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A manta de burel

A manta de burel

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POR volta da meia-noite, em locais escusos, fazia a mezinha: queimava arruda na pureza do fogo, cosia a boca aos sapos na época do cio. Sobre a manhã, descia ao rio: levantava a saia longa e despejava uma ladainha impercetível. Mulher temida. De pelo na benta, diziam os que a receavam. Um dia passou na aldeia o desconhecido. Na taberna, pagava vinho e presunto por troca do segredo da mulher. Nada soube, como se ela tivesse cerzido a boca do povo. Frustrado com o método arcaico de seduzir a pobre gente, o forasteiro exibiu cartão de professor universitário. Todos, em pânico, engoliram o medo e tigelas de vinho, pago com as suas moedas puídas de brilho. A mulher, nessa noite, ficou em casa a remendar a manta de burel.

Texto de Francisco Duarte Mangas publicado originalmente in O homem do saco de cabedal, Campo das Letras, maio de 2000, página 15, com ilustração de Inma Doval.

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