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A mulher ilum...

A mulher iluminada

ENTRO no metro e logo me perco na mulher, excêntrica aristocrata ávida de aventura, certamente. Outros passageiros vão embalados na mesma volúpia, entretidos no mesmo jogo de olhares. Vestido negro, tecido caro, a todos ela corresponde. Dálmata aos pés, um longo lenço, jorro azul-mar, lhe cai dos ombros sobre as mãos, os joelhos nus, a pele clara. Fim de linha, eu esquecido do destino que levava, fixamente a olhá-la, fixamente a olhar-me, se levanta. Onda, luz incendiada, sai. Por perto o cão a guiar-lhe os passos.

Publicado originalmente in A minha laranjeira e outros contos, Edições Gatopardo, abril 2013, página 10.

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Lesma

A BATIDA cadenciada do tacão, o olhar, o perfume: elucidação sensitiva sobre a feminina silhueta que ilumina o passeio, a rua, a manhã. A cruzar o radioso rumo, peganhosa, negra, uma lesma. Toneladas por milímetro quadrado, o tacão intercepta o vil atrevimento.

Pof!

Na extrema singeleza. o acto exprime a diferença de estatuto animal entre a calcadora e a calcada ou, genericamente, o papel dominante da Humanidade face às humildes criaturas. Emaranhados juízos o caso poderia ainda suscitar, fértil universo abstracto consumado na concreta e oleosa síntese de babas, ranhetas, gorduras, ordinários mucos espremidos na decisão derrapante dum sapato.

Pof!

Custa vê-la, na colossal potenciação do passo determinado, espalmada contra o muro de granito, massa de serosidades e matérias, a esvair-se. Rente à amálgama espapaçada em que se constitui, visão desfocada, consegue entrever uma ridícula, nojenta, parda presença, que, parada, vai andando.

O arrastado ir, diante do seu perene imobilismo agora, provoca-lhe um tal enervamento que se alevanta e, toneladas por milímetro, com o t

Um aroma de perfume caro desfalece na manhã.

Publicado originalmente in Elucidário Oblíquo do Reino dos Bichos, Edições Gatopardo, outubro 2004, página 26.

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O homem que caminhava na lezíria

A ÁRVORE que dormia na semente acordou de supetão. E irrompeu em raízes, tronco, ramagens, flores, frutos. Benefício tão eloquente, surgido no descampado ressequido, atraiu o viajante de passagem, que ali se acolheu no desfrute da sombra inesperada.

Longe um vulto avantajado detectou a intrusão e aproximou-se em corrida desabrida, ânsia vigorosa de rápido conhecer quem tão bravamente nesse dia resolvera propor festa na lezíria.

Publicado originalmente in O homem que, edição de autor, Porto, junho de 2008, página 53.

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SAI do banho, entra na sala. Estira-se na poltrona, feito em água. Descomposto. Saracoteio de ancas diligentes, as secretárias. Bando de risinhos, loiros, morenos. Jogos turcos: enxugos de careca. Nuvens de pó de talco nos sovacos. Vaporosas fragâncias espargidas no corpo cevado.

É sempre este o ritual quando o senhor presidente, por dever de ofício, tem de apanhar banhos de multidão. E chega com as pituitárias em estado de choque. Impregnado dos odores de campanha. A feder a povo.

Publicado originalmente in Histórias de coisa nenhuma, Campo das Letras, novembro de 2000, página 104.

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A primeira palavra

ENFIM entre paredes, sem saber por onde começar. Tina de meter a mãos no fogo. Domar o alfabeto, as letras. Tocar-lhes, aprender-lhes o corpo, saber-lhes o tipo, itálico, redondo, caixa alta, baixa. Compor. Passar o rolo, a tinta, na macha de chumbo. Amordaçar os ruídos. Acabrunhar o cheiro. Imprimir o jornal, papel tão fino quanto a mortalha do cigarro que agora lhe pende dos lábios. Ousa compor a palavra. Mede-lhe as vogais, mira-lhe as consoantes. A medo isola um L, o maior que encontra na tituleira, e com a mesma desmesura de corpo junta um I, sempre em caixa alta, um B, a soletrar com os dedos busca um E, logo um R, um D, A, outro D e… E, inflamada com um ponto de exclamação, a palavra. A sua primeira palavra clandestina.

