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António

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LEMBRAS-TE DO ANTÓNIO filho da padeira? Era um rapazito quando embarcou para o Brasil procurando melhor forma de vida. Aqui, neste imenso vale onde condicionas vidas, nessa altura, era quase impossível sobreviver com alguma dignidade. Tempos difíceis onde a miséria campeava de norte a sul do país e não poupava ninguém. Foram muitos, continuam a ser milhares os que abandonam tudo e partem na busca de melhor vida. Famílias inteiras deixam as terras e as casas entregues às silvas e aos matos e fogem de uma nação onde a riqueza produzida por todos só é distribuída por alguns. Falta-nos aqui muita gente, pessoas que seriam capazes de contribuir com a mesma força que usam lá longe  para o progresso desta terra, entram num êxodo que A empobrece ainda mais e cria desgostos incomensuráveis. O que nos falhou foi termos desprezado o que é nosso, foi a ilusão de que também poderíamos ser todos ricos e, o que nos continua a falta para concretizar o sonho, é de quem sirva em vez de se servir, é de quem use o poder única e exclusivamente para o bem de todos, em vez de concentrar os benefícios nos numerosos exércitos dos partidos.

Ao contrário de alguns a quem a sorte não favoreceu, o António teve sucesso na terra que escolheu para viver. Agarrou-se ao trabalho, amealhou aos poucos o que dizem ser hoje uma grande fortuna. Voltou à terra que o viu nascer mas decerto, já pouco ou nada encontrou do mundo que ali deixou.

Lembro-me do dia da sua chegada, da festa que lhe fizeram os amigos e companheiros da meninice e também do seu olhar atónito que procurava distinguir em cada rosto transformado, a figura que lhe tinha sido mais querida. Já nada poderia fazer voltar o esplendor de antigamente e era a constatação dessa brutal realidade que lhe fazia humedecer os olhos.

Quando o táxi desfez a prolongada curva no alto de Sobrido e esbarrou de frente com o lugar de Branzelo plasmado em todo o espaço da pequena encosta, já ele te distinguia como o rio da sua infância e um pedaço da aldeia natal recolhida lá ao fundo nas profundezas do vale onde tu habitas. Passara há minutos pela camioneta da carreira amarela com uma risca azul longitudinal conduzida pelo Zé Martinho e tendo como cobrador o Juvenal que subia penosamente a íngreme rampa do Arrebentão, carregada de gente que ia deixando nos apeadeiros ao longo da estrada marginal até Sebolido a mesma onde muitas vezes fez a demorada viagem entre Melres e a cidade do Porto.

O coração começou a bater-lhe desordenadamente e um soluço que tentou disfarçar a custo, apertou-lhe por instantes o coração e a garganta. Tantos anos ausente da terra mãe e já sentia o perfume dos sítios, o vivo apelo do chão que o reconheceu logo a entranhar-se-lhe na alma tão profundamente que julgou ir morrer ali de tanta emoção.

Vinha de longe, do Brasil nos confins das Américas, atravessou os mares a bordo de um velho cargueiro cedendo às saudades que já não conseguia suportar mais, lá na terra que o acolheu e lhe deu tudo para ser quase feliz. Muitos anos viveu na certeza de que nunca mais iria pisar o chão do país que não foi capaz de assegurar sustento a ele, aos irmãos, ao pai e à mãe, sem se aperceber que a vida cria ela própria a impossibilidade do acto que gera o esquecimento e nos deixa indefesos e incapazes de reagir quando as emoções nos assaltam e nos fazem sofrer muito.

Saudades tinha e muitas nos princípios da sua estadia lá fora mas só da família que aqui deixou a sobreviver com dificuldades, dizia ele, e de um punhado de amigos e companheiros da curta e pobre meninice. Quase ninguém faz ideia do sofrimento de um emigrante que deixa tudo e parte rumo à incerteza e ao desconhecido só em busca do pão. As coisas mais banais da comunidade órfã, tomam um sentido de tal valor que lhes parecem materializar-se a cada momento à frente dos olhos como fantasmas errantes a avivar memórias e a pedir-lhes constantemente que regressem. Coisas simples, pequeninas e até então ignoradas, desvalorizadas pela frequência com que eram usadas ou vividas, reaparecem todos os dias nos apelos desesperados das medonhas saudades. Se o coração falasse, se a sua voz interior que dói se ouvisse, todos se aperceberiam da imensa tragédia que o ia minando dia após dia implacavelmente e sem lhe dar tréguas.

