Do Porto

Pedro Schacht Pereira, 48 anos

10 Agosto 2017 Comentar

HÁ um ano quase ninguém fora da academia conhecia este nome, Pedro Schacht Pereira, professor de Estudos Lusófonos na Universidade do Ohio. A vitória de Trump e os textos que escreveu no Facebook sobre a formação da “resistência”, assim como a foto, que se fez viral, do seu filho na marcha das mulheres contra Trump, segurando um cartaz onde se lê “If you build a wall, my generation will knock it down” (“Se construírem um muro, a minha geração mandá-lo-á abaixo”) fizeram-no conhecido, assim como a autoria de uma carta em reação às declarações de Marcelo no antigo entreposto de escravos em Gorée, no Senegal.

Apesar da ligação familiar à África subsaariana – o apelido alemão de árdua pronúncia (“xárrt”) é do bisavô materno que no final do século XIX foi para a Guiné em negócios e ali se radicou; o pai, militar português, conheceu lá a mãe -, só a partir de 2010 se interessou por aquilo que é o fulcro do seu trabalho atual, a formação do discurso imperial e colonial português e como ele está patente na literatura, por exemplo em Eça (está a escrever um livro sobre).

Considerando que existe no país uma enorme ignorância face ao período colonial que permite a ideia de que fomos “colonizadores bonzinhos”, defende ser necessário não só enfrentar a verdade histórica como as suas consequências no presente, reconhecendo a persistente discriminação dos afrodescendentes e encontrando formas de reparação. Testemunha de como o racismo supremacista branco perdeu a vergonha nos EUA de Trump, acredita que Portugal, onde se crê que a questão rácica “está resolvida”, é “uma seara pronta a arder”. Basta, diz, que a extrema direita se organize ou que um partido como o PSD a acolha – à imagem do que fez o Partido Republicano.

Nasceu no Porto, tirou o curso de Filosofia na Universidade de Coimbra, vivia em Vila do Conde. Como é que foi parar à docência no Ohio?

Pouco depois de acabar a licenciatura de filosofia em Coimbra a minha mãe, que estava a fazer um curso de inglês, convidou a professora americana para jantar. Como sou cozinheiro amador fui eu a fazer o jantar e a professora de inglês da minha mulher. Fui para os EUA em 1995, com 26 anos. Já casado, porque para entrar precisava de um visto, pois nessa altura não havia isenção de visto. Casámo-nos em Gibraltar, a Las Vegas da Europa, e isso facilitou o processo. Antes, tinha equacionado uma ida para Itália para fazer um curso de conservação e restauro de livros, mas como a minha mulher estava na altura a enviar candidaturas para doutoramentos na área da literatura, e como ela me explicou que era relativamente fácil ter acesso a uma pós-graduação nos EUA – é uma coisa que a maioria das pessoas não sabe, mas as pós-graduações nos EUA, sobretudo nas áreas de ciências sociais e humanidades, são subsidiadas pelas próprias universidades – decidi tentar. Tive de, entre outras coisas, fazer um ensaio sobre as motivações.

E quais eram?

Estava muito interessado em estudar as relações entre filosofia e literatura. Primeiro entrei na Universidade de Massachusetts, que tem um programa de doutoramento em português já antigo, mas sendo uma universidade pública tem recursos mais limitados e surgiu a oportunidade de entrar para a Brown, onde estava a minha mulher, que é formada em literaturas hispânicas da época colonial.

E como veio ela parar a Portugal?

Na licenciatura dela estudou espanhol. No segundo ano passou em Sevilha e durante esse período deu um salto a Portugal. Quando terminou o curso quis fazer um interregno até à pós-graduação e decidiu que queria ensinar inglês, na América Latina ou na Península Ibérica. A escola que lhe ofereceu melhores condições foi na Póvoa de Varzim, dirigida por uma canadiana. [Ri]. É daquelas coisas imprevisíveis: ela aterrar em 1993 na Póvoa e em Vila do Conde, que eram as duas delegações da escola. Detestou a Póvoa e conheceu pessoas em Vila do Conde e gostou mais. E em Vila do Conde conheceu-me a mim.

Vive nos EUA há 22 anos, teve lá um filho, mas não tem nacionalidade americana.

No dia em que vim de férias para Portugal entreguei a papelada para me tornar cidadão norte-americano. Ao fim de cinco anos poderia ter pedido a cidadania mas nunca me ocorreu fazê-lo. Por várias razões, mas a principal é a existência da pena de morte. Voluntariamente tornar-me cidadão de um país com uma instituição dessas é… nem sei qual o adjetivo que devo usar. Poderia fazê-lo daqui a 20 ou 30 anos, na altura da reforma, porque seria penalizado com impostos se não tivesse a cidadania. Mas na verdade não planeio passar lá a reforma. E do modo como as coisas estão a correr vou morrer a ensinar, não vamos ter reforma. Mas o meu filho é cidadão americano e se algum dia eu tiver de abandonar o país o estatuto de imigrante será revogado e não poderei regressar. Não posso passar mais de um ano fora. Tornou-se indispensável porque não sabemos que evolução as coisas vão ter. Se Trump não tivesse ganhado as eleições provavelmente eu nunca seria cidadão americano.

