Do Porto

Áurea Joaquina da Conceição Gomes (1941)

12 Agosto 2017 Comentar

ÁUREA Joaquina da Conceição Gomes nasceu em 1941, na Póvoa de Varzim, mas vive desde que se conhece na freguesia de Amorim. Aos 19 anos casou com Álvaro Fernando Gomes e teve nove filhos, quatro raparigas e cinco rapazes. Dois faleceram ainda bebés. Descendente da miséria, ainda menina foi trabalhar à jorna e servir para casa de lavradores. Por vontade da mãe, ainda experimentou a costura, mas reconheceu rapidamente que preferia ser escrava em liberdade.

“Eu era filha de namoro. Conheci o meu pai porque a minha mãe me disse quem era, mas nunca convivi com ele. O meu padrasto era muito meu amigo. Como a vida se apegava à miséria, antes de entrar na escola já trabalhava à jorna. Gostava muito de segar erva para os animais e de ajudar a fazer a pranta. Quando saí da escola com a quarta classe feita, a minha mãe levou-me a uma mestra para aprender costura, mas sentia-me aprisionada. No campo trabalhava-se até não se ver, mas respirava-se melhor. Por isso fui servir para casa de lavradores”, recorda Áurea da Conceição.

Trabalhar ao jornal ou a servir, as diferenças eram consideráveis: “Ao jornal só quando o tempo ajudava, se chovesse ficávamos em casa a carpir a fome. Quando andava a servir, para além de viver com os meus trapos na casa do lavrador, o trabalho tinha sempre que ser feito. Chovesse ou fizesse sol, os animais tinham que comer. Fui muitas vezes, com um saco de linhagem a fazer de capucho na cabeça, segar erva. Depois, à noite, ainda tinha que dar de comer ao gado e tirar o leite”.

Até casar, Áurea da Conceição viveu sempre nas casas onde trabalhou: “Comia e dormia e era menos uma despesa para a minha mãe. Um ano e meio antes de casar fui servir para a mercearia do tio Joaquim Maçães. A patroa ensinou-me a cozer pão e eu fazia três fornadas por semana para vender na mercearia. Misturava 40 quilos de farinha com cinco quilos de centeio e juntava-lhe o fermento, feito no dia anterior, para dar levedura ao pão. Também cheguei a fazer bolos que levavam nacos de carne ou sardinhas. Cada um comprava aquilo que podia, uma broa, meia ou um quarto de broa”.

Depois de casar não trabalhou muito mais tempo na mercearia: “Eu lavava a roupa da casa na água de um ribeiro que nascia nos terrenos do Panelas. Sempre que era preciso, fazia o comer para os patrões e clientes. Fritei muito peixe fresco, que a patroa comprava na praia da Póvoa, e servi muitas canecas de vinho de pipa. Depois de casada acanhava-me um pouco servir aqueles homens. Chegava sempre depois das dez da noite a casa e ainda tinha que fazer o comer para o marido. Como ele reclamava sempre, deixei a mercearia e voltei a trabalhar ao jornal”.

Com o casamento, os filhos vieram seguidos e Áurea da Conceição passou a ficar mais vezes por casa: “Sempre que podia, ia ao jornal amealhar para o pão, mas dos 20 aos 27 anos tive sete filhos, um rancho que me roubava o tempo todo. Passei uma vida muito amarga para os criar. Deus levou dois, mas os outros estão aí todos, cada um a fazer pela vida. Não devo dinheiro a ninguém, mas devo muitos favores. Fiaram-me muito dinheirinho para criar os meus filhos”.

Leia a notícia na íntegra na edição impressa da A VOZ DA PÓVOA

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