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Cristina Azev...

Cristina Azevedo, 44 anos

RECUSOU um ministério por não se achar tecnicamente preparada. Mas aceitou presidir à Fundação Cidade de Guimarães, tendo a sua saída sido envolta em polémica. CRISTINA AZEVEDO, 44 anos, é uma mulher de garra, licenciada em Relações Internacionais e pós-graduada em análise financeira, que adora o Porto. Eis a sua história de vida, que conta pela primeira vez.

Presidiu à Fundação Cidade de Guimarães durante dois anos. Apesar de ter saído em rutura esperava não ter sido convidada da abertura oficial da Guimarães 2012, Capital Europeia da Cultura?

_Limitei-me a constatar o facto de não ter sido convidada.

O que é que sentiu naquele dia, a ver a cerimónia de longe?

_Senti-me muito gratificada, porque tudo o que ali estava tinha tido o meu contributo, desde a orquestra, pela qual me interessei pessoalmente, à restante programação apresentada durante a semana de abertura. Era tão próximo que só tenho uma palavra – contentamento.

Vai fazer questão de assistir a alguns dos eventos da Capital Europeia? E quais?

_Há vários de grande qualidade a merecer uma visita.

Que lição tirou da passagem pela fundação?

_Sou das que pensam que não se aprende nada com lições negativas. Acho que só drenam a energia das pessoas, tornam-nas mais céticas, eventualmente mais cínicas. Mas também acho que algumas realidades políticas, no sentido global do termo, acabam sempre por interferir com entidades independentes. O que aconteceu em Guimarães foi um exemplo típico dessa resistência, que é muito comum nestes processos. Nada que nesta fase da minha vida me desiluda ou enfraqueça.

Agora no sentido mais restrito do termo, o poder político pretendia uma presidente da fundação mais permeável ou enfeudada, é isso?

_Não sei o que pretendia. Só sei aquilo que sou. E não sou permeável nem enfeudada. Sou profissional e sempre disponível para ser avaliada.

Teve o seu ordenado discutido na praça pública. O que é que sentiu nessa altura?

_É muito incomodativo porque é como se eu tivesse tentado esconder ou tivesse tentado fazer qualquer coisa de menos legítimo. E o incómodo aumenta quando se é chamada para apresentar uma proposta de vencimentos de uma equipa e não de uma pessoa. Vencimentos que obedeceram a critérios claros, transparentes, objetivos e, mais, que foram colocados à disposição da pessoa que tinha de decidir. E, como é óbvio, eu teria ficado fosse qual fosse a decisão. Portanto, depois de uma absoluta transparência e rigor, depois de explicar o porquê e os pressupostos, custa muito ver o assunto tratado como se de uma coisa ilegítima, escondida e mal explicada se tratasse.

Por que razão terá sido escolhida para o lugar?

_No meu caso foi relativamente simples. Creio que tive um papel importante na montagem do processo. Poucas coisas estavam definidas na Capital Europeia da Cultura, e eu ajudei a montar o financiamento global da iniciativa. Nas reuniões preparatórias, terá ficado claro que eu teria o perfil indicado para gerir uma iniciativa destas. Resisti muito. Parecia-me que, mais do que um perfil técnico, talvez fosse preciso alguém que tivesse um percurso mais ligado às questões culturais, mas foi-me tão insistentemente solicitado que aceitei. Era serviço público, o que sempre me agradou. Não gostaria de trabalhar numa empresa cujo único resultado que se pede é o lucro. Isso não me chega. Ali era preciso criar uma organização, convidar equipas, financiar. Era preciso, de facto, um perfil de liderança energético.

Uma liderança energética, afirmativa e autoritária?

