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Rua da Estrad...

Rua da Estrada do contentor

Foto: Álvaro Domingues

HÁ coisas que de tão banais que são, se afastam do entendimento que delas devemos ter para que o mundo se nos pareça um pouco mais transparente. Quando assim acontece, nada como tropeçarmos nessas coisas quando nos aparecem sem estarmos à espera de tal: pintadas nas empenas das casas, por exemplo, sobretudo as casas que dispõem a fachada na perpendicular do eixo da via, oferecendo assim uma generosa superfície liberta de fenestrações para pintar mensagens estimulantes para o prazer do neurónio humano.

Assim são os contentores. Há tantos e de tantas cores que raramente se nos ocorre serem uma espécie de caixas mágicas que revolucionaram o modo de transportar mercadorias e transformaram o custo desse transporte numa coisa que pouco afecta o preço que pagamos pelas coisas, sejam flores de plástico, medicamentos, coisas pesadas, líquidos, gases ou algodões. Não haveria globalização sem contentores.

Antes do contentor, carregar, transportar ou descarregar era uma carga de trabalhos. Se o trajecto fosse longo e com rupturas de carga ou modo de transporte – do barril para o pipo, do saco para a caixa, das mulas para o comboio, do comboio para o navio, do camião para o armazém, de Ceca para Meca – tudo se complicava, muito manuseamento, muito aleijão, muito tempo, coisas partidas, atrasos e mau tempo. Se a distribuição não funciona ou anda manca, mais vale rezar à Santa Rita que é advogada das coisas impossíveis.

Universal, no navio, no camião ou no trem, as coisas andam encaixadas e passam com a maior facilidade de um navio de quatrocentos metros para um veículo pesado por obra de tecnologias que usam os mais diversos recursos para que tudo deslize, da porta da fábrica ao cliente mais remoto que seja ou esteja. Gerir a logística do contentor vazio é outra ciência quase oculta. Adiante. Um contentor fora de uso, qual módulo gigante com medidas normalizadas, dá para um sem fim de utilizações, incluindo abrir-lhe janelas e portas como este aqui pintado. O sonho estandardizado de qualquer moderno.

Claro que a Rua da Estrada tinha que ser uma peça fundamental desta engrenagem. Pois se há tantas coisas que para aí abrem portas, como seria se os contentores não chegassem lá? Ia tudo em odres e carroças, às costas, aos tombos? Não ia.

Que linda platibanda que tem esta casa com suas cores e geometrias. Por certo é algarvia como o azul do céu, as chaminés, as antenas parabólicas e as paredes brancas.

Por Álvaro Domingues autor de A Rua da Estrada.

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