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Mosteiro de São João Baptista, Alpendurada

Mosteiro de São João Baptista, Alpendurada

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APESAR DESTAS ARRELIAS que me vão complicando a vida, conservo ainda intactos alguns sonhos da infância, imagino como será viver numa grande cidade repleta de tudo o que uma pessoa como eu necessita para ser feliz. Deve ser maravilhoso ter ao alcance de uma mão um conjunto de coisas que tornariam o meu viver menos austero. Ruas limpas, casas confortáveis onde nunca falta a luz como aqui frequentemente acontece, carros velozes, museus, cinemas, teatros, roupas de luxo, perfumes e tudo o mais que só nas grandes metrópoles se pode encontrar em abundância. Nunca perguntei a ninguém que de tudo isso usufrui, se essa fartura e bem-estar contribuem de forma decisiva para o alcançar da felicidade. Imagino que em muitos casos sim e em muitos outros, são apenas instrumentos que provocam insatisfação e desespero sensações contrárias aos objectivos para que foram criadas.

Não dizes nada? Calaste perante a minha afronta sem ao menos protestar. Sossega, era só um devaneio, um sonho peregrino, um desabafo de quem sente saudades até daquilo que nunca chegou a conhecer, a ter e a viver. Votemos às histórias:

Encontrei-o por acaso quando percorria as difíceis estradas da tua margem direita. Estava pendurado numa encosta sobranceira ao leito onde correr todo metido numa floresta antiga que ocupa uma vasta extensão de terreno agrícola com leiras cultivadas a medo a aparecerem numa clareira a subir o monte de Arados.

Dali domina-se uma vasta paisagem e, do outro lado surgem lugarejos dispersos, casa de quintas e povoações de média dimensão. O verde persiste ao longo da tua toalha de água que aparece a rabiscar ao fundo do vale.

Muito antes da fundação do convento, essa floresta selvagem que ainda o envolve, era povoada somente por Lobos, Ursos e Javalis. Ergue-se altivo do chão numa grandiosidade velha que fala permanentemente nos primórdios de uma nação que foi ilustre e sábia.

Em seu redor, fora dos altos muros de granito que delimitam a propriedade, o tempo avançou apressado e, a aldeia pequenina que subsistia do trabalho nas terras, começou a vender e a exportar o seu chão de granito. Evoluiu, os dinheiros da pedra trouxeram progresso e, envaidecida por tanta riqueza, tornou-se vila e, dos tempos remotos da sua origem restam aqui e ali alguns monumentos, um Memorial que assinala a passagem do cadáver de Santa Mafalda a caminho de Arouca, várias igrejas e capelas antiquíssimas a falar e a trazer à memória a história passada.

O Mosteiro Beneditino é sem sombra de dúvida o marco maior, o ex-libris de que tanto se orgulha apesar de ser propriedade privada. Daquela grandiosa construção, só à igreja situada numa lateral dos claustros tem acesso público nos dias de actividade religiosa. Construído no ano de 1054 por ordem e a expensas próprias do presbítero Velino que obedecendo a uma voz divina que ouviu durante três noites e o apontava como servo de S. João Baptista, tem enterradas sob as pedras da sua fundação, as relíquias de Santa Comba, Santa Eugénia e do próprio S. João Baptista que lhe deu nome.

Decorriam na altura da minha visita, obras de beneficiação em toda a extensão interior e exterior do monumento que aparecia desnudado de barros e cales com as grossas paredes despidas e andaimes de ferros e pranchas de madeira a abraçá-las assemelhando-se a estrutura esquelética antecipadora de uma ruína total.

Levado pelo Feitor e representante do proprietário que me disse chamar-se Henrique, iniciei uma visita guiada pelos claustros do monumento. Foi num dos vários amplos salões lajeados a enormes pedras de granito que encontrei amontoados no chão centenas de livros.

Era um cemitério onde repousavam caídos os cadáveres das brochuras que outrora constituíram uma enorme e erudita biblioteca que fez parte de muitas vidas, livros que foram escolhidos por uma razão qualquer, que foram lidos pelo menos em parte e sentiram os dedos de mãos carinhosas a acariciar as suas lombadas ao mesmo tempo que olhos apenas curiosos e outros em busca do saber, lhes desventravam as páginas, livros que foram o espelho cultural de um povo comparados com outros que adquiridos por gente vaidosa, só serviram para decorar fachadas de estantes aliás, como acontece hoje em dia. Estavam ali cobertos pelo pó, misturados com restos de madeiras podres, lixos diversos, à mercê de humidades, da traça, em partes ruídos por ratos, alguns abertos mostrando as palavras de determinada página, todos desordenados e sós.

