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O homem que s...

O homem que sopra música pelos dentes

CHEGADO ao dentista, de pronto denuncia o orifício entre os incisivos cariados. Mas impõe que no afã do tratamento, no denodo da oclusão lhe não barrem o ar. O ar, soprado pelo furinho. Ar que se faz música, quando ele beija a harmónica.

Publicado originalmente in O homem que, edição de autor, Porto, junho de 2008, página 16.

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EM noites de tempestade, gosto de abrir a janela, sair. Quem me surpreender depois a vadiar num céu de relâmpagos, talvez julgue ver um anjo migrante, tresmalhado do bando. Um anjo a voar. Enquanto, a saltar entre lianas de luz, eu, simplesmente Tarzan.

Publicado originalmente in Histórias de coisa nenhuma, Campo das Letras, novembro de 2000, página 67.

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Garnisé

ERA uma vez um garnisé que virava tudo de pernas para o ar. Desesperados, os pais arranjaram-lhe namorada, uma jovem sereia muito senhora do seu nariz.

Breve, o garnisé lhe deu a volta, casaram. Na cerimónia, ele vistoso, ela fantástica: metade mulher da cintura para baixo, metade peixe da cintura para cima.

 Publicado originalmente in Elucidário Oblíquo do Reino dos Bichos, Edições Gatopardo, outubro 2004, página 20.

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O homem que alimenta a esperança

POR recomendação das vizinhas, desde miúdo a mãe lhe untou a débil cabeleira com petróleo: Faz muito bem à seborreia, Aurorinha! E reforça o pêlo! Anos de viscosa terapia transformaram-lhe a cabeça num tubérculo hirsuto.

Hora de crise, ao saber do caso as petrolíferas prospectaram e a extracção foi iniciada em clima de euforia.

A festa não tardou a exaurir. O país tem agora muita fé num projecto de energia eólica, no alto da careca.

Publicado originalmente in O homem que, edição de autor, Porto, junho de 2008, página 43.

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JÁ não conseguia falar. O marido chegava a casa, ladrava! Nem um raciocínio articulado, uma serena troca de palavras, uma meiguice. Só ladrava, o cão!

Entre paredes, ainda era com o bobi que ela conversava. Era a sua companhia, o seu amigo, o confidente.

Um dia, o cão do marido sempre a ladrar, farta, juntou os trapos. E foi viver para a casota.

Publicado originalmente in Histórias de coisa nenhuma, Campo das Letras, novembro de 2000, página 9.

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Fauna fantástica

EU miúdo, era o Senhor Ribeiro, o Penacho, que me cortava o cabelo: uma hora de tortura capilar, muitas de horror capital. As histórias: bruxas, tranglomanglos, lobisomens, estafermos, faunos, almas-penadas, bichas-cadelas em poções e feitiços. E as encruzilhadas?! O tardo! O arrepio, tic! tic! tesoura a arrancar-me o cabelo, pêlo a pêlo.

– Nunca tal vi. Parecem pregos! – judiciava o barbeiro, enquanto discorria, douto, por diabelhos em Vilar, luzeiros em Macinhata, encostos na vila.

Chegava a casa, cabelos em pé. A minha mãe olhava displicente, atribuía o assarapanto ao corte à escovinha. A razão era outra, sabia eu, sabia ele, o Penacho, o Senhor Ribeiro, o velho Mestre que me apresentou toda a fauna fantástica a operar então na minha terra.

Publicado originalmente in Elucidário Oblíquo do Reino dos Bichos, Edições Gatopardo, outubro 2004, página 18.

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O homem que vem à rua respirar ar puro

PASSA a vida no escritório, preso aos processos a cheiras a mofo, entontecido pelos comentários dos colegas sobre as últimas da telenovela, nauseado pela exaltação do perfume do chefe. Para escapar à asfixia, valem-lhe as surtidas até à rua a ferver de trânsito, pé na soleira, mão suspensa no fumo de um cigarro.

Publicado originalmente in O homem que, edição de autor, Porto, junho de 2008, página 45.