Estava a olhar para si e a pensar que, como grande parte dos portugueses, pode passar por árabe.

Sim, sobretudo num país onde a grande maioria não sabe onde é Portugal. E no dia-a-dia já me fizeram perguntas extraordinárias: se sou judeu, se sou sírio… Ao entrar no país já tive situações desagradáveis porque os funcionários da alfândega não sabem dizer o que eu sou. E a população americana não tem filtros.

A propósito de filtros: estava preparado para a eventualidade de Trump ganhar as eleições?

Quando o então diretor do FBI revelou a existência de mais e-mails no processo da Clinton, comecei a ver a minha vida a andar para trás. Nessa altura acordei a meio da noite com uma sensação de pânico que nunca tinha sentido. Senti-me completamente desprotegido. A partir daí comecei a levar a sério a hipótese. Mas no dia das eleições estava otimista porque as sondagens apontavam para a vitória da Clinton. Até fui a uma festa em casa de uma amiga também professora universitária que investiu muito do seu tempo a fazer campanha. Uma festa que era para ser de vitória. Mas a partir da meia-noite as pessoas começaram muito discretamente a ir embora. No dia seguinte a minha mulher partiu para Lisboa, onde tinha uma conferência. Vi-me sozinho, com o meu filho na escola, e tive outro ataque de pânico. A minha mãe tem oitenta e alguns anos e tenho muito cuidado com a maneira como falo com ela, mas ligou-me e não consegui controlar-me: comecei a soluçar ao telefone. Nessa semana organizei uma espécie de festa de consolação para os amigos, em minha casa, para apoio moral. Porque começámos logo a sentir na pele o peso da realidade.

Em que aspeto?

Uma semana depois, no edifício onde dou aulas e tenho o meu gabinete, e que é aquele onde se situa a maioria dos cursos de línguas estrangeiras, houve um piso que amanheceu coberto com cartazes de supremacistas brancos. Algo que nunca tinha visto na vida. Em toda a minha experiência de 22 anos de EUA nunca vi nada assim. Aliás, nem os vi porque foram retirados, não estava na faculdade nesse dia e soube por um mail de uma colega. E houve um colega da Califórnia que disse que o mesmo tinha sucedido na universidade dele. O que leva a crer que foi uma ação concertada.

O que leva a crer que há muitos supremacistas brancos. Ou os suficientes.

Sim, e tiveram licença para sair da caixa. Há coisas que têm sido ditas e feitas desde as eleições que eram inimagináveis até agora. Duas ou três semanas depois das eleições aconteceu um episódio com um miúdo de origem somali – a nossa cidade, Columbus, tem a segunda maior comunidade somali nos EUA – que era muçulmano e tinha vindo transferido de outra universidade. Em agosto tinha dito numa entrevista a um dos jornais universitários que se sentia muito sozinho por ser muçulmano e tinha medo de orar em público. Existem espaços multiconfessionais para isso mas ele, acabado de chegar, não sabia. Uma manhã estávamos em casa e recebemos no telemóvel mensagens do sistema de emergência da universidade a dizer “escondam-se, fujam ou em último caso combatam, há um atirador no campus”. E viemos a saber que o miúdo somali tinha atirado o carro para cima de um grupo de pessoas e saído com um cutelo na mão. Felizmente não matou ninguém, mas houve pessoas feridas. E foi morto pela polícia da universidade, sem apelo nem agravo. E o ambiente que isso provocou, já com a atmosfera pesadíssima pós-eleições… Foi um período negro. Chegámos a organizar uma reunião para que professores, alunos e funcionários pudessem falar abertamente sobre as coisas. E soubemos que uma funcionária cometeu o erro de expressar, na sua página de Facebook, solidariedade para com o miúdo somali assassinado. Apesar de o ter feito na sua página privada, aquilo foi sendo partilhado e tornou-se público. E começou a receber ameaças de morte pelo mail, pelo telefone, etc. Há certos posts que ponho no Facebook que nunca faria públicos nos EUA.

Como se de repente se tivesse descoberto num país diferente.