Ao acaso apanhei do chão um deles com encadernação inteira de pele verde, com ferros gravados a pigmento negro nas pastas. Exemplar em excelente estado de conservação, preservava as capas de brochura, apresentando apenas insignificantes e muito ocasionais picos de acidez. Era uma primeira edição do autor, José de Almada Negreiros com título, A Invenção do Dia Claro, era uma escrita de uma só maneira para todas as espécies de orgulho, seguida das formas para a Invenção e acompanhada de confidências mais íntimas e gerais, ensaios para a iniciação de portugueses na revelação da pintura, editado pela Olíssipo de Lisboa em 1921.

Era simultaneamente poesia, prosa e arte poética, vim a sabê-lo mais tarde, aquele livro era um dos trabalhos mais representativos de Almada Negreiros, publicado por Fernando Pessoa, cuja edição constou de um número muito reduzido de exemplares.

Voltei a depositá-lo no caixão colectivo de pedra, sentira-o nas minhas mãos talvez as últimas que lhe acariciaram a lombada, a capa e as folhas e não pude deixar de sentir pena, a grande pena de quem acaba de perder um caro e ilustre amigo.

— Já faltam aqui muitos, os melhores, o patrão levou-os, ficaram estes que não servem para nada!

Não sabia quem era o patrão, a criatura que de uma montanha de livros soube escolher os melhores mas, nas profundezas do meu silêncio da altura, soltei a raiva de quem discorda completamente com semelhante discriminação. Não existem bons e maus livros, existem apenas livros que mesmo não constituindo duvidosos best sellers ou tenham sido escritos por notáveis escritores Nobelados, afirmam-se, todos eles, como instrumentos indispensáveis da cultura de um povo. Todos livros escritos por pessoas que mais não fizeram que transmitir uma mensagem literária, que apesar das grandes dificuldades que lhes apresentaram os editores, insistiram na tarefa, deixaram um testemunho vivo dos seus pensamentos, da forma diferente de ver o mundo.

A morte de livros é tão trágicas como é a morte de alguém. Representa uma perda irreparável para a humanidade, o sinal evidente de que, apesar de que nada se criando tudo se transforma, haverá um dia em que porque tudo se destruiu e nada se criou, nada haverá para ser transformado. Como acontece com as pessoas idosas, os livros finam-se simplesmente esquecidos e abandonados num sótão de uma velha casa ou ardem em chamas nas praças do mundo que sempre os ignorou e combateu. Estes, cumpriram a sua missão de ensinar, de difundir mensagens que ajudaram a melhorar o planeta e, mesmo agora a repousar vencidos, continuam a ser livros, pedaços de gente, palavras que alguém disse e escreveu com a mesma vontade dos que ainda hoje teimam em deixar pensamentos e ideias ou simplesmente uma história.

Todos os que restaram da escolha feita por um infeliz homem de dinheiro serão cremados, disse o Henrique. As suas cinzas serão devolvidas à terra de onde afinal, tudo nasceu e tudo se transformou. Sobre as pedras gastas que circundam o fontenário sagrado e decorado com belíssimos azulejos situado um pouco a montante do edifício principal, nesse recanto tranquilo de onde se avista um rio deslumbrante a correr ao fundo de uma ravina onde há centenas de anos, nas noites de estranhas visões o abade Velino se sentava a meditar, comecei a escrever o que viria a ser o meu primeiro livro, a criar os volumes de papel e letras que podem morrer jovens ou ficar vivos até que o tempo um dia também os transforme em pó, na esperança de que as imensas obras literárias que jazem lá dentro, não morram em vão e que, do pó e cinza em que se estão a transformar, renasça uma outra escrita que fale de coisas modernas e antigas, de ti e da linda Vila de Alpendorada que tem um secular convento beneditino e muitas ricas histórias para contar.

Abandonei o Mosteiro de S. João Baptista por entre imaginários cânticos gregorianos dos monges defuntos levando comigo umas letras de esperança e deixando atrás de mim um cemitério de livros.

Por Manuel Araújo da Cunha publicado originalmente in Palavras – Conversas com um rio, edição Edium Editores, março 2011.

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