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TODAS as noites, contava as estrelas. Praticamente nunca fizera outra coisa na vida. E, uma a uma, longos anos naquilo, chegou a uma procissão de algarismos. Um número a morder o infinito.

Num serão aziago, entre a Cassiopeia e Orion, de repente, o lapso! Sereno, o velho astrónomo voltou ao princípio.

Publicado originalmente in Histórias de coisa nenhuma, Campo das Letras, novembro de 2000, página 37.

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Delfim

O PASSARITO chilreante agachou um dia a cabeça entre as asas, apaixonado pela tristeza. Os amigos tentaram arrancá-lo à morrinhice. Fosquinhas, cócegas, brincadeiras: bolinha de papel amarrotado, Delfim.

Aquela prostração adveio-lhe após sobrevoo à Terra do Desencanto, chãos de amargura regados com lágrimas, sem gente, sem árvores, sem bichos. Desde aí, entre os galhos da oliveira velha, deixou-se mirrar.

Uma manhã, Delfim acordou animado. Foi à Terra do Desencanto, esgravatou o chão negro, e do bico soltou uma estrela: pequena, diminuta semente de Sol.

Publicado originalmente in Elucidário Oblíquo do Reino dos Bichos, Edições Gatopardo, outubro 2004, página 15.

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O homem que era um pai babado

OS miúdos aprendem a escrever cada vez mais cedo, facto positivo, mas que não deve ser tomado como valor absoluto, a ponto dos encarregados de educação baixarem o nível de exigência linguística, tolerarem grosseiros atropelos ortográficos. Ainda há pouco, o Aniceto, já quase com um ano de idade, assinava com dois ss, ante o gáudio do paizinho!

Publicado originalmente in O homem que, edição de autor, Porto, junho de 2008, página 63.

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O QUE o miúdo tinha pela frente não era pêra doce. Arregaçou as mangas, pôs a mão na massa. Mas a mãe viu e foi o fim da macacada:

– Toninho, então é assim que se come a aletria!?

Publicado originalmente in Histórias de coisa nenhuma, Campo das Letras, novembro de 2000, página 59.

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Besugo

NA ilha, avó e netos, apreensivos. Quase meio-dia e a Besugo sem voltar. Ontem veio cedo, miados doridos, pata arrastada.

Fora e dentro, em corrilório, os miúdos. Entre a fome e a esperança. De repente, um na janela:

– Vem aí!
– Fala baixo – a avó, baixinho.

Martírio a tingir linha rubra no empedrado, a gata arrasta-se em ensanguentada marcha-atrás, carne em posta grande a sair-lhe pela boca. Impressiona.

Sem alarido, galgam à rua, resgatam ao animal a agonia. E entram na cozinha de roldão, Besugo ao colo, festejada. Portas cerradas, para trancar aromas, a avó passa por água o confisco. Breve, na sertã a crepitar, bifanas.

Publicado originalmente in Elucidário Oblíquo do Reino dos Bichos, Edições Gatopardo, outubro 2004, página 9.

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O homem que perdeu o Pai Natal

AINDA no berço, conheci-o. Lembrança difusa, odor a canela. Depois, miúdo, recordo-o num hálito quente e nítido de bacalhau e batatas, pés de tronchuda, a boca da panela, sempre a maior, baforadas densas a enevoarem a cozinha. Iluminada pela toalha de linho da avó, mesa farta: bilharacos, rabanadas, uvas passas. E nozes, pinhões, apesar do preço.

O tempo da família grande.

Todos apareciam. E ele não faltava. Chegava tarde, ceia alta, por volta da hora explosiva do espumante, rolhas no tecto em ricochetes cegos. No auge do alvoroço, pam! Todo o mundo, pam!, transido, se calava. As pancadas, pam!, as três pancadas com a acha na grelha do fogão a lenha. O sinal.

Recuperada a respiração, algazarra, saltávamos aos brinquedos. No frenesim do que eram meu, teu, por ali andaria ele na cozinha, embora com rigor e em verdade nunca nos tenhamos cruzado, o tenha visto.