_Sempre pensei que a minha diferença estava no pensar e no sentido de humor. As pessoas têm-me como um general, sem sentido de humor e autoritária. Acho que tem que ver com o facto de ser alta e de falar muito depressa – isso é de família, até da mais alargada. Não imagina a quantidade de vezes que as pessoas me pedem para falar mais devagar. É verdade que por vezes lido com um pouco de impaciência com os discursos pouco conclusivos. Cruzo-me muito com este tipo de discursos, mas habituei-me a lidar com eles. Tento não ser desagradável e ouvi-los até ao fim. Tento ter a paciência necessária. Nesse aspeto, sou bastante mais norte-europeia. E as pessoas não estão habituadas. Há muitos anos, no âmbito da faculdade, organizei umas jornadas, e coube-me fazer um discurso de fecho. E no final, disse-me o diretor de curso: «Cristina, que bem. Parecias um homem.»

Que lhe respondeu?

_Virei-lhe as costas.

Dos dois anos de fundação, do ponto de vista da eficiência e da eficácia, que momentos destaca?

_Todos. Gosto de transformar uma ideia numa obra. Peguei neste projeto quando ele era apenas um papel, uma boa ideia apresentada a Bruxelas, com a confiança feita de que essa ideia poderia operacionalizar-se. Liderei uma pequena equipa que fez rigorosamente tudo. Montar uma coisa destas em dois anos é muito pouco tempo. Estive empenhada do primeiro ao último dia, não parei para pensar no ruído externo. Não digo que não foi desagradável, que não me senti injustiçada. Com certeza que sim, mas o prazer que tive em montar uma coisa tão difícil em tão pouco tempo é insubstituível. E mantém-se muito consolidado. O que deixei feito está agora no terreno.

Diz quem a conhece que não gosta de deixar um projeto antes do fim. Foi dolorosa a saída?

_Foi. Precisamente por me ter sido negado o acompanhamento do projeto na sua fase de execução.

Neste momento é comentadora num canal televisivo, ao lado de Joana Amaral Dias e Paulo Rangel. Gosta de ser ver e ouvir na televisão?

_É a minha única ocupação «profissional». Não me levo muito a sério, embora seja uma experiência interessante, porque me faz observar a realidade e me obriga a estudar, que é uma coisa que eu aprecio. Gosto de pensar sobre as coisas e o programa obriga-me a estar atenta e a analisar o que se está a passar. Dá-me, de facto, gozo. Agora, não me levo a sério no sentido de achar que digo coisas extraordinárias ou que as minhas opiniões são muito importantes e cheias de valor acrescentado. Tento que sejam lúcidas.

A Joana Amaral Dias é igualmente afirmativa e convicta. Como é a vossa relação?

_É muito divertida. Quando estamos fora do ar temos uma relação muito simpática os quatro. Raro é o programa em que o Carlos Daniel não tem de dizer: «Já estamos no ar, parem de rir ou de contar histórias.»

A Joana Amaral Dias e o Paulo Rangel têm uma identificação política. Naquele painel, em que lugar se coloca?

_Sim, há ali uma diferença entre a Joana e o Paulo e eu própria. De facto, ambos estão ou estiveram ligados a um partido. Eu não tenho uma vinculação partidária. Por mera incapacidade. É-me tecnicamente impossível fazer parte de uma comunidade político-partidária. Estou ali a representar-me a mim mesma.

E para além do comentário político?

_Neste momento, estou em pousio. Depois de vinte e tal anos de grande intensidade profissional, tem sido muito regenerador. Estou a aproveitar para cultivar uma série de coisas, como por exemplo ler ou ter tempo para a minha família, em particular para os meus sobrinhos gémeos. Estou a olhar pelo meu jardim, por exemplo, que era uma coisa que já não fazia desde a aldeia. Eu vivo no Porto. Recuperámos uma casa antiga – eu, a minha irmã e o meu cunhado; dividimos a casa em dois apartamentos e temos um grande jardim. É como se nunca tivéssemos saído da aldeia. Estou a aproveitar para descansar e refletir.

Nasceu em Moçambique mas chegou a Portugal com um ano e meio. Foi viver para a casa de família, numa aldeia minhota. Que recordações tem da infância?

_Nasci na Beira, em abril de 1964. Em Portugal fomos viver para casa dos meus avós maternos, uma família muito matriarcal. Foi uma infância feliz, recordo uma liberdade absoluta. Vivi lá até aos 7 anos.

