Do Porto

Mário Morais, 60 anos

24 Maio 2017 Comentar

COM o senhor Mário, no trabalho, não se brinca. Muito menos na actividade profissional que exerce há 43 anos. É engraxador. Um dos três últimos que estão na Praça da Liberdade, no Porto. Sentado na caixa típica usada pelos mestres deste ofício, aos sapatos dos clientes que à sua frente se sentam é dado um tratamento “profissional”, à “moda antiga” e como manda a tradição. Escova para limpar os pós acumulados, passa o produto cuja receita criou — o segredo que diz distinguir o seu trabalho dos demais —, passa a graxa e estala o pano no calçado com a dose de força necessária para acabar o serviço.

“É assim que se faz. O cliente tem que sentir o pano no pé”, explica. Era assim que já se fazia quando começou aos 17 anos. Hoje tem 60 e preserva a tradição que lhe foi passada pelo pai, com quem começou a trabalhar na estação de Campanhã.

“Faz-te à vida”, disse-lhe o Morais (nome de família) mais velho quando ainda não era maior de idade. Era uma casa cheia, onde vivia, com mais dois irmãos “para manter”. Se “queria comer e um telhado”, tinha que fazer por isso. O pai ensinou-lhe as bases do ofício, ainda na década de 60 do século passado, e “nos anos 70” inicia a actividade que nunca mais largou.

De Campanhã vai para o jardim de São Lázaro onde aperfeiçoa a técnica e dá nas vistas. É lá que recebe o convite para trabalhar numa das várias engraxadorias que existiam na cidade, que competiam com quem trabalhava na rua. “Naquele tempo era um engraxador em todas as esquinas”, recorda. “Só na rua da Madeira (perto da estação de São Bento) eram sete ou oito”. Fora da Baixa, encontravam-se muitos na Areosa, conta. Estava habituado a trabalhar na rua, mas aceitou o convite dos Vilelas, “uma das melhores casas do Porto”, na 31 de Janeiro. “Eram dois irmãos. Não tinha letreiro na porta, mas toda a gente conhecia o espaço pelo nome da família”. Aceitou o trabalho porque “não era mal pago” e dava-lhe “outra segurança”.

Foi assim até fechar as portas. Apanhou-o desprevenido. “Não contava” que o negócio estivesse próximo de fechar. Pega nas tintas, escovas e caixa e volta para a rua. Já tinha descido de Campanhã para São Lázaro, depois para a 31 de Janeiro, desce mais um pouco e guarda lugar na Praça da Liberdade, frente ao café Imperial, ainda em funcionamento na altura, e que ao lado da entrada principal também tinha uma engraxadoria.

Pouco tempo depois vai para a engraxadoria da rua de Sampaio Bruno, a última da cidade a encerrar, há cerca de 10 anos, diz-nos. “Ali podíamos estar abrigados. Mas tínhamos que dar 75 cêntimos por serviço” ao patrão. Cada trabalho custa dois euros: “Pagávamos quase metade”. Sai de lá e volta para a praça onde ainda está há 18 anos (contando com a interrupção de tempo em que esteve em Sampaio Bruno).

Já não está lá o café Imperial, que é agora um restaurante de uma cadeia multinacional de fast-food, nem a engraxadoria. Em Sampaio Bruno também só sobraram as cadeiras que estão no corredor de entrada do prédio, onde actualmente funciona um hostel.

Das 9h às 18h, de segunda-feira a sábado, o senhor Mário está na praça. Sentado na almofada da caixa rectangular, com as pernas esticadas, pousa os pés no chão apoiados pelos calcanhares. Enquanto espera pelo próximo cliente fuma um cigarro. Calçados tem uns sapatos pretos impecavelmente bem tratados. Há que dar o exemplo e vender o serviço que presta: “Os homens ainda se conhecem pelos sapatos”.

Aos domingos fica em casa. “É um deserto. Não compensa”, diz. Quando o tempo não ajuda também não aparece ou vai mais cedo para casa, mas é muito raro isso acontecer: “Passo sempre por lá para ver se o tempo melhora”.

Uma semana antes, num dos dias em que nos encontrámos com o senhor Mário, chovia. Abrigou-se para os lados do Bolhão, onde falou connosco. “Gostava de ter um espaço para trabalhar que fosse abrigado. Um dos meus projectos seria recuperar um quiosque antigo para montar lá o meu espaço”, partilha. Outra das suas lutas é tornar a actividade reconhecida na cidade. Gostava de ter uma carteira profissional e uma licença específica de engraxador. “O mais próximo que há é licença de vendedor, mas eu sou engraxador”, afirma. É uma luta antiga. No Porto, de acordo com o Gabinete do Munícipe, não existem licenças para engraxador.