Publicado originalmente in A minha laranjeira e outros contos, Edições Gatopardo, abril 2013, página 7.

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Jacarezinho falador

– MAMÃ!
– Sim.
– Os pássaros…
– Sim.
– Os pássaros têm duas asas?
– Sim.
– Porquê?!
– Para voar.
– Mamã!
– Sim.
– E os homens têm duas pernas?
– Para andar.
– Mamã, e as raposas têm duas orelhas…
– Para ouvir.
– E os gatos têm dois olhos para quê, mamã?
– Para ver.
– Mamã, mamã, então por que é que nós não temos duas bocas?!
– Para não andarmos a dialogar sozinhos.

Publicado originalmente in Elucidário Oblíquo do Reino dos Bichos, Edições Gatopardo, outubro 2004, página 24.

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O homem que interpreta os campos

QUEM olhar os campos em atento devagar, não lhes adivinha futuro líquido, feitos vinho, aguardente, jeropiga, espumante, rum. E, dentro da paisagem embriagada, quem como ele capaz de prever, no sonâmbulo podador, a figura turva que derreia agora a cabeça na mesa do tasco, pagando enfim o tributo à terra.

Publicado originalmente in O homem que, edição de autor, Porto, junho de 2008, página 60.

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RASGA os tt em abraços nas costas dos ii: as pintas, como gotas em repuxo, a ressurtir. Para baixo, perfeccionista, encaracola as pernas dos gg. Para cima, meticuloso, estica a cabeça dos ll. Engravida os OO. E os vv, boca para o ar, abre-os em súplica de passarinho.

Letra a letra, tece as palavras com esmero de iluminista. E a prosa flui muito devagar, paciência de mulher de Atenas a cerzir o tempo.

Anos na escrita a fio, tem já dois gavetões plenos de obra, preservada com bolinhas de naftalina: quatro colchas de casal, texto lavrado em ponto de pé de flor, com orlas bordadas a bb entre pompons de pp.

Publicado originalmente in Histórias de coisa nenhuma, Campo das Letras, novembro de 2000, página 30.

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História de estimação

PRIMEIRO trincou a língua, cortou. Mais tarde mordeu o rabo, cortou. Dois acidentes, duas fatalidades. Ganhou-lhe o gosto e com dramática persistência, em escala crescente, foi-se trincando, trinchando. Em pouco tempo, ficou reduzida a duas maxilas de dentes anavalhados.

Impulsionado pelo instinto devorador, fixou-se nos patos, nos peixes-vermelhos… A fim de evitar contratempos, o dono comprou-lhe açaimo, trela. E, rédea curta, pode enfim passear pelo lago, em segurança, a dentadura danada, a sua piranha de estimação.

Publicado originalmente in Elucidário Oblíquo do Reino dos Bichos, Edições Gatopardo, outubro 2004, página 22.

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O homem que sopra música pelos dentes

CHEGADO ao dentista, de pronto denuncia o orifício entre os incisivos cariados. Mas impõe que no afã do tratamento, no denodo da oclusão lhe não barrem o ar. O ar, soprado pelo furinho. Ar que se faz música, quando ele beija a harmónica.

Publicado originalmente in O homem que, edição de autor, Porto, junho de 2008, página 16.

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EM noites de tempestade, gosto de abrir a janela, sair. Quem me surpreender depois a vadiar num céu de relâmpagos, talvez julgue ver um anjo migrante, tresmalhado do bando. Um anjo a voar. Enquanto, a saltar entre lianas de luz, eu, simplesmente Tarzan.

