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Amor de barqueiro

Amor de barqueiro

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ESTA HISTÓRIA NUNCA DEVIA SER CONTADA. Acontecem-nos coisa na vida que mais parecem ser autênticos milagres ou coincidências tão estranhas que nos marcam e deixam comovidos.

Já naveguei muito pelo teu corpo de água, conheço-te as manhãs tranquilas em que espelhas o azul do céu, as ramagens das árvores ribeirinhas e as casas. Sei dos dias de cheias descomunais em que te transformas num colosso de água e não permites um abraço. Escuto os rumores da tua aflição quando invades a terra e procuro compreender a tua história.

São muitas as memórias, muitas mais as vezes em que deixo o meu barco boiar apenas ao sabor da tua corrente para poder sentir o que tu sentes irremediavelmente preso num leito que conquistaste à força. Tantas coisas se passaram sobre o teu inconstante lençol de ilusões que se torna difícil descrever todas elas. Todavia, e por que esta história me marcou profundamente, tenho de a partilhar contigo. Eu conto:

— Era uma vez um barqueiro que se apaixonou por uma Ninfa do Douro. Conta-se que eram belas e fantásticas as cartas que ele lhe escrevia e que possivelmente por que todas seguiram as águas do rio dentro de garrafas, nunca lhe foram entregues. Muitas se perderam, outras vagueiam ainda ao sabor das correntes do rio ou navegam no mar alto à procura do seu destinatário. Uma delas, talvez aquela que se pensa ter sido a última, não se sabe porquê, sobreviveu a tempo de revelar o seu conteúdo.

Um dia, viajando pelo teu jardim de água como regularmente o fazia, encontrei a boiar uma garrafa de cor branca, transparente. Recolhi-a para bordo e vi que tinha uma mensagem no seu interior. A água já tinha entrado na vasilha e o papel da carta, apresentava-se com alguma humidade. Deixei que o sol fizesse o seu trabalho de secagem e depois desdobrei-o com todo o cuidado e profanei a escrita que alguém enviou pelo correio do desespero. Tinha um nome de mulher e um endereço como se fosse uma carta e estava assinada por um homem.

Constatei que era uma carta de amor talvez igual a todas as cartas de amor que até hoje se escreveram e começava assim:

Terra dos sonhos, 31 de Dezembro de 2005

“… O rio deixou de ser nosso, agora é só meu e do meu barco. Há ventos de Leste que perturbam as águas ainda há pouco tranquilas. Há vagas que se formam não sei onde e agitam este lençol líquido de ouro. A paisagem mudou radicalmente, perdeu o verde e a imensa esperança que depositei nela. Os tons são castanhos e vermelhos da aflição pungente que antecipa uma morte anunciada. Despem-se os choupos, as nogueiras, os amieiros e só os salgueiros insistem nas festivas vestes. Não sei se a tristeza destes dias ásperos, conseguirá vencer a minha força de barqueiro, este desejo imenso de te procurar mesmo sabendo apenas que existes algures na crista de uma vaga que ameaça o meu barco ou num deslumbrante pôr-do-sol já falecido. Ignoro o amanhã que se declara em cada batida do meu peito onde voltarei a esperar-te como sempre, mas lembro-me do passado a reluzir de sol nas tardes magníficas do Douro a bronzear as formas feiticeiras do teu corpo meu altar, meu último e desejado porto. Evoco os ventos vigilantes, as suaves brisas que te sacudiam os cabelos que eram então fios de ouro a correr como as puras águas do meu rio ou como se essas aragens fossem as minhas peregrinas mãos desdobradas em ternas carícias que nunca tinham fim.

Naveguei pelo teu ser como se um mar distante me chamasse e tu eras a Sereia tentadora a desviar-me o rumo, a enlouquecer-me num lamento de guitarra, agora, transformada em musa nos sonhos que povoam as minhas noites atormentadas sem te ter.

Lembro a natureza inteira a entoar um cântico para te agradar e os sons dessa antiga melodia permanecem ainda a enfeitar os meus dias e as longas noites de solidão que tu deixaste.

Chegou o Inverno; navego agora solitário rumo ao mar. Não, não irei numa viagem para além do horizonte. Ali nada haverá que me possa encantar. Não, vou apenas ver a foz onde as águas do rio se confundem com as do oceano e olhar pela última vez o porto da tua ausência, perguntar às gaivotas famintas da Afurada, se te viram passar sorrindo algures no cais. Vou atracar em Oliveira do Douro ou na marina do Freixo e subir ao bar onde um dia à tua espera, só imaginei o teu sorriso. Talvez fique por lá algumas horas porque eu só quero estar perto de ti ou então, desalentado, zarparei rumo a montante e só te deixarei nesse porto o meu olhar.

Urge navegar rio acima. Esperam-me em Porto Carvoeiro ou em Pédemoura onde atracarei num porto agora já sem barcos. Chamam-me em Bitetos e no Castelo como quem chama a Primavera que tão longe ficou no teu olhar. A ilha onde o amor foi só um relâmpago imaginário, é ali em frente e apenas silêncio se houve em seu redor.

Sinto frio, treme-me o corpo, devo estar doente ou talvez seja apenas a imensa dor de te não ter. Escrevo-te, escrevo-te sempre sem parar, talvez eu queira transformar esta mágoa em saudade, esta solidão em memórias para que um dia a nossa história que devia ser de amor feliz, seja atirada na corrente deste rio que eu amo e as suas águas apaguem para sempre as labaredas das palavras que te dedico hoje e que são a narrativa que só conto a mim mesmo por que sei que nunca lerás esta carta.

