Do Porto, Rua da Estrada

Rua da Estrada do encantamento clássico

10 Agosto 2017 Comentar

REZAM lendas vindas da noite dos tempos que em Pombal vivia um mouro num grande palácio para onde trazia belas donzelas atordoadas pelas suas artes de sedução e amor. No alto do cerro tinha este príncipe o seu harém que ao mesmo tempo fascinava e amedrontava as beldades que por estas artes podiam ser fechadas para sempre no serralho a suspirar.

Na sua fúria de poder, os cavaleiros Templários julgaram ter morto o mouro mas o que juram muitos que viram é que numa clara noite de luar um certo fantasma desapareceu numa gruta encantada por baixo do castelo de onde ainda hoje as raparigas mais belas ouvem cantos e chamamentos: Menina vem ter comigo, / Vem meu encanto quebrar, / Sou um mouro teu amigo / Que te quer namorar.

Isto era no tempo das Mil e Uma Noites, da Xerazade e do Ali Babá, claro, e do Aladino das lâmpadas. Agora o tema da sedução está um tanto desencantado e não deve nada às artes mouriscas. Seria outro o requinte. Bastava pensar como é que não ficaria esta casa se fosse kitada com o Pátio dos Leões da Alhambra e o varão para a dança espichado no sítio do esguicho da fonte… era outra coisa, colunas finas, arcadas delicadas, arabescos, mármores, murmúrios, jardins, sombras, rouxinóis.

Do modo como se apresenta, há pouco que se diga. Nem sempre o clássico da coluna, arquitrave e frontão se ajustam a todas as obras de acrescento e há qualquer coisa na geometria do alumínio que não vai com a métrica das colunas, nem com os cactos, nem com os triângulos. O muro em pedra solta devia ter sido construído usando blocos regulares de calcário ou mármore, e o remate do frontão está a pedir um penacho que contrarie esta aridez amarela, um sino, um ninho de cegonha ou um galo de Barcelos. A varanda é muito fatela e a casa inacabada ao lado é mau augúrio para o negócio, embora sossego para quem lá não mora.

Diria também que o recinto à volta do dispositivo está muito rapado e o toco da palmeira (que daria algum exotismo ao lugar assim estivesse com tudo o que lhe falta de tronco e ramagens) é sinal de desleixo e decadência. Retiraria também os dois mastros ou então aproveitava para colocar umas flâmulas em seda evocando os calores da noite e a agitação da hormona.

A silhueta da jovem dos longos cabelos não me parece mal. Muita fogosidade que o vermelho sublinha, corpo esbelto e nádega abundante. Talvez um néon animasse, ou um movimento giratório para dar mais enfase à vertigem coreográfica da dança do varão.

Finalizando, acrescentaria que Amo-te Pombal não se aplica àquele marquês megalómano de cabeleira com a mania das grandezas e dos terramotos, despótico e absolutamente de mau carácter.

Por Álvaro Domingues autor de A Rua da Estrada.

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