O que queria ser em criança?

_Os miúdos querem ser astronautas ou bombeiros ou algo assim parecido. Adorava poder dizer que queria ser uma coisa gira, mas, de facto, sempre tive uma atitude um pouco expectante. Até hoje isso acompanha-me. Acho quase tudo interessante.

De que brincadeiras gostava?

_A minha experiência rural girou mais em torno dos espaços livres. Correr no terreiro, andar de bicicleta, caçar girinos no tanque da quinta. Não tive muita paciência para coisas de menina. Nem para jogar cartas, odeio jogar cartas. Gosto de teatro, lá em casa gostávamos muito de teatro e fazíamos muitos teatros.

Uma infância marcada pela morte do pai?

_Mais pelo facto de a minha mãe ter ficado sozinha connosco. Foi uma coisa muito presente. Lembro-me de ela me dizer «vocês têm uma dupla responsabilidade, e eu também». Cresci sempre com uma enorme responsabilidade, por não ter pai e por ser a filha mais velha. Isso é claro em mim. Acabei por desenvolver um sentido protetor muito grande, autorresponsabilização em quase tudo.

Esse peso provocava-lhe um sentimento de revolta?

_Às vezes sim, objetivamente sentia o peso, mas nunca tive a tentação de culpar nada nem ninguém, nem sequer Deus.

De que forma esse sentido de responsabilidade se manifestava no dia a dia?

_A minha mãe lembra-se de mim como uma espécie de partner, com quem ela falava sobre coisas muito sérias, as coisas da quinta ou as dificuldades económicas. Senti essa responsabilidade em relação à minha irmã, embora a minha mãe fosse realmente muito forte. A minha irmã é uma pessoa mais solta, mais divertida. Tínhamos de ser as melhores e eu lembro-me de levar isso muito a sério. Não era para me vangloriar mas porque achava que era uma obrigação. Esforçava-me imenso. A minha mãe foi professora primária, e a certa altura levou-nos para Braga por achar que era um sítio interessante para nos educar, porque havia boas escolas.

Em Braga perderam-se definitivamente os dias felizes da primeira infância?

_Sim. O sentido de responsabilidade aparece quando vou para Braga, quando já tenho 7 anos.

Como é que lhe falaram do seu pai?

_A minha mãe fez um luto muito permanente, ainda o faz até hoje. Tem um sentimento de grande injustiça e de grande solidão pela morte do meu pai. Não havia fotografias do meu pai em casa, por exemplo.

E em casa da filha, há?

_Do meu pai, algumas. Gosto muito daquelas em que ele está comigo. Dele filtrámos sempre as virtudes. O meu avô era militar, os filhos tiveram uma educação muito austera. Mas ele, tanto quanto percebo, sempre foi o não alinhado da família. Era um homem culto, poliglota, que pintava e viajava. Foi sempre aquilo que drenei porque era o que me interessava.

Voltou a África?

_Estive em Maputo. Lá, senti-me como todos os portugueses, em casa.

Enquanto católica praticante, como lida com a perda?

_Mais do que cristã sou católica apostólica romana e sendo assim acredito numa vida para além desta, o que faz da perda terrena sempre uma perda temporária.

E com a doença?

_Com a doença, muito mal. Não sei se tem que ver com a perda do meu pai, mas sou quase hipocondríaca. Presumo que tenha sido, de facto, por a minha mãe me ter sempre falado do cancro do meu pai. Acho que isso nos marca muito.

Que peso tiveram a religião e a Igreja na vida da adolescente?

_Quanto baste. Rezar tem muito significado. Ir à missa aos domingos é uma coisa importante, tal como o sentido da prática comunitária. Mas não pertenci a grupos. Fiz uma experiência com as Equipas de Nossa Senhora, mas já bastante tarde e durante poucos anos. E fiz uma experiência curta de catequese. A questão religiosa interessa-me pela consciência do transcendente que sempre me acompanhou. No entanto, tenho práticas na minha vida que são assintomáticas em relação ao que a Igreja Católica prescreve, como por exemplo ter casado com um homem que já tinha sido casado pela Igreja e não ter casado pela Igreja. Foi doloroso mas consciente.

