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Nuno Portas (...

Nuno Portas (1934)

Foto: Egídio Santos/Universidade do Porto

TALVEZ por ter esgotado todas as formas de pensar e escrever arquitectura já nos anos 1960, Nuno Portas encontrou um refúgio – muito desabrigado – no urbanismo. Foi uma forma de escapar dos caprichos da arquitectura.

1. Dizer algumas breves palavras sobre a actividade profissional do arquitecto Nuno Portas não é fácil, porque o seu percurso é longo e muito intenso, e tem a coerência própria de alguém heterodoxo, com o gosto pelo contraditório e pelo contrário. Vou por isso referir alguns aspectos que considero principais, ficando seguramente muito por dizer.

A cada momento descobrimos mais sobre Nuno Portas. Ainda agora, numa tese de doutoramento defendida na Universidade de Coimbra sobre “investigação em arquitectura”, ficou claro que aquilo a que hoje se chama pomposamente “internacionalização” era o dia-a-dia de Nuno Portas já nos anos 1960…

Nas biografias mais comuns aparece sempre como “urbanista”, o que estou certo o próprio não repudia, pelo contrário. Mas Portas foi – e é – o mais arquitecto dos urbanistas; como também o mais arquitecto dos cientistas, dos sociólogos; até o mais arquitecto dos críticos de cinema (relembre-se que foi aí que começou o seu percurso). E durante uma década – a de 1960 – foi o mais arquitecto dos arquitectos; até decidir deixar de o ser, como se verá.

Quando ganhou o prémio Sir Patrick Abercrombie na UIA (União Internacional de Arquitectos), em Istambul, 2005, o júri escolheu-o pela “importância da sua contribuição para o planeamento urbanístico em momentos chave da história do seu país.” E é, de facto, neste campo que estabiliza a sua actividade, e o seu modo de estar, depois de ter surgido fulgurantemente no final dos anos 1950 como crítico de arquitectura, e como co-autor no Atelier Nuno Teotónio Pereira de obras seminais como a Casa de Vila Viçosa (1958-1962), a Casa em Sesimbra (1960) e a Igreja do Sagrado Coração de Jesus (1962-1975).

É com efeito já no final dos anos 1950 que a sua inteligência fulminante e actividade imparável se manifesta, de modo precoce, iniciando um percurso monumental à escala da arquitectura portuguesa ou na verdade de qualquer outra. Com Nuno Portas dá-se uma aceleração no campo da cultura arquitectónica que ainda hoje se faz sentir. Nesses anos inaugurais, preenche o palco da cultura portuguesa em arquitectura: inventa as vozes; faz o texto; é encenador; espectador; actor. E vai trazendo os arquitectos do Porto para o teatro da capital.

Evolui e muda, debatendo e expondo-se sempre. É aquilo a que se chamava um “intelectual engagé”: a teoria tinha que se reconhecer na prática e vice-versa. Com este modo, com Nuno Portas, a arquitectura portuguesa floresceu.

São inúmeras e sempre relevantes as formas como criou esse teste de maioridade para a arquitectura portuguesa: congressos e viagens internacionais, textos, aulas, conferências, até programas de televisão.

2. Mas falemos do início. A primeira e nunca abandonada premissa com que inicia o seu percurso é a crítica ao Movimento Moderno – desde que começa a escrever sobre arquitectura em 1956 (há mais de 60 anos), passando pela publicação do seu primeiro livro A Arquitectura para Hoje (1964), até ao segundo A Cidade como Arquitectura (1969). Durante esse período, acompanha, reinventa e critica os principais temas da cultura arquitectónica da época. Da proposta do historiador italiano Bruno Zevi, em defesa de uma arquitectura “orgânica” contra a “racionalista”, evoluirá para outros pressupostos. Mas esse é o ponto de partida do grupo que famosamente toma conta da revista Arquitectura em 1957, onde Portas pontua.

Logo em 1959, num extraordinário texto intitulado A responsabilidade de uma novíssima geração no Movimento Moderno em Portugal, propõe-se inquirir o “conteúdo e significação do próprio espírito moderno”. Aí aponta já o caminho que perseguirá ao longo dos anos 1960 e 1970, no sentido de preocupações metodológicas que o vão aproximar das ciências sociais. Escreve por isso de modo categórico: a modernidade está “no modo de conexão do acto criador com os processos de conhecimento da realidade”.