Publicado originalmente in Histórias de coisa nenhuma, Campo das Letras, novembro de 2000, página 67.

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Garnisé

ERA uma vez um garnisé que virava tudo de pernas para o ar. Desesperados, os pais arranjaram-lhe namorada, uma jovem sereia muito senhora do seu nariz.

Breve, o garnisé lhe deu a volta, casaram. Na cerimónia, ele vistoso, ela fantástica: metade mulher da cintura para baixo, metade peixe da cintura para cima.

Publicado originalmente in Elucidário Oblíquo do Reino dos Bichos, Edições Gatopardo, outubro 2004, página 20.

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O homem que alimenta a esperança

POR recomendação das vizinhas, desde miúdo a mãe lhe untou a débil cabeleira com petróleo: Faz muito bem à seborreia, Aurorinha! E reforça o pêlo! Anos de viscosa terapia transformaram-lhe a cabeça num tubérculo hirsuto.

Hora de crise, ao saber do caso as petrolíferas prospectaram e a extracção foi iniciada em clima de euforia.

A festa não tardou a exaurir. O país tem agora muita fé num projecto de energia eólica, no alto da careca.

Publicado originalmente in O homem que, edição de autor, Porto, junho de 2008, página 43.

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JÁ não conseguia falar. O marido chegava a casa, ladrava! Nem um raciocínio articulado, uma serena troca de palavras, uma meiguice. Só ladrava, o cão!

Entre paredes, ainda era com o bobi que ela conversava. Era a sua companhia, o seu amigo, o confidente.

Um dia, o cão do marido sempre a ladrar, farta, juntou os trapos. E foi viver para a casota.

Publicado originalmente in Histórias de coisa nenhuma, Campo das Letras, novembro de 2000, página 9.

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Fauna fantástica

EU miúdo, era o Senhor Ribeiro, o Penacho, que me cortava o cabelo: uma hora de tortura capilar, muitas de horror capital. As histórias: bruxas, tranglomanglos, lobisomens, estafermos, faunos, almas-penadas, bichas-cadelas em poções e feitiços. E as encruzilhadas?! O tardo! O arrepio, tic! tic! tesoura a arrancar-me o cabelo, pêlo a pêlo.

– Nunca tal vi. Parecem pregos! – judiciava o barbeiro, enquanto discorria, douto, por diabelhos em Vilar, luzeiros em Macinhata, encostos na vila.

Chegava a casa, cabelos em pé. A minha mãe olhava displicente, atribuía o assarapanto ao corte à escovinha. A razão era outra, sabia eu, sabia ele, o Penacho, o Senhor Ribeiro, o velho Mestre que me apresentou toda a fauna fantástica a operar então na minha terra.

Publicado originalmente in Elucidário Oblíquo do Reino dos Bichos, Edições Gatopardo, outubro 2004, página 18.

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O homem que vem à rua respirar ar puro

PASSA a vida no escritório, preso aos processos a cheiras a mofo, entontecido pelos comentários dos colegas sobre as últimas da telenovela, nauseado pela exaltação do perfume do chefe. Para escapar à asfixia, valem-lhe as surtidas até à rua a ferver de trânsito, pé na soleira, mão suspensa no fumo de um cigarro.

Publicado originalmente in O homem que, edição de autor, Porto, junho de 2008, página 45.

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TODAS as noites, contava as estrelas. Praticamente nunca fizera outra coisa na vida. E, uma a uma, longos anos naquilo, chegou a uma procissão de algarismos. Um número a morder o infinito.

Num serão aziago, entre a Cassiopeia e Orion, de repente, o lapso! Sereno, o velho astrónomo voltou ao princípio.

Publicado originalmente in Histórias de coisa nenhuma, Campo das Letras, novembro de 2000, página 37.

