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Homenagem a José Rodrigues, post mortem

A NOTÍCIA chega-me de Portugal, não deixa de surpreender-me pelo falecimento do pintor e escultor José Rodrigues (Luanda, 1936-Porto 2016). Um grato e velho amigo que a princípios da década de 1980, apresentou-nos o poeta Eugénio de Andrade, na “Árvore”, essa instituição artística do Porto que ele ajudara a criar. Vimo-nos com certa frequência no Porto e, sobretudo, em Vila Nova de Cerveira, onde ele criara as bienais artísticas e decorou esta cidade minhota com frequentes e dinâmicas esculturas que podemos visualizar, como são os famosos veados que preenchem nos cumes de Vila Nova de Cerveira, convertendo-se com o Porto os dois exponentes mais vivos onde as obras esculturais presidem diversos espaços públicos, entre outras cidades.

Mas nesses cumes de Vila Nova de Cerveira, mercou o antigo e derrubado mosteiro de São Paio, um extenso edifício medieval, com um templo espaçoso, com imenso claustro e notável casa monacal, que ele levantou e criou o famoso museu que acolhe a sua obra e, também, peças da arte sacra do Alto Minho. Também no enorme espaço exterior o forneceu com um grande número de esculturas que dão vida a um espaço inóspito e mesmo formoso, desde onde se divisa a foz do Minho, com as terras galegas de Tominho, O Rosal e a Guarda com Santa Tecla. Um santuário da arte que José Rodrigues fez possível nesse cantinho minhoto.

Estamos a falar de um dos grandes criadores da vanguarda escultórica portuguesa, também no desenho e na execução de extraordinários quadros que podemos olhar no mosteiro de São Paio. José Rodrigues nasceu em Angola, filho de uma família de colonos que fecundaram palavras e compromissos de liberdade. O seu tio, António Jacinto, foi o ministro de Cultura no primeiro governo de Agostinho Neto, guerrilheiro do MPLA e recluído durante 12 anos no Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde. Foi um dos homens fortes do seu partido, e um dos grandes poetas da geração de Mensagem angolana. Quer dizer que José Rodrigues nasceu e viveu em um entorno revolucionário, e integrou-se ao processo de libertação angolano. Por tanto, em suas obras manifesta-se essa tendência de liberdade.

O legado artístico de José Rodrigues é imenso, a todos os níveis. Na etapa pós-independência de Angola, desenhou capas e interiores de livros que compõem um fato histórico de enorme incidência criadora, tanto em Angola como em Portugal. Foi um homem muito ocupado e, também, muito generoso, nunca se negou a demandas de ilustrar livros. Servidor teve a sorte de que José Rodrigues ilustrasse em 1998 o poemário: “Falo de Baco”, dedicado à comarca do Ribeiro. Portugal e, também, a Galiza perdem a um dos grandes criadores da escultura e da pintura. Mas o seu legado continua vivo. Os seus amigos também perdemos a generosidade humana de um ser transcendente.

Por Xosé Lois García publicado in Palavra Comum.

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