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O poeta que i...

O poeta que ia ser monge

O poeta que ia ser monge

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FAZ hoje 16 anos que faleceu Daniel Faria. Para relembrar o poeta (a pessoa e a obra) reproduzimos online a entrevista concedida a Francisco Duarte Mangas, originalmente publicada na edição escrita do Diário de Notícias de 23 de junho de 1998, página 48, com o título: O poeta que vai ser monge

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A CARA DA NOTÍCIA: Daniel Faria 27 anos poeta.

«Guarda a manhã/tudo mais se pode tresmalhar» É esta a forma de Daniel Faria estar na vida. Natural de Baltar (Paredes), foi para o seminário aos 12 anos. Tirou teologia e vai licenciar-se em estudos portugueses. Em novembro entra como noviço no Mosteiro de Singeverga. Lê Herberto Hélder, Ruy Belo, Sophia, Rilke, Borges, Luísa Neto Jorge e Cecília Meireles, entre outros. Lê e escreve para «explicar o inexplicável». Se não tivesse perdido uma disquete com poemas, não teria publicado Homens que São como Lugares mal Situados e Explicações das Árvores e de Outros Animais (Fundação Manuel Leão). Por vezes, os acidentes são bons.

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«Trazer um poema à superfície é uma experiência» e um exercício de obediência, diz o futuro noviço de Singeverga. O seu funcionamento interior «é muito do fogo» diz Daniel Faria. Poeta surpreendente, futuro monge beneditino.

Ao escrever está a «trabalhar no mecanismo secreto do amor»?

Eu escrevo para os outros. Mas quando nós publicamos, perdemos os poemas – eu senti isso. Há uma certa fase em que eu já não consigo ler o que escrevo, é quase um processo de desamor. Depois, os leitores devolvem-nos o livro. O mecanismo secreto do amor é esse processo de diálogo, com a escrita, com os poemas entre si, na intertextualidade dos poemas com outros autores.

Os monges de Singeverga gostaram de ler os livros?

É uma comunidade envelhecida. O tipo de leitura de fizeram é muito diferente. Esta poesia é para eles um pouco estranha. Foi muito bonito, uma lição de humildade: vieram ter comigo a pedir que eu lhes explicasse ou ensinasse a ler este tipo de poesia. A sensibilidade também se educa.

Os seus poemas são feitos de luminosidade («se acender uma luz/não morrerei sozinho»). Porquê essa obsessão da claridade?

Eu nunca tive medo do escuro. Mas acho que tem a ver com um fascínio de infância. A minha primeira ida à igreja foi um fascínio: o fascínio da luz. A luz dos azulejos, a luz da vela, das vestes.

Eu fiquei perturbado com o olhar dos santos…

Foi? A mim foi a luz. Como a minha casa é humilde, o brilho da talha ainda me impressionou mais. Claro que, depois, toda a nossa formação está ligada à dimensão da luz, mas isso já tem referências bíblicas. Há outra coisa: o meu funcionamento interior é muito do fogo.

Julguei que essa obsessão vinha da Regra. No prólogo, São Bento diz: «Correi enquanto tiverdes a luz da vida.»

Exato. Mas São Bento apareceu mais tarde. Em Explicação das Árvores e de Outros Animais, a luz tem a ver com a escrita, sobretudo com o aprender a eliminar. Os poemas surgem, mas depois temos de aprender a enxugá-los; a dar-lhes claridade. Trazer um poemas à superfície é uma experiência única.

O ambiente rural também está presente. É este, ainda e sempre, o mundo dos despojados beneditinos?

A vida monástica está muito ligada ao mundo rural. Mas esse mundo rural, que aparece nos livros, vem da minha infância. Vivi num lugar rodeado de montes e campos, a nossa família sempre trabalhou a terra: isso marcou-me; queria ver os desenhos animados e tinha que ir apanhar erva. Essa vivência do ritmo da lavoura acaba por interferir com a nossa vida, é das coisas que dá mais equilíbrio à vida monástica.

«Há uma voz que bebo», diz num dos poemas. Quem é a voz?

Não sei quem falava que o poema se escuta. Não sei se era o Pessoa e Sophia vem falar disso e retomar Pessoa não sei. Tenho a certeza de uma coisa: a poesia me é dada. Eu construo-a. O poema escapa-nos completamente. Ele, por nos ser estranho, acaba por se nos impor. Há poemas que surgem logo; apareceram assim e não lhes posso tocar. Os poemas de Homens que São Como Lugares Mal Situados não sei bem como os construí – foram escritos no tempo em que eu estava para entrar no Mosteiro, estava em estado quase de graça absoluta. Senti, então, que os poemas nos são dados. Construí-los é um exercício de obediência.

Que outros poetas lê?

Por incrível que pareça, não leio muita poesia. Tive a sorte de ter um prefeito no Seminário que gostava de poesia. Uma coisa que me deu a ler foi Sophia de Melo Breyner. Há outros poetas que gosto: Rilke, Ramos Rosa e, claro, Herberto Helder…

A sua poesia entra no universo de Herberto.

Claro. Depois do Pessoa não há muitas dúvidas, é o Herberto.