O lado paterno era ateu. Como é que foi fazendo a síntese?

_Um lado profundamente conservador e o outro republicano, laico. Enquanto que de um lado era inconcebível que não se abrisse a porta ao padre na Páscoa, do outro lado fechava-se a porta na cara do padre. Eu fui marcada pelo lado materno. No entanto, sou uma pessoa livre. Todas as opções que faço são conscientes.

Em Braga foi para o Conservatório Regional da Gulbenkian, onde estudava piano. Acreditou que podia ser pianista?

_Tive sempre perfeita noção de que era uma executante mediana, para não dizer pior. Fiz o curso geral muito por teimosia, porque é verdade, odeio começar coisas e não acabar. Demorei quatro anos a fazer o sexto de piano. E as outras cadeiras fiz com o prazer da descoberta. Sempre soube que não ia compor coisa alguma e que a história da música seria muito importante na minha formação, mas não para qualquer tipo de trabalho.

Importante pelas horas de treino a que obriga?

_Essa necessidade já nasceu comigo. Se decidir fazer uma coisa, faço-a.

Tinha compositores favoritos?

_Bach e Beethoven.

Com 15, 16 anos, fazia ideia do caminho profissional que queria seguir?

_Não. Cheguei a inscrever-me em ciências. Tive umas semanas com a ideia de que queria seguir Engenharia porque me tinham falado, genericamente, que Engenharia Química seria uma coisa interessante, mas depois não gostei da escola. Saí e fui para letras. Depois, em letras, senti-me condicionada e escolhi aquilo que em Braga existia de mais inovador – Relações Internacionais, que era um curso que tinha começado há pouco tempo.

Como pensava conciliar o lado assertivo e afirmativo com a diplomacia?

_Na altura, achava que a atividade diplomática podia ser interessante, do ponto de vista da representação do país, e também pela experiência internacional. Quando percebi, e foi logo, que Portugal não tinha grande poder de concretização diplomática, virei-me para a política económica. E, dentro da política económica, vi que a área financeira era uma novidade e uma oportunidade em Portugal.

É capaz de se moldar rapidamente à realidade?

_Sempre tive esses sinais. Era capaz de aprender línguas com muita facilidade, e dava por mim a escrever com a mesma letra da rapariga que se sentava ao meu lado.

O sentido de responsabilidade não é muito comum nos adolescentes. Tinha muitos amigos?

_Não me relacionava bem com os outros miúdos. Primeiro, porque era muito alta e a diferença física é muito complicada de gerir. Chamavam-me girafa e eu tomava isso a peito. Depois, na faculdade, era a única rapariga da turma que morava em Braga. Todos os outros estavam em apartamentos. Eu tinha regras em casa. Aquela coisa de sair com eles mas ter hora para regressar não me agradava. Preferia não sair. Isso afastava-me dos outros. O facto de ter sido boa aluna também não ajudou. Pura e simplesmente, tinha uma relação muito superficial com toda a gente. Uma coisa era ir estudar para Braga; outra era viver em Braga. Nos anos 1980, e fora da comunidade académica, Braga ainda era uma espécie de Leiria do Crime do Padre Amaro.

Como era o seu dia a dia?

_Braga era muito fechada, as pessoas eram muito ritualizadas, com um grau grande de preconceito, eram muito conservadoras. A minha mãe teve obviamente uma formação conservadora, mas foi, sobretudo, uma pessoa prudente, por causa da responsabilidade. E eu tenho um enorme problema com a minha responsabilidade. Um problema de rigor, de consciência.

Era uma conformada?

_Sim, mas sempre à espera de uma oportunidade.

Teve a melhor média do curso, prémio que não recebeu porque estava já a estagiar em Paris. De Braga para Paris – que recorda dessa oportunidade?

_Melhor média que não foi grande coisa, um 16. Quanto a Paris, tirei total partido de todas as oportunidades que me apareceram. Viajei, fiz imensos amigos, tirei partido profissional e adaptei-me muito facilmente.