Era à noitinha quando terminava as tarefas da vida nas diversas padarias que foi criando no Rio de Janeiro e regressava a casa a ver o silêncio instalar-se na grande cidade, que sentia mais viva a dor da ausência e lhe vinha à lembrança a imagem daquela sacrificada santa que o havia dado à luz e que o aconchegara nas noites de frio quando o vento impiedoso gemia pelas frinchas da cobertura de lousa da pobre habitação em que viveu, e lhe dava carinhos e um pouco de consolo. Imaginava-a solitária a passar de madrugada em Vale-dos-Travessos, a seguir pelos caminhos do monte de canastra à cabeça onde o pão de cada dia seguia aconchegado na quentura do linho e, no meio dessa visão sofrida, murmurava baixinho a palavra mãe. O pão que ele não foi capaz de assegurar com fartura em casa, continuava a seguir o destino da venda da Ti Albertina em Rio Mau, tão dolorosamente como no passado. Pão amargo, difícil de conseguir, pão que muitas vezes amassou a percorrer esses mesmos caminhos da noite, descalço a tiritar de frio e de fome a chegar massa de cimento nas obras apesar da fragilidade do seu corpito de infantil. Abandonou a escola com dez anos para poder contribuir com trabalho na tremenda luta da família pela sobrevivência.

Um dia já feito um homem e farto de tamanha miséria, decidiu embarcar para o Brasil e tentar por lá a sua sorte. Levava atrás de si a freguesia inteira a rezar por ele a pedir para que Deus o protegesse numa forma solidária tão natural que chega a parecer impossível ter acontecido. O povo é generoso e fraterno quando quer e as gentes destas bandas são-no ainda mais pela natureza dos sacrifícios que passaram nessa época.

— Voltou o António! Chegou do Brasil! Vem rico, tão rico que nem o Senhor Luizinho Aranha lhe chega aos calcanhares!

Foi imediato, a notícia espalhou-se pela aldeia ainda antes dele ter chegado.

Era verdade que tinha voltado, que havia cumprido a sua sina dando assim ouvidos ao coração esmagado por súbitas saudades lá longe na terra do sucesso. Rico sim, com muito mais teres e haveres que outrora porque comeu as papas que o diabo amassou e foi lutando com tal vigor, com tal valentia pela vida fora, que até o destino que muitas vezes é cego, se rendeu à tenaz determinação deste homem. Rico, pronto a ajudar os outros a estender a mão amiga àqueles a quem a vida ignora os sonhos e lhes vai pregando partidas.

Caía a noite quando finalmente chegou a Melres. O táxi deixou-o à porta da antiga casa aquela onde viu pela primeira vez a luz do dia, quando serenavam já as lides nas hortas da Ribeira e tu em perfeita mansidão parecias adormecido e só as ninfas brincavam na areia da praia.

Sentou-se na soleira da porta da cozinha da velha casa hesitando em entrar. Ele sabia que dentro daquelas quatro paredes de xisto que tinham sido a muralha do seu presépio, já não havia ninguém. O tempo tinha levado tudo e todos e, só estas pedras onde o musgo se agarra verde e vivo, sobreviveram até hoje. Passou o lenço nos olhos humedecidos e só um sussurro saiu da sua boca:

— Eu dava tudo para nunca ter saído daqui!

Por Manuel Araújo da Cunha publicado originalmente in Palavras – Conversas com um rio, edição Edium Editores, março 2011.

SOBRE O AUTOR:
Manuel Araújo da Cunha  (Rio Mau, 1947) é autor de romances, crónicas, contos e poesia. Publicou: Contos do Douro; Douro Inteiro;  Douro Lindo; A Ninfa do Douro; Palavras –  Conversas com um Rio; Fado Falado –  Crónicas do Facebook e Amanhecer (Poesia). Colabora com o Correio do Porto desde junho de 2016

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