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A Giesta de Miguel Araújo

A Giesta de Miguel Araújo

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CHEGOU à redação da NiT com uma guitarra mais pequena do que é habitual. Explicou-nos que é uma oitavada ou “uma guitarra anã, chamemos-lhe assim”, que tem o som “que faz lembrar uma harpa”. Foi desviada da coleção de instrumentos de António Zambujo porque, na verdade, Miguel Araújo se esqueceu de uma que tem igual (e que compraram juntos) no Porto.

Os dois, já se sabe, são grandes amigos, e esgotaram recentemente dezenas de datas nos coliseus de Lisboa e Porto. Conheceram-se num bar da Lapa que serve feijoada às quatro da manhã, quando ainda nenhum dos dois tinha êxitos a tocar nas rádios. Passam férias juntos, fazem jantaradas e viram a Eurovisão em casa de Zambujo como se fossem uma “espécie de claque” de Salvador Sobral. Aliás, “Amar Pelos Dois”, é um dos temas que Miguel Araújo ouve em modo repeat quando corre na Foz, Porto, onde vive.

O novo disco, “Giesta”, chega às lojas na sexta-feira, 19 de maio, e conta inúmeras histórias da infância passada em Águas Santas, onde a avó guardava um chicote na despensa para se defender dos ladrões.

Foi essa e outras recordações que o músico partilhou com a redação da NiT. Houve também tempo para os temas “1987” e “Lurdes Valsa Lenta”; “Sofia”, um pedido de um leitor que ainda nem faz parte de nenhum álbum; e “Dona Laura”, um dos seus maiores êxitos. Leia a entrevista e veja os vídeos das canções.

Qual foi a primeira coisa que compôs?
Eram pedacinhos. Fiz várias tentativas desde os meus 15 anos até aos Azeitonas, onde era obrigado a acabá-las. A primeira que compus era assim uma coisa na guitarra [toca na guitarra um melodia], tinha 11 ou 12 anos.

E a letra?
Nada, zero. A primeira letra que saiu já foi aos 20 e tal anos.

O seu tio comprou-lhe um baixo quando era miúdo, que o levou a começar a tocar. Ainda o tem?
Tinha 11 anos mas já não o tenho. O primeiro baixo era um Samick, uma imitação, assim uma coisa baratucha. Depois troquei-o por um Yamaha, que já era menos mau, e depois por um Fender, que ainda tenho hoje, apesar de já quase não tocar baixo.

Na rua já apanhou alguém a cantarolar os seus temas?
Quando morava em Lisboa, vivia no Bairro Alto. Uma vez estava na cama e eu e a minha mulher acordámos com o barulho da farra lá em baixo, o que não era muito anormal porque estávamos no Bairro Alto, mas a farra era com uma música da minha autoria e fiquei muito contente. Fui à janela e filmei o pessoal a cantar “Anda Comigo Ver os Aviões”. Foi três anos antes de se tornar conhecida, estava assim um grupinho de bêbedos. Fiquei muito orgulhoso. Estive quase a descer de pijama para beber um copo com a malta e agradecer-lhes.

Outro êxito, “Os Maridos das Outras”, foi inspirado num amigo seu, é verdade?
Não é que seja exatamente ele, a música não refere ninguém em concreto mas foi inspirada numa conversa com um amigo, sim. Estávamos ao telefone e em vez de estar a prestar atenção ao que ele dizia, estava a decorar algumas coisas, achei que daria uma boa música. Ainda bem que ele me ligou a queixar-se da mulher.

Quando era adolescente, tinha posters no quarto com os seus ídolos?
Tive uma fase de posters, sim. Eu assinava uma revista, a “Guitar World”, que trazia no meio um poster. Era tipo a “Playboy” mas em vez de manequins era o Kurt Cobain. Nunca guardei coisa nenhuma mas por acaso essas revistas ainda as tenho. Estão num monte na arrecadação da casa dos meus pais.

Quem é que lá em casa guarda os recortes todos sobre a sua carreira?
É a minha mãe. Deus me livre se sai alguma coisa minha e a minha mãe não foi avisada. Quando isso acontece, liga para as redações a pedir os números de há duas semanas ou os vídeos.