Que sapatos engraxam os engraxadores do Porto

No dia que fomos à Praça da Liberdade, estava um dia de sol e ainda era hora de almoço. Fomos conversando enquanto trabalhava. No encontro anterior dizia-nos que o negócio já tinha visto dias melhores: “Dantes atendia 30 clientes num dia. Hoje não atendo 30 numa semana”. Naquele dia, no período do almoço, os clientes apareceram em número constante e raras foram as vezes em que os três engraxadores da praça não tinham clientes. “À hora de almoço muitos clientes aproveitam a pausa para passar aqui”, diz.

“Calfe, cabedal, luva e verniz”, são tipos de sapatos que diz existir. Está a tratar de uns feitos de calfe (couro de vitela). Para saber qual a cor original do calçado, dobra uma ponta do sapato para conseguir espreitar pelas costuras, onde a tinta aplicada no exterior não chega. O “cavalheiro”, como trata os clientes, não é um dos habituais. “Vivo há pouco tempo no Porto. Estava de passagem e como os sapatos estavam a precisar de um tratamento aproveitei”, conta. Normalmente costuma tratar dos sapatos em casa, mas admite que o serviço fica diferente quando recorre a um engraxador. Tem uma “série de pares de sapatos”, mas se pudesse tinha mais. “Sou apaixonado por relógios e sapatos”, diz o cliente. Os que compra são para durar. Para que se aguentem tem que lhes dar “um tratamento regular”. Os sapatos que tem calçados têm oito anos e os mais antigos 15. “São mais velhos do que o meu filho mais novo”, que tem 13, conta.

O senhor Mário diz que a maior parte dos clientes são regulares. Trabalham nas imediações da praça, em serviços ou em escritórios de advogados. A faixa etária varia muito, normalmente na casa dos 30, 40 e 50. Mas há também alguns mais jovens que “gostam de um visual mais clássico”.

Bruno Rodrigues tem 36 anos e aproveita a hora de almoço para fazer uma manutenção aos sapatos. Trabalha como advogado num escritório não muito longe dali. É a terceira vez que lá está naquela semana. O tempo que passa na cadeira do engraxador aproveita para investi-lo na reflexão. “Gosto de aqui vir para relaxar e reflectir um pouco. Poder fazer isso na rua, no coração do Porto ajuda-me a esquecer por umas horas a rotina do dia”, conta. Habitualmente opta pelo serviço de Arménio Matos, a par do senhor Mário, dos mais antigos engraxadores em actividade na praça. O filho de sapateiro, com 65 anos, que trabalhou sempre como engraxador de rua naquela praça está com outro cliente e por isso, Bruno Rodrigues, como já tinha pouco tempo, escolheu o engraxador mais novo em idade e actividade.

Mário Morais tem o mesmo primeiro nome do colega de 60 anos. Mais novo, tem 48, está há três anos na Praça da Liberdade, altura em que abraçou a actividade. Ainda assim, diz não ser um novato, pois quando ainda era “miúdo” ia com familiares para perto da Estação de São Bento fazer uns serviços na área. Não se queixa da falta de clientes. Conta que, por dia, consegue uma média de 12 a 15. Apesar de cada trabalho custar dois euros, “há sempre quem dê mais dinheiro”. Não é por estar ali há menos tempo que tem menos clientes. Não nota a diferença.

O senhor Ramiro, um cliente habitual, escolheu-o para engraxar os sapatos. Tem 79 anos e está reformado. Vai lá duas ou três vezes por mês. Vai do Campo Alegre para lá. Não encontra este serviço em mais lado nenhum: “Dantes havia ‘graxas’ por todo o lado. Hoje é só aqui”. Tem pena que esta actividade tradicional, assim como outras, estejam a desaparecer. “São figuras que fazem parte da cidade”, diz.

Não é por ser o mais novo que Mário Morais sente o peso da continuidade nas costas. “Estou concentrado no meu trabalho. Hão-de aparecer mais”.

Já o senhor Mário é menos optimista. Se não forem criadas as condições de trabalho e os apoios necessários, acredita que a actividade pode desaparecer. Há quem passe, especialmente turistas, e pare para tirar fotos. “Já me foi dito pela câmara que sou património e uma figura típica da cidade”, diz. No entanto, se nada se fizer “quando os que cá estão deixarem de trabalhar a profissão fica por aqui”. Sonha com algum reconhecimento pela actividade e pelos anos de trabalho que dedicou ao ofício: “O que gostava mesmo era que me fizessem uma estátua ao lado da do Ardina”.

Por André Vieira publicado in PÚBLICO

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