Oito meses depois regressou. Foi um regresso desejado?

_Na altura, foi pacífico. Não me apetecia sair de Portugal. Já então tinha uma vontade enorme de ir para o Porto. Regressei a pensar que, de uma maneira ou de outra, conseguiria ir para o Porto. Até porque, entretanto, tinha feito uma pequena inflexão e, dentro das Relações Internacionais, virei-me mais para a área económica e depois para a financeira. O estágio que fiz em Paris foi, de facto, na área financeira, em que pela primeira vez vi funcionar os mercados.

Encontrara finalmente a vocação?

_A área financeira não é uma paixão mas gosto de a perceber, porque isso traz muita racionalidade ao meu pensamento e ao meu discurso. Mas não é uma paixão, não.

Como diretora de marketing da Bolsa de Valores do Porto tinha que funções diárias?

_Era responsável pela promoção nacional e internacional do mercado português e das suas empresas cotadas.

Aos 23 anos vivia finalmente numa cidade que lhe enchia as medidas?

_Sempre tive uma paixão pelo Porto. A água, o mar e o rio. O Porto tem, para mim, o melhor das duas coisas. É uma cidade criativa e divertida e tem, também, um lado mais recolhido, mais em família, no qual as pessoas vão a casa umas das outras. Tem um lado aéreo e um outro de recolhimento.

Como era a sua vida nos anos 1980, no Porto?

_Era muito divertida. Saíamos, íamos a discotecas e andávamos de barco. Tive um namorado que fazia vela. Tive alguns namorados, mas nada de muito duradouro. Não havia um minuto de paragem, tinha-se uma energia brutal. Hoje em dia fazer uma noitada por semana parece uma dificuldade. Na altura estava sempre cheia de energia. Ou seja, o que eu não fiz na faculdade acabei por fazer no Porto nesses primeiros anos. Nunca tive a presunção de me achar uma mulher bonita ou excecionalmente elegante ou sedutora. Mas tinha sucesso, profissional e pessoal. O que numa mulher é, muitas vezes, intimidante. Aquilo que eu quis que acontecesse aconteceu sempre. Nunca fiz do casamento e dos filhos uma inevitabilidade. Basta dizer que casei com 45 anos.

É bairrista?

_Não.

Teve vários cargos e responsabilidades na Comissão de Coordenação da Região Norte. Que modelo de desenvolvimento defende para o Norte?

_O meu modelo de desenvolvimento é uma coisa muito simples, que valoriza aquilo que de bem fazemos. No Norte temos várias áreas produtivas que são responsáveis por quarenta e tal por cento das exportações do país. Portanto, os nossos setores tradicionais são para proteger – viticultura, calçado, têxteis, madeira e mobiliário, para não falar de outras coisas, mas estes quatro essencialmente. E, depois, há um conjunto grande de áreas que estão a despontar, como por exemplo toda a área das ciências da saúde, e que tem que ver com o empenho e a qualidade das nossas universidades. Portanto, é preciso aproveitar ao máximo os nossos recursos humanos. Isto não se faz por ideias mirabolantes ou, muito menos, por centralização de competências, mas por regras mais fáceis, por pessoas que conheçam bem o território e por uma governação mais técnica do que política.

Referiu há pouco a impossibilidade de se filiar num partido. Já foi desafiada ou convidada a fazê-lo?

_Não, nunca fui. Mas acho que nunca fui convidada porque é sabido que não o aceitaria porque no final do dia é preciso que o partido ganhe. Não sou capaz de fazer isso se o que estiver em causa for o interesse nacional. Sei, portanto, que prestaria um mau serviço.

Vota ou abstém-se?

_Voto, sempre. E já votei em branco, mas voto por respeito a quem lutou pelo 25 de Abril e isso, para mim, é sagrado.

Como olha do Porto para a crise?