E o que é online?
Imprime e guarda tudo.

Costuma ir lá folhear essas coisas?
Não vou mas já não me faz confusão. No início não foi muito fácil ouvir-me falar na televisão, por exemplo. Não tinha noção de que falava tão à Porto, não que isso tenha algum problema, e de que falava tão rápido. Quando fico nervoso, começo a disparar e a acelerar.

Oiço Miguel Araújo quando corro porque passo a vida a gravar melodias para o telemóvel e depois sento-me a escrever uma letra e não consigo

Este disco, “Giesta”, podemos dizer que é autobiográfico?
Todos são, de certa maneira, mas este é mais do que os outros. É um disco de memórias da infância e adolescência, mais ao menos como um livro do José Luís Peixoto, o “Cal”, ou como um do Saramago, “As Pequenas Memórias”. Eu sou de uma zona que se chama Giesta, ali na Maia, só vivi lá até aos 10 anos mas ia sempre lá nos Natais. No ano passado a casa dos meus avós foi vendida e o meu último tio que morava lá morreu e, de certa maneira, aquele cordão umbilical que nos liga ao sítio onde nascemos rompeu-se. Deu-me a ideia de fazer um disco sobre as minhas memórias antigas, casas que já não existem, pessoas que já não existem.

Qual é a primeira memória desse tempo que lhe vem à cabeça?
A minha infância foi passada numa casa onde vivia a minha avó, que era viúva, e duas irmãs dela. Ela tinha um chicote na porta da despensa, tipo Indiana Jones, para o caso de aparecer algum ladrão ela poder corrê-lo à chicotada. Eu achava que o meu contexto era super normal. Depois perguntava aos meus amigos onde é que as avós deles guardavam os chicotes e fui descobrindo que a minha infância dava um filme. Não deu um filme mas deu um disco. O chicote da minha avó está no disco.

Foi o álbum mais fácil ou difícil de compor?
Nunca é muito fácil para mim compor, não é uma coisa propriamente associada ao prazer mas, ao mesmo tempo, é a minha obsessão. É o que estou sempre a fazer, mesmo a dormir. Fiz um dos temas deste disco, “Sangemil”, a dormir. Já tinha ouvido o Paul McCartney a dizer que tinha acordado com o “Yesterday” na cabeça mas nunca me tinha acontecido. A minha música não é nenhum “Yesterday” mas isso aconteceu-me. Acordei e às quatro da manhã e fui para a cozinha cantá-la para o telemóvel e escrevê-la para não me esquecer. A diferença deste disco para os outros é que as personagens de que falo aqui não são assim tão ficcionadas, mudei os nomes por uma questão musical mas estão lá.

Os concertos do Miguel e do António Zambujo nos coliseus foram um fenómeno. Já são amigos há muitos anos mas como é que se conheceram?
Foi num bar em Lisboa, na Lapa, que ainda existe, o Berimbar, onde os fadistas depois das suas rondas profissionais vão jantar. Come-se uma feijoada às quatro da manhã. É assim uma vida boémia, onde os músicos se encontram. O primeiro fado que a Mariza cantou na vida, reza a lenda que foi lá. Quando Miguel Araújo e António Zambujo se conheceram, reza a lenda que foi lá, e foi efetivamente. Ele estava a fazer um musical do la Féria e o pessoal do “Amália” costumava aparecer para a feijoada. Eu estava lá com uns amigos por acaso, nem sabia que havia aquela tradição. Estava com uma guitarra, ele também estava, e ficámos amigos desde então. Depois eles foram para o Porto fazer a peça e nós adotámo-los. Cada um fez o seu caminho mas mantivemos sempre o contacto, que culminou com aquela loucura dos coliseus.

Vêm aí mais projetos juntos?
Não sei. Aquilo foi uma coisa que aconteceu num almoço em que a minha mulher estava a dizer que fazia falta um concerto só com voz e guitarra. O Zambujo disse que alinhava, que fazíamos os dois. Se nos apetecer fazer coliseus outra vez, fazemos. Nós vamos passar uma semana de férias juntos em julho, sempre que estamos os dois fazemos música, melodias e pedacinhos de letra. Não pensamos em termos de projeto mas andamos sempre juntos.

