas. Como se não bastasse, ouviam-se ruídos de instrumentos metálicos a caírem numa tina também metálica, faziam um estridor brusco e distinto, como se o médico estivesse a ter acessos de raiva ou de frustração.

Mas que diabo estão a fazer àquela pobre criatura?, pergunta uma delas enquanto passa a mão pelo pescoço.

Um sorriso sádico perpassa o rosto do moço, estava a desfrutar ao quadrado, dos gritos de dor do velhote e da inquietação daquelas duas talassas. A porta do consultório volta a abrir-se. O velhote ressuscitou, mas tinha um ar miserável, vinha a agarrar o pescoço.

Não se esqueça de levar essa credencial à recepção, ouviu senhor Romão? Essa tiróide tem de ir ao sítio, as melhoras, disse uma voz feminina.
O senhor Romão acena tristemente com a cabeça para dentro da sala e depois arrasta o seu corpo torturado pelo corredor, já não queria saber dos traseiros clínicos que passavam por ele.

Sr…Lúcio Ribeiro, faça favor de entrar, era a voz da médica de há bocado.
Já tinha dito que a médica era novinha, compacta, tinha uns maravilhosos e atentos olhos castanhos, como uma corça, a voz era quente e melodiosa, via-se que gostava daquilo que fazia. Deveria estar a tirar a especialidade.
Pode sentar-se ali, quer que pendure o seu casaco?

Sentado atrás da mesa, estava o outro médico, cabelo grisalho, tinha as pernas compridas, a cabeça era demasiado pequena para o corpo, fazia lembrar um periquito com pernas de cegonha, os óculos tentavam equilibrar-se na cana do nariz azul.

Ora o que é que o traz por cá, seu…Lúcio, pergunta o médico enquanto batia no teclado sem tirar os olhos do ecrã.
Dói-me a garganta, disse o moço.
Ai sim? Então está no sítio certo, responde o médico enquanto olhava por cima dos óculos para o ecrã e fazia uma careta.
Diga aaah, pediu a médica. Usava um fotóforo na cabeça, uma espécie de bandolete mais sofisticada com uma luzinha potente no meio.

Como é procedimento habitual nestes exames, o rosto da médica ficou a um palmo do rosto do moço que se sentiu incomodado e desviou o olhar para o tecto. A médica era ainda mais bonita àquela distância.
Estes dentes não estão lá muito famosos, pois não, seu Ribeiro? Ora ponha mais a língua de fora.
Ela vasculhou os instrumentos da tina na mesinha ao lado, parecia que estavam a acotovelar-se uns aos outros para serem escolhidos, tinham formas arrepiantes, intrusivas, a médica pegou no menos agressivo, naquele que servia para afastar a língua.

Então. O que temos aqui?, o médico finalmente levanta-se e enfia as mãos nos bolsos da bata.
Onde é que lhe dói mais precisamente? Pode falar.
Aqui, diz o moço e põe o dedo no lado esquerdo da maçã-de-adão.
Faça assim.
A médica começa a abrir e a fechar a boca devagar.
Dói-lhe o maxilar, é isso?, pergunta o médico.
Um bocado.
Dói-lhe a cabeça, mastiga pastilhas elásticas, range os dentes enquanto dorme?
Não sei.
Não sabe se mastiga pastilhas elásticas?
Às vezes.

O médico dá a volta à marquesa e começa a apalpar o ponto de união dos maxilares do paciente. A interna observa-o atentamente.
Tiróide, outra vez? Isto hoje…Mas parece-me que esta não tá inchada.
Não. ATM, ATM, ATM, dispara o médico enquanto contorna a secretária. Volta a sentar-se.
A interna comprime os lábios em jeito de sorriso e encolhe os ombros.
O que é isso?, pergunta o moço que já estava a suar da testa, queria sair dali para fora o mais depressa possível.

O médico tira os óculos e aperta a cana do nariz com os dedos. Coloca-os outra vez e examina o doente que estava à sua frente. Demorou três segundos para concluir que ele era meio néscio, que não valia a pena perder tempo com explicações de diagnóstico e começa a bater com frustração no teclado. Passa subtilmente a bola à colega que estava ali para aprender, ela deveria saber o que lhe esperava quando escolheu a profissão.

Disfunção da articulação temporo-mandibular, ATM é a abreviatura em inglês. Não tem nada a ver com as caixas multibanco.
A interna pisca-lhe o olho, mas ele não reage. Ela continua com a aula.
A articulação temporo-mandibular liga a mandíbula inferior ao osso na parte lateral da cabeça, no osso temporal. Se colocarmos os dedos à frente aos ouvidos e abrirmos a boca, conseguimos sentir as articulações. Aqui, assim, está a ver? Ora como essas articulações são flexíveis, a mandíbula pode mover-se suavemente para cima e para baixo e para os lados, o que nos permite falar, mastigar e bocejar. Os músculos ligados e ao redor da ATM controlam a sua posição e movimento. As disfunções da ATM enquadram-se em três categorias principais, dor miofascial, que é a mais comum disfunção da ATM, envolve dor ou desconforto nos músculos que controlam a função da articulação, desarranjo interno da articulação, que pode envolver um deslocamento do disco cartilaginoso intra-articular, deslocamento da mandíbula, ou lesões do côndilo mandibular e artrite que se refere a um grupo de doenças degenerativas ou inflamatórias que pode afectar a articulação temporo-mandibular e…

É interrompida pelo colega mais velho que se levanta de repente e entrega um papel ao paciente.
Jovem. Leva aqui a receita. Vai tomar um anti-inflamatório e um analgésico para as dores. As melhoras.
O moço aceita o papel, dobra-o e tira o casaco do cabide. A futura médica é daquelas pessoas que está sempre bem-disposta, resolve dizer uma laracha.
Mas pode continuar a usar as caixas multibanco, ouviu, seu Lúcio?

O moço fica a olhar para ela por uns segundos com o papel na mão. Depois, roda a maçaneta e vê que as duas irmãs mature continuam sentadas. As mulheres foçam-no de cima e baixo até desaparecer no fundo do corredor.
Senhor António Gonçalves Faria, novamente a voz tépida da interna a chamar pelo próximo paciente.
As duas mulheres levantam-se ao mesmo tempo e apressam-se a entrar no consultório.

FIM

Texto de Pedro Amaral e ilustração de Rui Ricardo

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