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Álvaro Mendes (1926-2010)

Álvaro Mendes (1926-2010)

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VALONGO perdeu uma das mais importantes figuras do desporto concelhio: Álvaro Mendes. Este ilustre ermesindense dedicou grande parte da sua vida à promoção do desporto junto dos mais jovens e foi responsável por alguns dos mais importantes feitos desportivos alcançados por instituições e personalidades de Ermesinde, com especial destaque para o papel que desempenhou na afirmação do Clube de Propaganda da Natação (CPN). Foi também um dinamizador do pelouro do desporto da Câmara Municipal de Valongo onde colaborou durante anos a fio e onde contribuiu para o engrandecimento do desporto no concelho. Por tudo isto e pela forma alegre e bem disposta como sempre encarou a vida, a morte de Álvaro Mendes é uma perda irreparável para a sociedade valonguense.

in http://www.cm-valongo.pt

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Homenagem a Álvaro Mendes

Álvaro Jorge Ferreira Mendes é o paradigma do desportista na mais elevada acepção: exemplo de dedicação à causa ecléctica e do seu Clube de sempre – o nosso Clube de Propaganda da Natação – que ele considera como a sua segunda família, onde ingressou na década de 40.

Álvaro Mendes vive e sente, como poucos, a vida do Clube, rejubilando sempre com as suas glórias e sofrendo, por vezes, com os seus infortúnios. Sempre pronto a servi-lo, quer como praticante, quer como dirigente ou técnico, sempre intransigentemente amador, com maior entusiasmo, elevado aprumo e dignidade.

No ano de todas as lembranças, agradecimentos e reconhecimentos, Álvaro Mendes foi a figura que indiscutivelmente referenciou todo um passado que se homenageava. Não podia, por isso, a Direcção deixar de prestar a justa e merecida homenagem, ao Homem, Dirigente e Desportista, que no seu entender, é no presente do CPN, o seu mais digno representante, servindo-o com enorme devoção e carinho há 47 anos consecutivos.

Uma festa, que a feliz coincidência permitiu que fosse realizada precisamente no dia em que o Clube comemorava 50 anos sobre a realização do primeiro Campeonato de Ping-Pong do GPN de Ermesinde.
Para falar de Álvaro Mendes corre-se o risco de esquecer muito mais do que o que se me lembra dizer, mas tentarei fazê-lo, embora sucintamente. É que um homem destes não tem biografia oficial possível. Foge aos critérios correntes, violando as regras básicas dos compêndios.

Nasceu a 10 de Abril de 1926 e começou a sua prática desportiva em 1944. Neste longo percurso, foi excelente desportista em diferentes modalidades, mas com particular relevo na Natação.
No Verão de 1944, fez as suas primeiras provas de Natação, no Lago do Palácio de Cristal do Porto, conseguindo em 1945, conquistar o título de Vice-Campeão dos 66 metros costas, nos Campeonatos Corporativos disputados no Estádio Náutico do Sport Algés e Dafundo.

Além da Natação e sempre em representação do CPN, praticou Atletismo, Basquetebol, Futebol, Ginástica Educativa, Saltos em Trampolim e Voleibol.
Como Dirigente, ocupou todos os cargos, incluindo o de Presidente da Direcção em muitos mandatos. Em 1991, (em A.G.E. de 10.10.91) e por proposta apresentada pela Direcção do Clube, foi aprovado por aclamação a concessão do Título de Presidente Honorário.
Como Seccionista do CPN, exerceu as funções na Natação em 1962 e 1964. A mesma função foi ocupada no Ténis de Mesa entre 1960 e 1963.

No ano de 1969 foi Coordenador das Actividades Desportivas e desde 1970 dirige a Secção de Ténis de Mesa, reflectindo-se este seu trabalho no invejável palmarés que possui, sendo pois, considerado no meio Mesatenista, como o maior Fazedor de Jovens Campeões.