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Delfim

O PASSARITO chilreante agachou um dia a cabeça entre as asas, apaixonado pela tristeza. Os amigos tentaram arrancá-lo à morrinhice. Fosquinhas, cócegas, brincadeiras: bolinha de papel amarrotado, Delfim.

Aquela prostração adveio-lhe após sobrevoo à Terra do Desencanto, chãos de amargura regados com lágrimas, sem gente, sem árvores, sem bichos. Desde aí, entre os galhos da oliveira velha, deixou-se mirrar.

Uma manhã, Delfim acordou animado. Foi à Terra do Desencanto, esgravatou o chão negro, e do bico soltou uma estrela: pequena, diminuta semente de Sol.

Publicado originalmente in Elucidário Oblíquo do Reino dos Bichos, Edições Gatopardo, outubro 2004, página 15.

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O homem que era um pai babado

OS miúdos aprendem a escrever cada vez mais cedo, facto positivo, mas que não deve ser tomado como valor absoluto, a ponto dos encarregados de educação baixarem o nível de exigência linguística, tolerarem grosseiros atropelos ortográficos. Ainda há pouco, o Aniceto, já quase com um ano de idade, assinava com dois ss, ante o gáudio do paizinho!

Publicado originalmente in O homem que, edição de autor, Porto, junho de 2008, página 63.

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O QUE o miúdo tinha pela frente não era pêra doce. Arregaçou as mangas, pôs a mão na massa. Mas a mãe viu e foi o fim da macacada:

– Toninho, então é assim que se come a aletria!?

Publicado originalmente in Histórias de coisa nenhuma, Campo das Letras, novembro de 2000, página 59.

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Besugo

NA ilha, avó e netos, apreensivos. Quase meio-dia e a Besugo sem voltar. Ontem veio cedo, miados doridos, pata arrastada.

Fora e dentro, em corrilório, os miúdos. Entre a fome e a esperança. De repente, um na janela:

– Vem aí!
– Fala baixo – a avó, baixinho.

Martírio a tingir linha rubra no empedrado, a gata arrasta-se em ensanguentada marcha-atrás, carne em posta grande a sair-lhe pela boca. Impressiona.

Sem alarido, galgam à rua, resgatam ao animal a agonia. E entram na cozinha de roldão, Besugo ao colo, festejada. Portas cerradas, para trancar aromas, a avó passa por água o confisco. Breve, na sertã a crepitar, bifanas.

Publicado originalmente in Elucidário Oblíquo do Reino dos Bichos, Edições Gatopardo, outubro 2004, página 9.

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O homem que perdeu o Pai Natal

AINDA no berço, conheci-o. Lembrança difusa, odor a canela. Depois, miúdo, recordo-o num hálito quente e nítido de bacalhau e batatas, pés de tronchuda, a boca da panela, sempre a maior, baforadas densas a enevoarem a cozinha. Iluminada pela toalha de linho da avó, mesa farta: bilharacos, rabanadas, uvas passas. E nozes, pinhões, apesar do preço.

O tempo da família grande.

Todos apareciam. E ele não faltava. Chegava tarde, ceia alta, por volta da hora explosiva do espumante, rolhas no tecto em ricochetes cegos. No auge do alvoroço, pam! Todo o mundo, pam!, transido, se calava. As pancadas, pam!, as três pancadas com a acha na grelha do fogão a lenha. O sinal.

Recuperada a respiração, algazarra, saltávamos aos brinquedos. No frenesim do que eram meu, teu, por ali andaria ele na cozinha, embora com rigor e em verdade nunca nos tenhamos cruzado, o tenha visto.

Anos mais tarde, a mudança para a cidade, um sem-regresso ao aconchego da velha casa. E a revelação cruel de todo o embuste.

Longo luto.

Um dia, homem feito, às compras num centro comercial, de repente, em carne e osso, à minha frente: o patriarca da infância. As mesmas barbas brancas!