As vossas jantaradas de amigos incluem sempre música?
Já se sabe que há copos e umas guitarradas no final. Há sempre mil projetos que não se concretizam. Tínhamos a ideia de fazer um disco para miúdos com a Luísa Sobral e o Pedro Silva Martins (dos Deolinda). Chegámos a andar com músicas para trás e para a frente mas a única pessoa prática era a Luísa. Ela fartou-se de andar a mover aquilo para a frente e fez sozinha um disco. No Porto não há tanto essas tertúlias mas sempre que venho cá [a Lisboa] vejo onde anda a malta.

Gosta mais de comer fora ou cozinha?
Ambos, gosto muito de cozinhar.

Qual é a sua especialidade?
Eu não como carne mas a minha especialidade é fazer rosbife. Sempre que vai lá alguém a casa, são as únicas vezes em que como carne porque tenho de dar o meu melhor. No outro dia foi lá o Samuel Úria, o Manel Cruz e eu fiz o rosbife. Tive de comer, pois.

E os amigos de infância, ainda mantém o mesmo grupo? Algum está na música?
Ainda tenho o mesmo grupo mas nenhum seguiu esta área. O Fred, um amigo meu, compõe e o Zambujo incluiu um tema dele no último disco, “Por Meu Cante”, mas ele nem seguiu essa vida. Nem eu ia seguir.

Quais eram os seus planos?
Não fazia parte dos meus planos mas também não deixava de fazer, era uma coisa muito longínqua. Na minha família nunca houve nenhum artista, alquém que se dedicasse a isso profissionalmente. Nunca foi um sonho meu e era tão plausível ser músico para quem era de Águas Santas, Maia, como ser astronauta ou toureiro. Eu tirei um curso de Gestão, era isso que ia fazer, como todos os meus amigos, trabalhar na NOS, num banco, não tem mal nenhum.

É frequentador de festivais ou concertos?
É chato dizer isto mas não gosto muito de ir a concertos, acho sempre o som exageradamente alto. Não como um velho a queixar-se do ruído mas o som das colunas é uma confusão, não se percebem as letras, os instrumentos. Chegou-se a um nível de audio ao vivo em que se perdeu a cabeça e são uns decibéis insuportáveis. Sempre que vou a um concerto, penso: “É isto que ando a fazer na minha vida, que vergonha.”

Qual foi o último a que assistiu?
Eu toquei com o Zambujo na queima de Coimbra. Toquei primeiro e depois fiquei a ver o concerto dele na frente. No palco não me faz confusão ver 60 mil pessoas mas estar no meio delas e pensar que depois vou estar eu em palco, começa a dar-me um certo pânico, desconcentra-me.

E o primeiro que viu?
Foi o Gary Brooker no Casino da Póvoa, para aí em 1987. Os meus pais resolveram ir ver, eu tinha sete ou oito anos e fui também. Mas achei uma seca de morte, adormeci na mesa.

O meu primeiro concerto foi do Gary Brooker. Achei uma seca de morte, adormeci na mesa

É o Miguel que gere as páginas das redes sociais?
Geralmente as informações de concertos não sou eu que ponho, porque nunca sei as datas. Os posts são feitos por mim e leio os comentários. Na minha página nunca são muito maus porque geralmente quem me segue é porque gosta de mim e não vai para lá dizer mal. Mas já apanhei alguns incríveis.

Por exemplo?
Lembro-me de um, o melhor de todos… Antes tenho de dizer que tomo banho todos os dias mas não me penteio, realmente não penteio, o cabelo vai ganhando a sua forma que varia de dia para dia, o que pode dar a entender que a minha higiene não será a mais cuidada. Uma vez alguém pôs no Twitter o seguinte: “Numa escala de hoje até Miguel Araújo, há quanto tempo é que não tomam banho?” Sendo que hoje era uma pessoa altamente higienizada e o Miguel Araújo era um badalhoco que não vê água desde o ano passado. Uma vez um tipo do PNR disse que se me encontrasse na rua me matava, esse foi o mais violento. Carlos Rato, decorei o nome. Se me aparecer um Carlos Rato na vida, eu mudo de passeio.