Anos mais tarde, a mudança para a cidade, um sem-regresso ao aconchego da velha casa. E a revelação cruel de todo o embuste.

Longo luto.

Um dia, homem feito, às compras num centro comercial, de repente, em carne e osso, à minha frente: o patriarca da infância. As mesmas barbas brancas!

Não mais larguei o meu herói. Deslumbrada sombra, segui-o para todo o lado, horas a fio. Até que às tantas ele se aproximou e, baixinho, barbas coladas ao ouvido, se aproximou e disse para eu o esperar mais adiante, ao dobrar da esquina. Que ia só ali, e vinha já.

Publicado originalmente in O homem que, edição de autor, Porto, junho de 2008, página 8.

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O homem que diz mãe, minha senhora mãe

CADA dia mais encolhida ele a vê, mais minúscula no contexto ele a acha: os degraus da escadaria a alçarem-se verticais, o pulinho do quarto para os outros aposentos a fazer-se jornada penosa, a cama a abrir-se em precipício no tapete, a distância da boca ao garfo a ganhar proporções de miserável humilhação.

Publicado originalmente in O homem que, edição de autor, Porto, junho de 2008, página 56.

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COMEÇOU por escrever um calhamaço: mil e duzentas páginas. O editor sugeriu redução. Cortou metade. Mesmo assim, nova proposta de síntese. Novo corte. E outro, e outro. Por fim, a obra lá saiu, magra e alva, densidade absoluta. Em capa dura, o título: Uma página em branco

Publicado originalmente in Histórias de coisa nenhuma, Campo das Letras, novembro de 2000, página 32.

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Ambidextro

SIGNIFICA destreza à direita e à esquerda: homem hábil com as duas mãos; touro que marra exacto com qualquer dos cornos; muar rigoroso a escoucinhar com ambas as patas; jacaré que abocanha com igual desembaraço para os dois lados.

Publicado originalmente in Elucidário Oblíquo do Reino dos Bichos, Edições Gatopardo, outubro 2004, página 8.

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Mirim

O DIA, a data, a gata preta: pensou em azar. Pensou no azar de, justo naquela sexta-feira treze, lhe morrer a gata, a sua velha gata preta. Recusou sepultar a dor no lixo da cidade: numa caixa de cartão embalou o corpo pequenino, amortalhado numa tira de lençol, partiu com o discreto esquife debaixo do braço. Chegado à terra-mãe, horas de viagem, buscou a enxada, gume enferrujado pelo pousio, cavou. Fundo, o mais fundo do que alcançou no solo empedernido, cavou. Cavou como quem busca um aconchego, umas mãos abertas, um ninho, um berço essencial para cingir a velha companheira, neste chão indócil de palavras.

Publicado originalmente in A minha laranjeira e outros contos, Edições Gatopardo, abril 2013, página 4.

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O homem que caçou a deusa

Levou a arma à cara. Cano virado par o céu, um tiro. A criatura, cega ao rumo que levava, caiu.
-Busca, Flecha! – ordenou o caçador.
A perdigueira, a abanar o rabo, fez-se ao monte. Breve regresso: na boca, Diana, morna ainda.

Publicado originalmente in O homem que, edição de autor, Porto, junho de 2008, página 30.

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Abelharuco

PÁSSARO que come abelhas. Se comesse melgas, seria um melgaruco; moscas, um moscaruco; borboletas, um borboletaruco; cigarras, um cigarruco; joaninhas, um joanhinharuco; homens, um morticínio. De pássaros.

Publicado originalmente in Elucidário Oblíquo do Reino dos Bichos, Edições Gatopardo, outubro 2004, página 7.

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A minha laranjeira

TENHO uma laranjeira no quintal, plantada por minhas mãos um dia, pequenina, a bem dizer criança, que no Inverno se cobre de frutos para mim. Por mais que a admoeste, lhe recomende temperança, todos os anos o esgaçar costumeiro dos braços crivados de frutos, no chão molhado. Comovido, nas noites frias, cinjo-me a ela e, tronco com tronco, juntos carregamos o martírio. Até ser manhã.

Publicado originalmente in A minha laranjeira e outros contos, Edições Gatopardo, abril 2013, página 2.