Não mais larguei o meu herói. Deslumbrada sombra, segui-o para todo o lado, horas a fio. Até que às tantas ele se aproximou e, baixinho, barbas coladas ao ouvido, se aproximou e disse para eu o esperar mais adiante, ao dobrar da esquina. Que ia só ali, e vinha já.

Publicado originalmente in O homem que, edição de autor, Porto, junho de 2008, página 8.

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O homem que diz mãe, minha senhora mãe

CADA dia mais encolhida ele a vê, mais minúscula no contexto ele a acha: os degraus da escadaria a alçarem-se verticais, o pulinho do quarto para os outros aposentos a fazer-se jornada penosa, a cama a abrir-se em precipício no tapete, a distância da boca ao garfo a ganhar proporções de miserável humilhação.

Publicado originalmente in O homem que, edição de autor, Porto, junho de 2008, página 56.

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COMEÇOU por escrever um calhamaço: mil e duzentas páginas. O editor sugeriu redução. Cortou metade. Mesmo assim, nova proposta de síntese. Novo corte. E outro, e outro. Por fim, a obra lá saiu, magra e alva, densidade absoluta. Em capa dura, o título: Uma página em branco

Publicado originalmente in Histórias de coisa nenhuma, Campo das Letras, novembro de 2000, página 32.

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Ambidextro

SIGNIFICA destreza à direita e à esquerda: homem hábil com as duas mãos; touro que marra exacto com qualquer dos cornos; muar rigoroso a escoucinhar com ambas as patas; jacaré que abocanha com igual desembaraço para os dois lados.

Publicado originalmente in Elucidário Oblíquo do Reino dos Bichos, Edições Gatopardo, outubro 2004, página 8.

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Mirim

O DIA, a data, a gata preta: pensou em azar. Pensou no azar de, justo naquela sexta-feira treze, lhe morrer a gata, a sua velha gata preta. Recusou sepultar a dor no lixo da cidade: numa caixa de cartão embalou o corpo pequenino, amortalhado numa tira de lençol, partiu com o discreto esquife debaixo do braço. Chegado à terra-mãe, horas de viagem, buscou a enxada, gume enferrujado pelo pousio, cavou. Fundo, o mais fundo do que alcançou no solo empedernido, cavou. Cavou como quem busca um aconchego, umas mãos abertas, um ninho, um berço essencial para cingir a velha companheira, neste chão indócil de palavras.

Publicado originalmente in A minha laranjeira e outros contos, Edições Gatopardo, abril 2013, página 4.

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O homem que caçou a deusa

Levou a arma à cara. Cano virado par o céu, um tiro. A criatura, cega ao rumo que levava, caiu.
-Busca, Flecha! – ordenou o caçador.
A perdigueira, a abanar o rabo, fez-se ao monte. Breve regresso: na boca, Diana, morna ainda.

Publicado originalmente in O homem que, edição de autor, Porto, junho de 2008, página 30.

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Abelharuco

PÁSSARO que come abelhas. Se comesse melgas, seria um melgaruco; moscas, um moscaruco; borboletas, um borboletaruco; cigarras, um cigarruco; joaninhas, um joanhinharuco; homens, um morticínio. De pássaros.

Publicado originalmente in Elucidário Oblíquo do Reino dos Bichos, Edições Gatopardo, outubro 2004, página 7.

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A minha laranjeira

TENHO uma laranjeira no quintal, plantada por minhas mãos um dia, pequenina, a bem dizer criança, que no Inverno se cobre de frutos para mim. Por mais que a admoeste, lhe recomende temperança, todos os anos o esgaçar costumeiro dos braços crivados de frutos, no chão molhado. Comovido, nas noites frias, cinjo-me a ela e, tronco com tronco, juntos carregamos o martírio. Até ser manhã.

Publicado originalmente in A minha laranjeira e outros contos, Edições Gatopardo, abril 2013, página 2.