Desde então será este o eixo principal da sua coerência: a defesa de uma abordagem metodológica, sistemática, que supere o intuitivo e o artístico como modelos para a arquitectura. Portas conclui à época pela defesa de um “meta-projecto” capaz de superar o impasse do fim do “racionalismo”, e evitar a eclosão de novos “formalismos.” Entusiasma-se pela investigação praticada pela Escola de Cambridge, com ênfase no processo e na “inovação nos métodos”. Como escreveu mais tarde, já retrospectivamente, esta experiência permitiu abrir “as janelas da teoria aos domínios da lógica e da matemática, da biofísica e das ciências humanas” (2005). O que tem hoje, diga-se, uma particular ressonância.

Era – e é – este o alargamento a que aspirava – e aspira: uma mais crucial inscrição do milenar saber arquitectónico nas práticas da investigação e da universidade, para lá da falível intuição do arquitecto. Quando ingressa no Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), em 1962, dá o passo em frente no sentido desta ruptura. A Cidade como Arquitectura traduz a evolução do seu pensamento, como resultado das investigações no LNEC e da experiência pedagógica na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, na segunda metade da década. O que significará, na prática, um distanciamento dos temas da arquitectura no sentido de um aprofundamento das questões urbanas.

A passagem da “crítica de arquitectura” para as “metodologias do projecto” significou também uma mudança de objecto de estudo: do edifício para a cidade; do artefacto para o território.

Nos termos tão bem expressos na época, e que têm hoje enorme eco, Portas quer superar os formalismos e estilismos da arquitectura, que afirma ser “um campo quase desprovido de feedback”; o arquitecto é descrito como uma figura socialmente pouco responsável, “desobrigando-se da prestação de contas à sociedade” (1969).

À época Portas socorre-se da “sociologia” enquanto forma de análise das consequências da arquitectura e procura uma aferição sistemática para o projecto. De acordo com as premissas do “estruturalismo”, quer encontrar aquilo que é decisivo no interior daquilo que é aparente, e fixar uma estrutura que possa ser conhecida, dominada e comunicada. O “meta-projecto” ou o “meta-programa” que defende permitiria uma avaliação e resposta que está para lá das preocupações formais que são centrais na prática da arquitectura.

Definitivamente, para Portas, o arquitecto não é um demiurgo, nem a arquitectura pode ser magia. Estas conclusões dos anos 1960 e 1970 serão marcantes em todo o seu percurso posterior até hoje; e têm hoje uma especial ressonância.

3. Com o 25 de Abril, Nuno Portas é secretário de Estado da Habitação e Urbanismo, e assina o famoso despacho que cria o Serviço de Apoio Ambulatório Local (SAAL). Em perfeita coerência com as reflexões anteriores, Portas quer, como escreverá depois, mudar o “processo convencional unidireccional do planeamento urbanístico” e permitir um “fluxo de informação no sentido inverso, apoiado pela base da comunidade e começando por uma análise dos recursos e das formas locais.” Entende que “na habitação social tradicional, tudo está já feito quando o inquilino chega”, e com o SAAL o “programa começa pela organização prévia da procura final, com base na existência de uma ecologia social.” O SAAL, afirma Portas, visa pôr “face a face utilizadores e projectistas, logo desde o início” (1984).

Como é sabido, o episódio do SAAL é um dos momentos míticos de fundação da arquitectura portuguesa contemporânea. O diálogo entre Nuno Portas e Alexandre Alves Costa, o coordenador do SAAL/Norte, é também um dos mais estimulantes e críticos do nosso tempo. É o diálogo entre um “reformador” que lança um processo com elementos radicais – Nuno Portas –, e Alexandre Alves Costa, um “radical”, digamos assim, que escolhe uma via conservadora para se exprimir: a arquitectura. O escultor dessa conversa paradoxal é Álvaro Siza (a arte serve para superar as contradições sem verdadeiramente as resolver, como se sabe).

É claro que entretanto Nuno Portas tinha feito pelo sul da Europa uma consistente e importante divulgação crítica da obra de Álvaro Siza, que assim conhece a sua primeira mas decisiva vaga de notoriedade internacional.