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O homem que vê à distância

QUANDO os jornais publicaram Saturno visto pelos olhos da sonda Cassini, o homem recortou a fotografia com religioso trato, colou-a na parede, em destaque. Ao alcance da mão, anéis iluminados, Saturno; longe, a Terra, ponto adivinhado em tons esvaídos.

Agora, quando coisa adversa sobrevém, num instante se põe em casa. E fecha-se no quarto, a matutar na estampa.

Publicado originalmente in O homem que, edição de autor, Porto, junho de 2008, página 28.

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Perda irreparável

PERDEU o cabelo, comprou peruca. Perdeu os dentes, adquiriu placa. Perdeu mulher, casou de novo. Perdeu os filhos, fez outros tantos. Perdeu os sentidos, reanimou. Perdeu o comboio, foi despedido.

Publicado originalmente in Histórias de coisa nenhuma, Campo das Letras, novembro de 2000, página 99.

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OBSERVADOR, o empregado do snack mede o cliente: nariz abatatado, olhos de ovo estrelado, bochechas de bife mal passado.
– E para beber?

Publicado originalmente in Histórias de coisa nenhuma, Campo das Letras, novembro de 2000, página 44.

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A noite das facas longas

ABRE o bilhete, dobrado em quatro, que ele lhe deixou sobre a mesa do café. Lê, dissimuladamente:

Espero-a esta noite. A porta da rua fica encostada. Seja cuidadosa, que ninguém a veja entrar. Eu próprio tratarei da ceia. Uma receita da minha falecida avó: carne esfaqueada em tiras, chouriço de sangue golpeado, uma cabeça de alho esmagada, batata a murro. E prometo-lhe sangria, à luz de velas.

Volta a dobrar o bilhete em quatro. Com a ponta e mola corta o papel aos bocadinhos, corta o papel aos bocadinhos, corta o papel aos bocadinhos, e decide arriscar.

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O mergulho

OLHA a íngreme sucessão de degraus, devagar faz a ascensão penosa. Atingida a prancha principal, prepara o salto: ergue os braços, flecte ligeiramente as pernas, logo num impulso vigoroso voa para diante, para cima. Desenha uma curva exacta e, veloz, o corpo em prumo irrepreensível, silva para o poço mais fundo – detesta falhar projectos – e, em rigoroso ângulo recto, fere a imaculada superfície azul. Ainda a cheirar a tinta fresca.

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Circunscrever

O HOMEM pançudo assomou ao patamar abobadado do edifício e disparou para o céu. Um pássaro caiu, redondo, no exacto centro da rotunda. Intrigado com a geometria do facto, o homem inspeccionou a boca da arma. E a concluiria da mesma natureza do orifício entretanto entre olhos, se acaso houvesse sobrevivido à acidental  coincidência desta prosa circunscrita.

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A cidade fraterna

O VENEZIANO Marco Polo muito falou a Kublai Kan, imperador mongol, da cidade fraterna que dura uma noite. Esse relato o conheceu Italo Calvino, sem que entretanto a tenha arrolado entre as urbes invisíveis que a seu tempo deu a saber, por de todas ser a mais fantástica, tanto que se tornaria inverosímil.

Todos os anos, noite certa, quando o velho jacarandá é uma grande flor azul, nasce a cidade. Os circunspectos cidadãos com fazenda encerram seus graves ofícios e, acompanhados das virtuosas famílias, vêm para a rua folgar com os pobres, os chulos, as prostitutas, carteiristas, polícias, frades, ateus, gente de todas as crenças que ali arriba de longínquos tempos e remotos lugares.

Entre fumaça, balões, pirilampos, carrosséis, foguetes, música, comem, bebem. Incensam-se com ervas, expiam excessos em altos fogaréus saltando e, honra a um orago sem cabeça, dançam. Dançam e martelam-se. E martelam-se. Martelam-se uns aos outros, na cabeça.

Fraternal desatino.

Súbito, mariposa contra a vidraça da manhã, a cidade falece.

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Textos de Augusto Baptista

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