Do Porto

Domingos Gomes dos Santos (1942)

9 Junho 2017 Comentar

DOMINGOS Gomes dos Santos, mais conhecido por “Domingos Estriga”, nasceu em 1942, na Póvoa de Varzim. Fez a terceira classe na escola Bota-pá-Mula e a quarta na Escola de Pesca em Lisboa. O mar salgou-lhe a pele durante uma vida, na pesca ou como marinheiro e contramestre de cargueiros. Casou em 1963 com Olinda da Rosa, mãe dos seus quatro filhos. No ano seguinte foi a salto para França, onde trabalhou até 1968, como trolha e empregado de uma fábrica de metalomecânica. Depois foi para a Alemanha trabalhar na marinha mercante até se aposentar.

Os filhos de pescadores nasciam pescadores: “Éramos 12 irmãos, seis rapazes, e todos foram para o mar. Ainda antes de tirar a cédula marítima, aos 14 anos, já ia com o meu pai pescar. Depois andei num fanaqueiro, dos ‘Manezés’, e num sardinheiro, do tio ‘Ilhas’, à vela e a remos. Pescávamos junto à costa. Antes de rumar à escola de pesca em Lisboa, ainda andei em Matosinhos nas traineiras da sardinha. Pesquei uma temporada no Senhora das Neves, um barco a fogo (a nafta)”.

A Escola de Pesca em Lisboa formava os homens para os mares do bacalhau, na Terra Nova: “Fui de moço, em 1960. Melhor dizendo, fui de escravo, porque fazíamos de tudo, varrer, lavar, coser panos, meter sal no bacalhau, arrear e alar os dóris e baleeiras, sem descanso, 20 e mais horas seguidas. Uma canequinha de água para lavar a cara e cortar a barba. O banho do corpo, para os 82 pescadores, era só em terra. Quando o navio ia abastecer ao Canadá, com três ou quatro meses de mar, íamos tomar banho à casa do marinheiro. A roupa mudava-se, mas só era lavada ao fim de sete meses, em casa. Até os presos tinham melhor vida”.

Os pescadores do bacalhau regressavam à sua terra, mas o mar chamava-os para a pesca da sardinha, lembra Domingos Santos: “Voltei para Matosinhos e desta vez para um barco campeão. Disse adeus à Gronelândia e fiz duas safras da sardinha. Começava a 15 de Abril e terminava a 15 de Janeiro. Nessa altura o defeso era de três meses. Depois casei e comecei a pensar em emigrar para fugir da miséria”.

Decorria o ano de 1964 e a guerra no ultramar levou muitos jovens a arriscar atravessar as fronteiras: “Não foi o meu caso porque me apresentei na Marinha e fui dispensado, mas foram comigo muitos jovens que fugiram à tropa. Paguei 20 contos (100 euros) ao passador. Depois de uma semana à espera de um grupo, numa casa em Braga, atravessámos a fronteira em Barca d’Alva, onde se juntou mais gente”.

A viagem clandestina para França foi dura: “Dormíamos 22 homens em palheiros e cortes de animais. A fronteira foi feita, a pé, pelo meio dos montes. Depois atravessámos a Espanha. De dia por caminhos vadios e de noite éramos carregados com o gado num camião. Fizemos os Pirenéus durante a noite, em fila indiana, com um guia à frente e outro atrás. A gente sabia que não podia desistir ou aleijar-se. Só os mortos ficavam pelo caminho, e ficaram alguns pelos penhascos”.

Leia a notícia na íntegra na edição impressa da A VOZ DA PÓVOA

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