Ensinou e preparou os jovens cepeenistas na conquista de 21 Títulos Nacionais, sendo todos os praticantes criados no CPN.
Na época 75/76 é vogal da Associação de Ténis de Mesa do Porto. Em 1980, membro do Conselho Fiscal da Federação Portuguesa de Ténis de Mesa. Na época 89/90 faz parte do Conselho Jurisdicional da A.T.M.P. É desde 1976, Sócio de Mérito da Federação Portuguesa de Ténis de Mesa e da Associação de Ténis de Mesa do Porto.

De Norte a Sul do país, várias foram as entidades que o homenagearam como sentido de apreço e gratidão pelo seu trabalho desenvolvido.

No dia 26 de Outubro de 1991, a Comissão de Honra das Bodas de Ouro do CPN presta-lhe justa e merecida homenagem. A Sala Joaquim Lagoa foi pequena para albergar todos quantos desejaram associar-se à homenagem.
Uma numerosa assistência, constituída por autoridades civis, desportivas, sócios e principalmente muitos amigos, brindaram numa Sessão Solene só reservada aos grandes eleitos.
De todos os lados caíram elogios e muitas recordações.

Homenageando o Homem, o Dirigente e o Desportista, a Câmara de Valongo condecora Álvaro Mendes com a Medalha de Valor Desportivo em Prata Plaqueada a Ouro, enquanto que a Direcção do Clube lhe confere o Título de Presidente Honorário do CPN. A perpetuar a efeméride, foi descerrada a sua fotografia juntamente à lápide que assinala o acto.

O Clube tinha pois, prestado homenagem ao Homem que é apenas e somente o triunfo da juventude que não amadurece, que resiste à erosão do tempo e às mutações cíclicas das modas sociais e desportivas.

Credor de toda a admiração e reconhecimento, não só pelos êxitos obtidos, mas pela sua dedicação e obra realizada com a maior dignidade em prol do nosso Clube e do desporto nacional, foi e continua a ser seguidor fiel dos princípios olímpicos, consubstanciados no lema “Mens sana in corpore sano”.

(*) Texto publicado em “CPN: 50 anos de História”, 1993. pp. 164-168, escrito pelo autor aquando das comemorações dos 50 anos de história do clube.

Por José Manuel Pereira in http://www.avozdeermesinde.com/

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Álvaro Mendes – quando a vida é uma obra!

Em 1989 descobri o Mendes, o Álvaro Mendes. Pela sua mão, entrei para a Comissão de Gestão do CPN. Nunca mais o perdi. Um homem nunca se perde.

Desde Maio de 2008 que, insistentemente junto do Mendes, procurava trabalhar na sua biografia. Não foi tarefa fácil. O Mendes tardava em cooperar e eu insistia em continuar. Finalmente lá cedeu. Chamou-me, falámos sobre a biografia, as fontes, os contactos, os actores, os acontecimentos e os documentos. Dias depois, disponibiliza-me parte do seu vastíssimo espólio fotográfico, também ele, pe(r)dido em parte incerta…

Durante longos meses, aceitei ouvir e registar cumplicidades e (con)vivências de um excelente guardador de histórias e de segredos. Em cima dos seus invejáveis 84 anos, o Álvaro Mendes confrontava a sua vida com a nossa História.

Conheço o Mendes, o Álvaro Mendes. Não esperava, nas trocas do destino, recorrer tão cedo à matriz do epitáfio. A minha relação com o Mendes, já só admitia vida na História e não a História da Vida. O Mendes deixou-me só e a meio do seu percurso biográfico. Jamais saberá quais as palavras escolhidas para o preâmbulo de “Álvaro Mendes: Quando a Vida é uma Obra”.

É-me mais fácil falar sobre o Mendes do que dele fazer escrita. Nestas circunstâncias, a oralidade do discurso não se compadece com a narrativa dos actos nem com os gestos dos actores. Ambos atrapalham e só nos deixam uma saída: aligeirar a escrita e sobre o Mendes falar.