O SAAL, com todas as suas contradições, interiores e exteriores, cria um novo ramo da arquitectura portuguesa – o que decorre da decisão política directa, com consequências que ainda são hoje motivo de investigação e polémica.

4. A partir dos anos 1970 e 1980, Nuno Portas diverge abertamente do rumo da cultura arquitectónica, perde empatia com os temas mais disciplinares da arquitectura e vai exercer as suas capacidades analíticas e criativas sobre o território português. Com especial predilecção por aquilo a que chama “cidade dispersa” – a cidade “sem nome” – por oposição à “cidade compacta”, “histórica” ou “patrimonial”. Ao fazê-lo coloca-se num plano complexo onde a arquitectura é secundarizada, mas os instrumentos científicos são escassos e a racionalidade não abunda.

Uma eventual reforma da “cidade dispersa” é de facto o objectivo mais difícil de todos e aquele onde os resultados são menos palpáveis ou visíveis. (A esse respeito veja-se o actual debate sobre a “floresta” e as “matas”). É por esta altura que coordena um trabalho pioneiro sobre o Vale do Ave, que merece uma necessária revisitação.

A partir daí, e nos últimos 35 anos, a defesa do “espaço público” e do “desenho do chão”, em particular, tornou-se o modo como Nuno Portas, o “urbanista”, teoriza, comunica e faz projecto. Isso mesmo é especialmente evidente no plano do Campus de Aveiro que coordenou, onde adopta uma axialidade clássica e sugere um clima social-democrata. O “espaço público” revela-se uma avenida monumental e os edifícios são quarteirões modulados em tijolo, material de “forte tradição regional”, é claro.

Será também importante a influência de Nuno Portas no desenho do recinto da Expo-98, de Manuel Salgado, como espaço de cidade no pós-exposição, assim como é importante a sua crítica à Parque Expo como “ilha de excelência” sem a capacidade de regeneração da envolvente, que preconizava. No plano internacional, refira-se ainda o projecto que realizou, com Oriol Bohigas, para a “Avenida da Marginal do Aeroporto Santos Dumont à Igreja da Candelária” no Rio de Janeiro, em 1997.

5. Recentemente, em 2012, pudemos ter uma visão de conjunto na exposição O Ser Urbano – Os caminhos de Nuno Portas, comissariada por Nuno Grande para Guimarães, Capital Europeia da Cultura. Nessa exposição antológica e marcante, podíamos observar aquilo a que chamei uma “inteligência em cascata”: um percurso feito de camadas que se sobrepõem e entrelaçam, e que obriga a uma certa respiração e tempo para ser analisado e compreendido.

Como é sabido, Nuno Portas ingressou na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto em 1983, onde se jubilou como professor catedrático.

Não foi um encontro fácil, como seria de prever. O Porto e Portas são duas escolas – com direitos próprios. O Porto ama a “forma” e o “desenho”, exactamente os alvos que Portas quis abater, nos termos que exprimi anteriormente. Mas particularmente em Manuel Fernandes de Sá e em Álvaro Domingues encontrou interlocutores à sua altura, destemidos e interdisciplinares, como gosta. Desse diálogo, investigações e projectos conjuntos ainda haverá muito por fazer e descobrir.

Talvez por ter esgotado todas as formas de pensar e escrever arquitectura já nos anos 1960, Nuno Portas encontrou um refúgio – muito desabrigado – no urbanismo. Foi uma forma de escapar dos caprichos da arquitectura.

No “espaço público” projecta a sua pulsão democrática; no “desenho do chão” a vocação que tem pelo ordenador. Do outro lado da razão, a “cidade dispersa” é por definição um amor difícil; uma causa perdida, talvez. Mas é por isso.

Muito antes do actual ódio à arquitectura iconográfica e ao star-system de arquitectos, Portas falava da modéstia, da processualidade, da malha.

Ciclicamente sabe que voltará a ter razão; mas Nuno Portas ainda hoje, felizmente, não se contenta com isso.

Texto de Jorge Figueira lido no Dia Nacional do Arquitecto, 3 Julho 2017, promovido pela Ordem dos Arquitectos no Palácio da Ajuda e publicado in PÚBLICO

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