Muito muito diferente. Nessas duas, três primeiras semanas a atmosfera era muito pesada. Fui a um concerto com um casal amigo e estávamos a olhar para os lados à espera de que aparecesse o primeiro maluco aos tiros. Era uma ansiedade… E outro sintoma ainda mais palpável: dois dias depois das eleições houve uma exibição na universidade de um documentário sobre a 13.ª emenda da Constituição e que é no fundo sobre o sistema de encarceramento em massa de negros e latinos. Chama-se Thirteenth – a partir da 13.ª emenda da Constituição Americana, a que aboliu a escravatura mas que tem uma ressalva que diz que qualquer condenado pode ser submetido a trabalho forçado. Estava projetado para uma sala de 300 pessoas e apareceram 2500. Tivemos de passar para outro auditório. O filme é muito forte e corajoso, e é algo a que não estamos habituados, que haja tal frontalidade no assumir das questões raciais, questões que achámos que com a eleição de Obama estavam ultrapassadas. E de repente percebemos que estamos como se estava nos anos 60 do século XIX, altura em que se dá a emancipação dos negros e alguns otimistas acham que essas pessoas iam ser finalmente integradas e isso é usado para alienar a comunidade branca mais pobre, que fica com medo de que concorram com ela e que essas pessoas que não são bem pessoas se lhes equiparem. E é aí que estamos agora.

Está assim tão pessimista?

A forma como a polícia nos EUA se sente perfeitamente à vontade para matar negros na rua por tudo e por nada é um bom indicador.

Como viu os discursos, antes das eleições, de que era “tudo igual”?

Sou muito idealista mas também tenho consciência da importância do pragmatismo. Desconfio de políticos que são meramente pragmáticos e a Clinton muitas vezes vai nessa direção. Mas sim, é preciso fazer concessões às vezes, é preciso negociar. Essa intransigência que supostamente vem de uma certa pureza de ideais no mundo atual é muito difícil de entender.

O discurso era o do quanto pior melhor, que foi o que defendeu Slajov Zizek: a eleição de Trump seria tão catastrófica que rebentaria com o sistema, com o capitalismo.

Sim, e finalmente as pessoas iriam acordar. Mas as pessoas sofrem há muito, desde Reagan, pelo menos, que estão a perder direitos e são essas mesmas pessoas que votam para estes políticos entrarem no poder. É ver quem votou no Trump. As pessoas não estão informadas, apesar de julgarem que estão porque a informação nunca esteve tão acessível.

Como foi o início daquilo a que nos seus posts deu o nome de resistência?

Duas semanas depois da eleição, a minha mulher regressou de Portugal e começámos a sair do estado de choque. E a perceber que não éramos os únicos a reagir de uma determinada maneira àquela realidade e que o grau de mobilização era muito grande. Começámos a organizar-nos a nível local, num grupo que tinha que ver com as nossas relações imediatas. Mas percebemos que estavam a formar-se grupos em todo o pais. Há um, o Indivisible, que tem células no país todo e também na nossa cidade. A minha mulher é mais ativa do que eu porque ainda não sou cidadão, tenho de ter algumas cautelas. E há pessoas na idade da reforma que nunca foram ativas politicamente e de repente estão ali metidas. Na primeira reunião esperávamos duzentas pessoas e apareceram duas mil.

Que espera que aconteça como resultado desse movimento? Tem esperança de que Trump seja derrubado?

Não tenho nenhuma esperança em relação às investigações que estão a decorrer. Não porque não existam elementos para um impeachment, mas porque os republicanos têm maioria nas duas câmaras do Congresso e por muito que não gostem de Trump acham que a agenda deles avança. Portanto, aquilo que acho realista esperar é que haja conquistas ao nível de eleições locais e estaduais. Porque é aí que se joga grande parte da política que tem efeito direto sobre a vida das pessoas, e onde o Partido Democrata tem descurado imenso a sua estratégia política, que tem sido sobretudo tentar conquistar a Casa Branca e a maioria no Congresso – e tem saído furada. Para quem vem de um país como Portugal a mobilização a que assisto é muito inspiradora, comovente até.

Não começa a surgir conformismo?

Um dos maiores desafios é perceber como manter este nível de mobilização. Algumas pessoas podem estar a perder gás, mas outras estão a entrar pela primeira vez na liça. O nível de envolvimento é quotidiano. As pessoas interrompem a sua vida para fazer chamadas telefónicas, para organizar reuniões…

E que fazem nessas reuniões?

Estratégia. Posso dizer que no nosso grupo de amigos, que formámos logo a seguir às eleições, há gente a participar nas reuniões do parlamento da cidade. É uma coisa que sempre se pôde fazer mas não se fazia. Até porque mesmo pessoas com formação superior não sabiam como.

As pessoas estão a tomar conhecimento dos mecanismos do processo democrático e a reocupar a democracia, é isso?

Exatamente. É muito interessante e creio que não é ingénuo dizer que daí alguma coisa vai sair. Não sabemos o quê porque estamos a subir a montanha.

Por Fernanda Câncio publicado in Diário de Notícias

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