_A crise europeia vejo-a tremendamente mal. Não me admiraria que daqui surgisse uma guerra, na forma tradicional do termo. Tenho uma enorme falta de respeito pelos líderes europeus e, em particular, pelos dois que estão a liderar a história pelo menos há dois anos. Está tudo mal resolvido, o sonho europeu está a desfazer-se a grande velocidade. De tudo aquilo que pode ser feito de forma independente, o que é pouco, fora deste guarda-chuva europeu que considero ser tão incapaz de nos proteger, acho que precisamos de uma vida muito pragmática, de um enfoque e disciplina muito grandes, mas sempre a dois níveis. De um lado, as contas que temos de consolidar e, do outro, o desenvolvimento económico.

Católica, como viu as criticas de Bento XVI ao lucro e aos mercados, na encíclica Caritas in Veritate?

_Deve ser levado à letra. A especulação financeira e a perseguição obsessiva do lucro são um dos maiores pecados do mundo de hoje.

Que preocupações tem?

_Até agora, manifestamente, a minha intervenção pessoal não foi, durante muito tempo, possível devido à entrega total à minha vida profissional, muito exigente. Fiz voluntariado no IPO, mas depois tive de interromper. Estou a recolocar essa questão. Atualmente faço-o de uma forma indireta, ajudando financeiramente algumas pessoas que precisam. Os tempos estão difíceis, neste momento, estou muito virada para a minha própria família.

Há mais pobreza nas ruas da cidade?

_No Porto não posso dizer que tenha sentido isso, pelo contrário. O Porto parece já ter vivido uma austeridade muito grande, até pela governação autárquica que senti nos últimos anos. Há pouco tempo estive em Barcelona. Lá percebe-se a enorme taxa de desemprego e a economia paralela. É brutal. Não acho que no Porto tenha existido uma mudança. Tenho uma amiga que faz distribuição de alimentos, que me diz que já é uma pequena classe média que aparece a solicitar essa ajuda. Mas isso não se vê durante o dia, na cidade. Não há sinais de deterioração física. Do ponto de vista físico, diria que a cidade está mais cuidada do que Lisboa.

Rui Rio tem sido um bom presidente de câmara?

_Acho que não teve uma visão estratégica de desenvolvimento para o Porto. Mas há que valorizar algumas ideias. A intervenção nas questões sociais e na habitação social e o controlo das contas da câmara, por exemplo. Não são maus objetivos em si e levá-los a cabo é muito difícil. Mas não passou muito disso. A centralidade e a capitalidade do Porto desvalorizou-se, quer a nível nacional quer regional.

Como independente, seria capaz de assumir um cargo político autárquico?

_Acho que se alguma vez tivesse de desempenhar um cargo político desse género, para ser verdadeiramente próxima da população, teria de ser presidente da junta. Mas nunca me ocorreu, nunca fui convidada para tal coisa.

Não tem ambições políticas?

_Não. Nunca tive nenhuma ambição desse género. Fui convidada a assumir um ministério e não aceitei por achar que não estava tecnicamente preparada para o efeito.

Por quem e para qual ministério?

_Para um ministério.

É uma resposta rara.

_Mas foi exatamente isso.

Concorda com o fim do Ministério da Cultura?

_Do ponto de vista simbólico, tem peso; fica mais a nu um certo desinvestimento na cultura, como instrumento de desenvolvimento de um país. De um ponto de vista prático, pode não significar nada porque eu não acredito que o atual secretário de Estado tenha menos poder ou menos capacidade de operacionalização do que os anteriores governantes que ocuparam a tutela enquanto ministério.

O que gostaria de estar a fazer a curto ou médio prazo?

_É muito difícil responder porque pode ser muita coisa, mas uma das ideias que tenho é a de montar um pequeno negócio. Acho que gostava de ter um pequeno café-livraria ou livraria-café, até por ser uma forma de estar em contacto com as pessoas da cidade e uma pequena fonte de rendimento autónoma, que me deixasse depois livre para fazer outras coisas em que o vencimento não seria problema.

Tem amores de perdição?

_O meu núcleo familiar é o meu amor de perdição.

O FC Porto é um amor de perdição?

