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Alberto Gomes...

Alberto Gomes da Silva, 74 anos

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A  PASTA ‘Couto’ ainda anda “na boca de muita gente”

À beira dos 80 anos, pasta dentífrica já não aposta em anúncios televisivos repletos de malabarismos. Mas continua em alta.

As imagens são a preto e branco. Um homem rodopia e faz malabarismos com uma cadeira segura pelos dentes. Depois, entra a voz off: “Dentes fortes, gengivas sãs, boca saudável: só com pasta medicinal Couto”. Mais palavras para quê? Foi com este anúncio televisivo que, desde há quatro ou cinco décadas, uma pasta dentífrica entrou na memória colectiva dos portugueses. Hoje, fiel à tradição, ainda anda “na boca de muita gente”.

Foi em 1932 que Alberto Ferreira Couto criou, com a ajuda de um amigo dentista, uma “pasta medicinal” para tratar dos problemas de dentes e gengivas. A pasta Couto depressa se tornou no mais conhecido produto da empresa homónima (criada em 1918). E os originais anúncios do passado, que diziam que andava “na boca de todo a gente”, deram-lhe fama nacional.

Hoje, a empresa mora em Vila Nova de Gaia (para onde se mudou em 2004, deixando as envelhecidas instalações do Porto). A família Couto continuou ao leme, agora pela mão do administrador Alberto Gomes da Silva, sobrinho do fundador (a quem sucedeu, após a sua morte, em 1974). E tudo permaneceu quase igual ao longo dos anos. “Eu já era quase o gerente da empresa. Na altura da morte do fundador o pessoal nem sentiu a diferença. Continuámos na sequência do que se fazia…”, conta o responsável, de 74 anos.

Na casa da Couto, a receita é antiga e tudo é tradição: a pasta ainda é produzida de forma semiartesanal, sem recurso a ingredientes de origem animal; e as embalagens amarelas mantêm o ar “retro” e as recomendações de outra era: “o dentífrico que evita afecções da boca”. Só mudou mesmo a designação, de “pasta medicinal” para “pasta dentífrica” (em 2001, devido a directrizes comunitárias que limitavam o uso da palavra medicinal). “Isso prejudicou-nos bastante, porque tivemos de parar para mudar as embalagens. O mercado ficou sem pasta durante quatro meses e muita gente perguntava porque não havia. Mas conseguimos recuperar”, recorda Alberto Gomes da Silva.

Agora, à beira de completar 80 anos (em 2012), a pasta Couto continua sem sentir os problemas da velhice. Parco em palavras, o administrador da empresa nem vê vantagens na onda nostálgica e revivalista que levou ao renascimento de muitas marcas históricas. Mas tem noção do potencial do seu produto: “Temos um mercado consagrado de clientes que continuam fiéis à marca, gente dos 15 anos aos 90 anos, que sempre gostou da Couto, sentiu curiosidade por ela ou voltou a usá-la”.

É por isso que, mesmo sem estar à venda em grandes superfícies, a Couto continua em alta. Da sua fábrica – onde se fazem vaselina, água oxigenada, desodorizantes ou produtos históricos com o Restaurador (capilar) Olex – saem “600 ou 700 mil bisnagas” de pasta de dentes por ano. E algumas até vão para o estrangeiro. A empresa tem representantes para a Europa e América do Norte e, embora as exportações “não cheguem aos 10%”, às vezes há surpresas… “Ainda há tempos uma senhora que foi a Las Vegas (EUA) me mandou uma fotografia a mostrar que encontrou lá a nossa pasta”, revela Alberto Gomes da Silva.

De resto, são o boca-a-boca e a memória que vão fazendo a promoção de uma marca que já não se mostra na TV como antigamente. “São outros tempos. A televisão é um assunto caro” afirma o administrador, mais preocupado em “manter o presente” do que em apostar no crescimento futuro. Afinal, “em Portugal podem-se contar pelos dedos as empresas com esta idade”.

E Alberto Gomes da Silva – que sempre trabalhou na Couto, “desde os 17 anos” – só quer honrar a tradição… e manter a empresa tão forte e saudável como o homem do anúncio.

Por Rui Marques Simões publicado in http://www.dn.pt/

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