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Rua da Estrad...

Rua da Estrada do tanque debaixo do viaduto

Foto: Álvaro Domingues

NÃO é fácil estabelecer a cronologia completa destas ocorrências. Talvez o viaduto, altíssima obra de arte com um risco de luz ao meio, tenha sido a última coisa que aqui brotou, e a água, a primeira. No entretanto, deve ter havido um caminho em tempos, depois estrada e outra vez estrada revista e aumentada com as obras do viaduto. Entretanto a água, como é de sua natureza, corre. O cano que a conduz é de plástico, material relativamente recente.

Outras coisas há que nos confundem, agora não por causa do tempo, mas do espaço. Ou melhor, por causa da imagem que reproduz a distribuição das coisas no espaço. Assim, a primeira coluna à esquerda, a que ocupa mais espaço na foto por estar num plano próximo, confunde-se com um pilar do viaduto feito do mesmo betão, da mesma cor, textura e visualmente alinhado em direcção ao mesmo ponto de fuga. Vendo melhor, percebe-se que é uma das três colunas que sustenta a cobertura de dois tanques que comunicam entre si. O mais próximo deve ter servido muito tempo para bebedouro do gado. No tempo do antigamente era o que aqui passava, gado e humanos a conduzir gado, a transportar bilhas e canecos para ir buscar água à fonte, feixes de erva e lenha à cabeça, na mão, sacholas e picaretas. Depois alguém pensou fazer um tanque para lavar a roupa e assim se duplicaram os reservatórios rematando-se o segundo com duas pedras polidas inclinadas para ensaboar, bater e esfregar roupa. Era trabalho de mulheres: povo que lavas no rio e agora lavas na máquina.

Por causa do tanque de lavar, se construiu a fina cobertura em betão por cima das tais colunas. Deve tudo ter acontecido quando se fez o muro que tem o grafito vermelho e negro do rato, le rouge et le noir / ne s’épousent-ils pas / ne me quitte pas, me quitte pas…, cantava Jacques Brel desesperado. O Vermelho e o Negro também é título do celebrado romance de Stendhal, cheio de amores impossíveis e mortes trágicas. Este é um daqueles assuntos que dá uma boa tarde de conversa enquanto se lava roupa suja e limpa no tanque.

Parece agora claro que além de excesso de temas, também há redundâncias nesta esquina da realidade. Se tão grandessíssima cobertura do tamanho de uma auto-estrada sobrevoa este alinhamento de pilares que continua por cima do tanque, para quê um outro coberto para o ofício de lavar roupa? Pode ser o coberto anterior ao viaduto, claro (e demasiado frágil, pequeno e baixo para que lhe pudesse passar uma autopista em cima). Penso, logo exausto, diria René: considerando que os pensamentos que temos quando acordados nos podem ocorrer também quando dormimos, sem que neste caso nenhum deles seja verdadeiro, resolvi supor que tudo o que até então encontrara acolhimento no meu espírito não era mais verdadeiro do que as ilusões dos meus sonhos. Mas, logo em seguida, notei que, enquanto assim queria pensar que tudo era falso, eu, que assim o pensava, necessariamente era alguma coisa. E notando que esta verdade – eu penso, logo existo -, era tão firme e tão certa que todas as extravagantes suposições dos cépticos seriam impotentes para a abalar, julguei que a podia aceitar, sem escrúpulo, para primeiro princípio da filosofia que procurava[1].

Por Álvaro Domingues autor de A Rua da Estrada.

[1] René Descartes (1637), O discurso do método

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