_Ora aí está um que já nasceu comigo.

O jogador de quem mais gosta/gostou?

_Deco, de quem o El País dizia que «…tinha miolos nos pés…».

Vítor Pereira é treinador para o clube?

_Os resultados que tem conseguido são muito preocupantes.

Este vai ser o ano do Benfica?

_Pode ser. O que não é nenhuma tragédia.

Quem gostava de ver suceder a Pinto da Costa?

_Tenho de perguntar ao meu amigo Rui Moreira.

Voltando à Capital da Cultura, deixou por lá ódios de estimação?

_De todo.

Qual é a qualidade que mais aprecia?

_A inteligência. Chego a dizer que, em Portugal, a maior parte das coisas malfeitas não são feitas por maldade nem por vigarice requintada, mas por negligência. E isso irrita-me imenso e eu gosto de qualidade em tudo, até na maldade.

É capaz de se zangar para o resto da vida?

_Tenho muito medo. Isso não me aconteceu, mas tenho muito medo, porque acho que um dia que me zangue com alguém a pessoa pura e simplesmente desaparece para mim, morre, e eu sei que sou capaz de fazer isso. Os extremos em mim são muito acentuados, mas a verdade é que nunca me aconteceu.

PERGUNTAS DE ALGIBEIRA

O livro da sua vida?

_Definitivamente, o Novo Testamento, porque é o que eu leio há mais tempo, sobre o qual medito há mais tempo. Travessuras da Menina Má, do Mario Vargas Llosa. Também me tocou. É de uma humanidade, de uma lucidez em relação à condição humana, que me tocou.

Uma cena de um filme?

_Cenas não tenho, mas tenho filmes. Reds [vi-o era miúda e marcou-me imenso]: a energia, a vontade de ser diferente, a capacidade de se impor, fascinou-me. Ultimamente, lembro-me de dois filmes que têm muito que ver com a condição europeia. Por um lado, o Barry Lindon, e o Ensaio de Orquestra, de Fellini, o retrato mais contemporâneo, do ponto de vista cinematográfico, da autoridade e dos seus efeitos no mundo e, em particular, na nossa Europa.

A última vez que chorou?

_Chorei a rir a ver a Vida de Brian, dos Monty Python.

O que ainda consegue ver na TV?

_Downton Abbey, uma série maravilhosa, o Daily Show e o Manhattan Connection.

Um lema na vida?

_Ter fé.

Uma música para namorar?

_Encosta-te a Mim, do Jorge Palma

Contra a crise…

_Coragem.

Quantos minutos gasta por dia a ler o jornal?

_Alguns.

E a ver o e-mail?

_Menos.

Um lugar para passar a reforma?

_Porto, sempre.

Nos bastidores de uma entrevista

Concedeu a entrevista em Lisboa, num terraço do centro histórico, voltado para o Castelo e o rio. Mas nem assim abdicou de se fazer fotografar no Porto. E quis que uma das fotografias transparecesse a cidade. Fosse a Foz, as ruas da Baixa ou o Café Majestic, traço da Belle Époque e cenário evocativo de escritores, artistas, tertúlias políticas. Fosse a Livraria Lello, o edificio emblemático da Rua das Carmelitas, construído por Francisco Xavier Esteves e inaugurado em1906. Disse que «não podia ser de outro modo». Acabou por escolher a Lello, essa «espetacular evocação do neogótico, segundo as páginas da revista Time. Cristina Azevedo gosta de tudo na centenária livraria: da fachada em arte nova, dos arcos quebrados, dos bustos de grandes figuras, como Eça, Antero de Quental, Guerra Junqueiro ou Camilo, cuja obra releu recentemente. A escadaria de acesso ao piso superior foi uma das primeiras construções de cimento-armado da cidade, e no vitral lê-se a divisa da casa, um lema à medida de Cristina Azevedo: «Decus in Labore». Dedicação no trabalho.

26 de fevereiro de  2012

Por Alexandra Tavares Teles e fotografia de Pedro Granadeiro/GI publicado in http://www.jn.pt/revistas

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