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Feliz Natal r...

Feliz Natal rio de oiro

O TEMPO PASSA A CORRER sobre as tuas águas e sobre as serras. Já foi Primavera, as árvores que te enfeitam as margens, vestiram-se de gala e a cor verde predominou em toda a tua extensão. O Verão também passou, foi-se na voragem quente que trazia mas antes de se apagar nas alturas, o sol que te fazia exuberante e lindo, proporcionou a chegada de milhares e milhares de pessoas que aqui vieram só para te ver. Depois veio o Outono e como se obedecendo a uma ordem rigorosa, toda a paisagem se alterou ficando os tons que de melancólicos despertavam nostalgia. Estamos no Inverno no tempo que aproveitas para renovar as tuas águas poluídas por tanta agitação e falta de educação e sensibilidade de muitos dos que por ti passaram. É este o momento em que te transformas num colosso e não toleras um abraço seja de quem for.

Conto-te neste princípio de tarde gelada uma pequena história por que sei que também adoras o Natal. Não por haver festa e prendas mas por que desejas uma nova luz de esperança a brilhar sobre os povos. Será talvez este o penúltimo momento deste ano em que me será permitido abeirar-me do teu leito e conversar contigo. Começas a agitar-te, sinto os ventos a soprar com fúria, a neve e chuva a cair nas montanhas e sei que toda essa dádiva da natureza recolherá a ti e te fará imenso.

Entrei no supermercado quando a noite já se instalava na cidade. Era um rumor surdo que me chegava aos ouvidos de sons de carros e pessoas que passavam apressadas em chegar a casa, outras, centenas delas entravam e saíam num frenesi imenso que me perturbava e confundia. Raramente entro numa grande superfície, prefiro as pequenas lojas tradicionais onde posso olhar nos rostos de pessoas que tentam sobreviver cá em baixo como eu mas, atarefado nas aquisições próprias da época, tinha-me esquecido de comprar um queijo da serra, iguaria que não dispenso no Natal. Junto da porta da entrada senti que me agarravam pelas abas do casaco, olhei e vi um rapazito que aparentava não ter mais de oito anos, que me sacudia a roupa para chamar a atenção. Usava um gorro de lã na cabeça com desenhos estranhos coloridos e, a cobrir-lhe o corpito frágil, tinha um kispo azul que lhe ampliava a estrutura do físico. Nos pés uma botas de água azuis, completavam a vestimenta do pequeno.

A mim que falo com um rio, com as casas e com as pedras, tudo o que é estranho me acontece. Nunca percebi por que será que toda a dor do mundo me encontra esteja eu onde estiver, faça eu o que fizer para passar incógnito na cidade onde ninguém me conhece. Tanta gente a entrar e a sair daquele centro comercial e tinha de ser eu a pessoa escolhida para ser confrontado com uma realidade que poucos querem conhecer. Já quando era um rapaz adulto, me sentia sujeito a situações semelhantes nesta época. Ou era alguém de mão estendida a pedir pão ou crianças ciganas abrigadas em precárias tendas cobertas de neve gemendo com frio e com fome. Chegava a casa transtornado, contava à minha mãe o que fizera para tentar aliviar tanto sofrimento e ela, na sua extrema bondade dizia-me:

— Deixa lá meu filho, és um homem de sorte, isso é Deus a querer falar contigo! Estranha a forma do Criador comunicar comigo, pensei. Se tinha assim tanto interesse em estabelecer uma ligação com um pecador como eu, devia começar por me ouvir quando inutilmente tento combinar os números felizes da lotaria. Acontece que me deixa entregue a mim próprio sem saber que números fariam de mim milionário. Isso é que é o que eu, na minha igual forma de pensar aos outros todos, considero ser um homem de sorte. Acertar em cheio na combinação que todos tentam e que só alguns conseguem podia ser a confirmação de que a dita está comigo. Decerto Ele tem outro entendimento e vai-me dando a felicidade só na medida exacta das minhas necessidades. Os deuses têm métodos de acção que surpreendem os mortais, dizem que escrevem direito por linhas tortas e eu começo a acreditar nesse ditado antigo.

Olhei-o outra vez já sem surpresa e perguntei-lhe o que queria de mim sem perceber que tinha à minha frente um estrangeiro que não falava a minha língua. Olhou-me na profundidade de uns olhos vivamente azuis e falou qualquer coisa que eu não entendi:
Moja majka je gladan!
— Desculpa mas não compreendo uma só palavra do que me estás a dizer, fala numa língua que eu entenda! — Disse-lhe eu.