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O homem que vê à distância

QUANDO os jornais publicaram Saturno visto pelos olhos da sonda Cassini, o homem recortou a fotografia com religioso trato, colou-a na parede, em destaque. Ao alcance da mão, anéis iluminados, Saturno; longe, a Terra, ponto adivinhado em tons esvaídos.

Agora, quando coisa adversa sobrevém, num instante se põe em casa. E fecha-se no quarto, a matutar na estampa.

Publicado originalmente in O homem que, edição de autor, Porto, junho de 2008, página 28.

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Perda irreparável

PERDEU o cabelo, comprou peruca. Perdeu os dentes, adquiriu placa. Perdeu mulher, casou de novo. Perdeu os filhos, fez outros tantos. Perdeu os sentidos, reanimou. Perdeu o comboio, foi despedido.

Publicado originalmente in Histórias de coisa nenhuma, Campo das Letras, novembro de 2000, página 99.

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OBSERVADOR, o empregado do snack mede o cliente: nariz abatatado, olhos de ovo estrelado, bochechas de bife mal passado.
– E para beber?

Publicado originalmente in Histórias de coisa nenhuma, Campo das Letras, novembro de 2000, página 44.

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A noite das facas longas

ABRE o bilhete, dobrado em quatro, que ele lhe deixou sobre a mesa do café. Lê, dissimuladamente:

Espero-a esta noite. A porta da rua fica encostada. Seja cuidadosa, que ninguém a veja entrar. Eu próprio tratarei da ceia. Uma receita da minha falecida avó: carne esfaqueada em tiras, chouriço de sangue golpeado, uma cabeça de alho esmagada, batata a murro. E prometo-lhe sangria, à luz de velas.

Volta a dobrar o bilhete em quatro. Com a ponta e mola corta o papel aos bocadinhos, corta o papel aos bocadinhos, corta o papel aos bocadinhos, e decide arriscar.

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O mergulho

OLHA a íngreme sucessão de degraus, devagar faz a ascensão penosa. Atingida a prancha principal, prepara o salto: ergue os braços, flecte ligeiramente as pernas, logo num impulso vigoroso voa para diante, para cima. Desenha uma curva exacta e, veloz, o corpo em prumo irrepreensível, silva para o poço mais fundo – detesta falhar projectos – e, em rigoroso ângulo recto, fere a imaculada superfície azul. Ainda a cheirar a tinta fresca.

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Circunscrever

O HOMEM pançudo assomou ao patamar abobadado do edifício e disparou para o céu. Um pássaro caiu, redondo, no exacto centro da rotunda. Intrigado com a geometria do facto, o homem inspeccionou a boca da arma. E a concluiria da mesma natureza do orifício entretanto entre olhos, se acaso houvesse sobrevivido à acidental  coincidência desta prosa circunscrita.

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A cidade fraterna

O VENEZIANO Marco Polo muito falou a Kublai Kan, imperador mongol, da cidade fraterna que dura uma noite. Esse relato o conheceu Italo Calvino, sem que entretanto a tenha arrolado entre as urbes invisíveis que a seu tempo deu a saber, por de todas ser a mais fantástica, tanto que se tornaria inverosímil.

Todos os anos, noite certa, quando o velho jacarandá é uma grande flor azul, nasce a cidade. Os circunspectos cidadãos com fazenda encerram seus graves ofícios e, acompanhados das virtuosas famílias, vêm para a rua folgar com os pobres, os chulos, as prostitutas, carteiristas, polícias, frades, ateus, gente de todas as crenças que ali arriba de longínquos tempos e remotos lugares.

Entre fumaça, balões, pirilampos, carrosséis, foguetes, música, comem, bebem. Incensam-se com ervas, expiam excessos em altos fogaréus saltando e, honra a um orago sem cabeça, dançam. Dançam e martelam-se. E martelam-se. Martelam-se uns aos outros, na cabeça.

Fraternal desatino.

Súbito, mariposa contra a vidraça da manhã, a cidade falece.

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Textos de Augusto Baptista

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