Correm-me lágrimas dos olhos, rolam-me pelas faces, misturam-se com as gotas da chuva e caem nas águas do rio que as vai levar para longe e assim, tu meu amor, nunca saberás que um dia chorei por ti.

Chegou o Inverno e o rio despovoou-se e agora é só meu e do meu barco sentinela atenta em busca da tua imagem adorada. Nunca te disse que te amava, talvez por que pressenti que tudo era apenas ilusão, coisas que o rio produz, devaneios, mentiras piedosas com que me tenta enlouquecer.

Somos ausentes um do outro sem nunca nos termos encontrado e no entanto, tu és a imagem materializada de um sonho que sonhei sobre a água, uma criação só minha por que te inventei dentro de mim e sabia que, para além da fantasia criada na minha mente exausta, tu existias fosse de que forma fosse.

Desgraçado de mim que tive medo de ultrapassar as barreiras do fantástico para não sofrer desilusões, que abafei na alma as fantasias pensando que fazendo-o evitava as amarguras que se criam na alma de quem segue um sonho. Sabia que um dia arrependido, haveria de olhar para o passado, para tudo o que nunca cheguei a viver e esse dia é hoje por que sinto o coração a dizer-me:

“Enterraste os teus sonhos no fundo do rio com medo de perdê-los. Tentaste a dureza da indiferença perante os impulsos que te dei. Bati no teu peito alucinado, fiz tudo o que pode fazer um grande amigo e tu amordaçaste-me, deixaste-me descer ao poço frio onde guardas todas as lembranças petrificadas, reprimiste-me os afectos como se eu não fizesse parte de ti. Agora é tarde, demasiado tarde, também eu me transformei em pedra, sou um velho relógio a bater as horas que perdeste, morri, já não me sinto como um louco a palpitar como daquela vez em que ela apareceu materializada sobre a água a sorrir para ti. Ainda tentei num derradeiro esforço apressar as minhas batidas, fazer com que, ao menos por uma vez acordasses do entorpecimento onde te encontravas. Foi tudo inútil e por isso sofres, desperdiçaste a tua vida, deixaste os teus sonhos morrer dentro de mim.

O tempo passou sobre as terras e sobre o rio e, às vezes, particularmente quando as águas reflectem tons deslumbrantes de um céu que arde ou desespera e se instala na atmosfera uma espécie de encantamento, eu vejo a tua imagem reflectida nesse espelho de fogo e lembro-me dolorosamente de ti. Mas o rio, ele que me conhece desde sempre, cria logo uma outra ilusão, distrai-me para que eu não sofra outra vez a dor que ele sabe ser antiga.

Haverá outras primaveras, muitas por que o tempo não pára a sua sina e eu e tu, havemos de envelhecer um sem o outro mas sempre suportando no peito as saudades dos beijos, dos abraços que não demos e dos dias felizes que nunca chegamos a viver.

Nada fará voltar o esplendor ao rio, o meu barco apodrece num recanto e eu deixei de navegar para sempre. Se um dia voltares a este rio, traz-me aquilo que te tornou única, devolve-me a distante primavera em que te conheci…”

Dobrei o papel novamente emocionado, senti-me um violador de sentimentos, doeu-me o peito por ter profanado aquele segredo e voltei a colocá-lo dentro da garrafa com todo o carinho deste mundo. Para lhe facilitar a viagem, fui devolvê-la ao teu seio já depois da barragem de Crestuma. Queria que ela seguisse o seu destino sem obstáculos, desejava que, se tivesse de ser, o encontrasse por si própria como decerto tinha sido esse o desejo do Barqueiro.

Vi-a boiar alguns segundos e depois desaparecer na tua corrente que a levou para os lados da tua foz à procura de uma mulher.

Certo dia, já lá vão cinco anos, ao percorrer novamente os teus caminhos, por obra do acaso, conheci o Barqueiro numa taberna que existe num recanto que ocupas com água. Conhecendo-lhe o nome não foi difícil perceber que tinha sido ele o autor da carta.

Com calma fui contando essa história enquanto ele parecia estar a viver o momento em que a criou balbuciando com os lábios passagens daquilo que escreveu. Então perguntei-lhe pela mulher destinatária dessa missiva e confrontei-o com esse amor antigo. Ele apontou com uma mão estendida e a tremer as tuas águas e disse-me:

— O meu amor é o rio!

Mentiu por que eu vi os seus olhos marejados de lágrimas. Senti nesse momento a imensa dor de um e imaginei a pena de outro mas desconheço as razões da impossibilidade de realização dos seus sonhos de amor. Decerto esses motivos eram fortes e intransponíveis, possivelmente ele ou ela, sacrificou a própria felicidade para que outros fossem felizes.

Tu meu amigo, és um rio que compreende todas as circunstâncias da vida e permites sempre que o inesperado aconteça mesmo sabendo que alguém vai sofrer por isso. Sabes que não podemos mudar a nossa história e que feliz ou infelizmente algumas vezes, todos temos de caminhar sozinhos neste mundo.

Por Manuel Araújo da Cunha publicado originalmente in Palavras – Conversas com um rio, edição Edium Editores, março 2011.

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