E a seguir é o Daniel Faria.

Não, não sou. De maneira nenhuma. Na adolescência li o Eugénio de Andrade. Um dia levei-o ao seminário, foi importante esse encontro. Há outros poetas no meu caminho: Drummond de Andrade, Cecília Meireles…

E o Ruy Belo?

É um poeta fabuloso…

Há pontos comuns no vosso trabalho poético.

Sim. No uso que ele faz dos temas bíblicos, como um grande código, por exemplo. Ele andou na Opus Dei, essa experiência acabou por marcar a sua poesia. Gosto muito também do Luísa Neto Jorge e de alguns textos de Jorge Luís Borges.

Você é o «anjo ferido na raiz», que menciona num dos poemas?

Mais do que «uma espécie de anjo ferido». Talvez um anjo atingido na raiz, na sua dupla dimensão: um ser que aspira a uma certa vivência da esfera divina e alguém que recebe a sua própria fragilidade. Um anjo ferido na raiz anda mais pela terra do que pelo céu.

É esse anjo que «conserta as palavras com todos os sentidos em silêncio.»

O silêncio acaba por ser outra das palavras importantes. Na construção do poema temos essa perceção de que andamos a trabalhar com a matéria dos silêncios. O silêncio parece quase a palavra perfeito no seu fim. A poesia, como já disse, é aprender a eliminar, partindo da descoberta.

«Guarda a manhã tudo o mais se pode tresmalhar.» É essa a sua forma de estar na via?

É, mas tem a ver com o só Deus basta. Tudo o mais se pode tresmalhar. É preciso guardar a luz essencial, e para mim a luz essencial é sempre a luz da manhã.

Porque razão publicou os dois livros em simultâneo?

Foi um acidente. Nas últimas férias um amigo emprestou-me um computador para eu bater a minha tese de licenciatura em teologia. Foi nesse tempo que passei os dois livros. Depois devolvi o computador e guardei os poemas em disquete. Um dia levei a disquete para a faculdade e perdi-a. Confesso que me fez alguma mossa pensar que os poemas podiam ser publicados por outra pessoa. Não havia outra solução: publiquei os livros.

É um homem feliz?

Sim. E bem situado.

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«Tive de deixar muitas coisas de que gostava»

Na opinião de Daniel Faria a vida monástica não é «uma espécie se mina antipessoal: quem calca fica amputado»

O que o levou a seguir a vida monástica?

Eu não tenho uma explicação para isso. Lá está: é explicar o inexplicável. Nunca percebi muito bem aquilo que diziam de «ser chamado» ou isso de ter uma vocação. Nós somos mais empurrados porque chamados. Sinto, isso sei, que o meu lugar é na vida monástica. O que se pretende na vida monástica é o testemunho do inexplicável. Santa Teresa dizia que só Deus basta – o monge tem que testemunhar antes de mais, que só Deus basta. Há coisas muito importantes na vida, de facto. Coisa de que gostava muito, mas tive de deixar…

Quais?

O cinema, por exemplo; o teatro. A possibilidade de ir a uma livraria comprar um livro.

Vai deixar de poder comprar livros?

Vou deixar de o fazer com esta liberdade, porque preciso de pedir dinheiro para os comprar. No mosteiro os livros vêm para a biblioteca, são pedidos pela biblioteca. Se chegar a uma livraria e tiver trazido dinheiro posso comprar, mas terei sempre de pedir autorização para comprar esse tipo de livros. Ir para monge hoje é um bocadinho explicar o inexplicável; há muita gente que tem a perceção de que a vida monástica é uma espécie de mina antipessoal: quem calca fica amputado.

Mas fica um pouco «amputado».

Como todas as opções: é escolher entre várias possibilidades. A gente escolhe, deixa outras. Mas isto significa encontrar o seu lugar, um caminho de felicidade. Digo felicidade no sentido que tem o latim felix. No latim, feliz está ligado à lavoura, significa ser fértil. Ser feliz é ser fecundo. Só um homem no seu lugar, que encontra o seu espaço, o lugar de ter raiz, é que é capaz de fortificar e de completar-se em todas as suas dimensões. Aquilo não me limita, completa-me.

Só Deus basta, portanto.

Só Deus basta. Só Deus basta, de facto. Mas é possível testemunhar que só Deus basta vivendo de outra maneira. Nós testemunhamos desta forma mais radical…

…e isolada.

Sim, é um pouco mais estranha. Nós estamos numa época que aprendeu a valorizar – e a igreja também o fez – as solidariedades humanas, o estar presente. Então, as pessoas perguntam-me o que eu vou fazer para um mosteiro quando é preciso ficar cá fora. Nós acreditamos na dimensão da oração. Através dela se santifica o mundo, no sentido de que a santidade de um homem atinge outros homens…

Não acha, por exemplo, que a teologia da libertação é mais eficaz para salvar o mundo?

Se tivermos uma visão pragmática da vida, por ser mais visível imediatamente. Esse é um modo possível, há outros. A iniciativa é sempre de Deus – a ação é de Deus, a reação é do homem.

Fotografia de Augusto Baptista

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