A dimensão humana e voluntariosa da capacidade pró-activa de Álvaro Mendes mostrou um percurso insaciavelmente introspectivo e uma peculiar vontade e bondade ao outros, estigmas de uma sociedade rural e mística que o acolheu, ainda enraizada nos profundos anseios locais, mas cuja visão despertara, bastante cedo, a quem acabara de chegar da freguesia de Castelões de Cepeda, no vizinho Concelho de Paredes.

Os seus traços de um tímido aventureiro, teimosamente rebelde e persistente voluntarioso, davam-lhe no tempo que sempre escasseava, vontades próprias de viver, temperando, no mundo e na família, a racionalidade das suas emoções e afectos. Não se compreendia o Mendes, o Mendes era simplesmente compreendido.

De geração em geração, trazia novas e diferentes fornadas de gente miúda, órfãos de destinos ausentes, companheiros da borga, amigos do sempre que com eles contava. O Mendes era assim, pois. Até parecia que a vida se moldava a ele, oleiro de Homens e de Campeões.

O Mendes ocupava-se da vida quando esta não o ocupava. Mas foram poucas as vezes. Da Fábrica da Cerâmica, recordava e recontava como sozinho fez a estrutura dos fornos e como a boa nova veio a saber-se em Lisboa. Lá os engenheiros nem queriam acreditar. Daí a pouco tempo, já recebia a confiança do Sr. Director e acompanhava nos negócios da Empresa. Só nunca chegou a perceber foi a Contabilidade Criativa que à época os directores faziam nas negociatas dos terrenos para extrair a matéria-prima e os Relatórios Anuais sem Controlo de Qualidade… outros tempos!…

O Mendes não se deixava enganar. Ficava com a pulga atrás da orelha e mais adiante fazia a espera. Safado! O Mendes era vivido.
Sabia quando era usado e para que fins. Nunca aceitando o rótulo de ser Imagem de marca, o Mendes não se sentia à vontade com as marcas deixadas na imagem. Preferia estar de bem com todos. Afinal a sua política era o CPN, o Ténis de Mesa e… as crianças.
Num dos muitos encontros agendados, encontrei-o derretido com a vaidade da notícia que recebera. Um recorte de jornal mostrava um familiar que fora recentemente ordenado bispo. Falava dos amigos que fizera, das diferentes crises directivas no CPN, dos antigos directores, do seu Belenenses e das fotos dos filhos dos amigos que, deixadas num álbum, guardavam do Mendes outros dias com maior paciência na arrumação.

Entre papéis, fotos e anotações, o Mendes, enquanto desfiava momentos outrora vividos, lá me perguntava se tinha estado com este ou aquele e mais novas do novo CPN.

Na rua ou fora dela, sempre que abordava uma criança, lá vinha o número do costume e em replay. Simulava uma bofetada na perna e tirava uma gargalhada de um pequenote, filho ou parente de alguém conhecido. Coitada da perna…
Quando o Mendes não falava, nós falávamos por ele.

Aos nossos olhos, o Mendes não tinha só defeitos. Tinha também virtudes. Boas virtudes. E a maior era a sua impiedosa queda para o esquecimento e distracção. Punha-nos a cabeça em água quando se lembrava de nos fazer procurar os óculos que permaneciam, há muitas horas, enterrados na cabeça. Outras vezes, andávamos de rabo para o ar à procura da esferográfica que residia atrás da orelha ou das chaves da Sede que deixara em casa. Era o cabo dos trabalhos. Este era o nosso Mendes. Mais distraído do que nunca.
Tempos houve que quando o Mendes não se esquecia de mais nada, esquecia-se de nós. Depois de sair da Câmara de Valongo onde era funcionário, o cansaço conduzia-o ao Justino dos Colchões. Aqui, só uma cadeira lhe amparava o sono. Um sono de menino adulto. É o Mendes, está claro. Todo o homem que se preze é uma verdadeira criança.

E são estas – só estas – que mais sentirão a sua falta. A vida de Álvaro Mendes deixa obra e recordações. Boas recordações.
E estas, nunca morrem, Mendes!

Por José Manuel Pereira in http://www.avozdeermesinde.com/

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