Pegou com a mãozita dele a minha mão como a pretender que o seguisse em direcção da entrada da área comercial onde tudo se vende.
Hesitei em segui-lo e voltei a perguntar:
Que queres de mim pequeno?
— Moja majka je gladan!

Enquanto falava ia-me arrastado pelos corredores onde pessoas jovens imitavam o velho pai-natal, com barbas postiças e roupagens vermelhas e brancas com barretes nas cabeças, confundiam as crianças cujo o verdadeiro pai-natal devia estar a regressara casa a esta hora cansado de um dia de trabalho e a fazer contas à vida, de como poderia deixar uma prendinha nos sapatinhos dos filhos. Confesso que comecei a ficar preocupado com tanta insistência e mais por não conseguir perceber os seu objectivos Às vezes não são só as barreiras das línguas que nos impedem de compreender os outros, são as circunstâncias com todo o inesperado que encerram e nos impedem de reagir objectivamente. Se tivesse pensado com mais calma, teria atingido num ápice as pretensões da criança. Demorou, mas como o óbvio é sempre aquilo que menos conseguimos ver, pensei que deveria ter fome e resolvi levá-lo à charcutaria e pedir um copo de leite e uns bolos para lhe aquietar o estômago. Olhou para o lanche que lhe coloquei à frente e depois, com ar triste, colocou os olhos no chão e não comeu.

— Come pequeno, isto é para ti, anda lá não tenhas vergonha, eu pago o que tu quiseres comer!
— Moja majka je gladan!
— Já sei, tens razão, não é disto que tu gostas, vamos então ali à montra escolher o que mais te agradar!

Fomos ao local onde se vende de tudo o que são alimentos confeccionados, bolos, queijos, chouriços, chocolates e uma infinidade de outros produtos alinhados em vitrinas frigoríficas a despertar a atenção e o apetite de quem os vê. Mais ao lado, tudo aparecia repleto de brinquedos a abarrotar de iguarias num mundo em que a maioria das pessoas são pobres.

Apontou para a secção dos pratos pré-cozinhados e o seu dedinho quedou-se num tabuleiro onde a comida tinha um aspecto delicioso e parecia sorri para nós aguçando-nos o apetite:

Eram, repolhos recheados com carne moída, fatias de bacon e de presunto.
— Mama voli Sarme — repetia ele a sorrir de felicidade.
Perguntei ao empregado se poderia servir um prato daquela comida para poder satisfazer a vontade do meu mais recente amigo. Disse que não, que as refeições ali expostas se destinavam a ser consumidas em casa dos clientes.

Pareceu-me que ele entendeu o que o homem me estava a dizer e, na tentativa desesperada de se fazer compreender, ia batendo com a mãozita no peito ao mesmo tempo que abanava a cabeça em sinal negativo:
— Monja majka je gla dam!
O senhor do supermercado estava tão atónito quanto eu mas, parecendo sentir a familiaridade da língua, teve a ideia excelente de ir chamar um outro funcionário emigrante de Leste.

Apareceu um homem ainda novo vestindo a farpela própria de quem trabalha com carnes, manchada com sangue apesar do aspecto limpo de quem a vestia:
— Que queres daqui miúdo — perguntou-lhe em português matizado de sotaque.
Isso já eu tinha feito por mais que uma vez.
— Ele não fala português, experimente falar na sua língua, pode ser que ele entenda! Disse-lhe eu. Deu-me ouvidos começando com uma lenga-lenga da qual eu não entendia absolutamente nada:
— Zelite, zelite, zelite?
— Zovem se Stjepan. Ne zeli za mene, moja majka je gladan kuce.! Mama voli Sarme!
— Senhor, ele diz que se chama Stjepan e que não quer nada para ele, que é a mãe dele que está com fome em casa e que ela gosta muito da comida que está neste tabuleiro a que ele chama de Same!

O mundo inteiro desabou sobre os meus ombros naquele momento. Fiquei sem poder falar alguns segundo e depois de me ter recuperado da emoção, mandei embalar três doses de Same o petisco preferido da mãe daquela criança.

Depois de passar na caixa, entreguei-lhe dois sacos, um em cada mão e ele afastou-se visivelmente feliz. Parou de repete e virou-se para mim a sorrir com uns olhos tão brilhantes como o azul de um mar que me diziam, obrigado.

Vi-o desaparecer nas ruas da cidade fria e surpreendente e fiquei a pensar que aqueles olhos intimamente azuis eram os mesmos ou iguais aos de uma pessoa muito querida que eu tenho guarda lá no céu.

— Feliz Natal rio de oiro.

Por Manuel Araújo da Cunha publicado originalmente in Palavras – Conversas com um rio, edição Edium Editores, março 2011.

Foto publicada in Forum A Televisão

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