Os seus filhos são pequenos mas já demonstram alguma curiosidade em relação à música?
Eles vão fazer cinco e três anos e o mais velho é obcecado por música e instrumentos desde os dois. Agora está na fase dos Beatles, canta o “Hello, Goodbye” do início ao fim, é espetacular. Pergunta coisas como quem é o mais velho dos Beatles, qual é o mais alto. Eu tenho de ir para o Google procurar.

Já lhe ofereceu alguma coisa dos Beatles?
Uma tia deu-lhe aquela fotografia dos Beatles a atravessar a rua. Ele agora reparou que o Paul McCartney toca baixo com a mão esquerda e então está a forçar-se a ser esquerdino. “Pai, já reparaste que dá muito mais jeito fazer as coisas com a mão esquerda?”, diz enquanto entorna a sopa.

Esta canção que acabou de tocar, “Sofia”, não faz parte de nenhum disco. Poderá ser incluída no próximo?
Talvez, sim.

Tem muitas em carteira?
Sim, se não tivesse entrava em pânico.

Mas a maioria dos músicos não tem.
Não tenho pronto a lançar, tipo Prince, mas já sei como dar a volta às coisas para gravar. Não digo que tenho três mas pelo menos um disco de avanço tenho sempre.

O Miguel cumpre o estereótipo dos músicos que trabalham pela noite fora?
É ao contrário. Acordo cedíssimo e desde que tenho filhos ainda mais. Acho que uma pessoa faz isso [trabalhar de madrugada] porque gosta de estar sozinha no mundo. Agora todos se deitam tarde, telefonam uns aos outros, falam no WhatsApp. A única maneira de ninguém me ligar é ser de manhã cedo, estão todos a dormir.

Há algum músico português com o qual gostasse de trabalhar e isso ainda não tenha acontecido?
Tantos. Eu, na verdade, só fiz coisas com pessoal que conheço. Não tenho aquela coisa de gostava de trabalhar com aquele, vou ligar-lhe ou a minha agência vai ligar.

Porque não se sente à vontade para isso?
Não, sei lá, acho que é uma coisa natural ser assim. Sou grande fã do Jorge Palma mas nunca o conheci, quem me dera fazer qualquer coisa com ele. Com o Camané, adorava, mas também nunca calhou. Não ando muito à procura, às vezes acontece ou o pessoal pede-me músicas. Por acaso o Camané uma vez deu-me um toque para lhe mandar qualquer coisa. Ainda não aconteceu mas pode ser que um dia aconteça.

Como reage na posição de fã, quando se cruza com músicos de que gosta?
Fico starstrucked com os mais velhos, obviamente. Não sou um colega, fico com vergonha. Já estive perto do Jorge Palma mas não me atrevi a ir chateá-lo. O Rui Veloso já conheço bem mas não estou ao mesmo nível, bato a bola baixinho, fico do tamanho de um amendoim quando estou perto desse pessoal. O primeiro concerto a que fui por vontade minha foi precisamente do Rui Veloso, em 1990, e foi incrível. Eu já tocava e fiquei completamente doido, determinou mesmo a minha vida de certa forma. Depois, a primeira vez que um ídolo internacional da nossa infância foi ao Porto, que eu me lembre, foi o Bryan Adams, na Exponor. Não há ninguém no Porto que tenha nascido no final dos anos 70, início dos anos 80, que não tenha ido. 

E já recebeu elogios dessas pessoas que admira e de quem não tem coragem de se aproximar?
Já ouvi o Jorge Palma em entrevistas a dizer que gostava de mim. Eu imagino-o como uma figura que nem faz bem parte deste planeta. Saber que ele sabe da minha existência foi uma honra por si só. O Carlos Tê já mencionou que gostava da minha escrita. O Marcelo Camelo mandou-me um email super elogioso e eu fiquei a babar-me um mês. E quando o pessoal não gosta, não diz.

Há algum sítio público a que já não consiga ir porque o reconhecem constantemente?
Não, nada disso. Ontem fui dar um passeio a pé de uma hora e até levo a mal o pessoal não dizer nada. Não, estou a brincar. Às vezes noto que me reconhecem e comentam para o lado, pedem para tirar fotos, mas não passa disso. Nunca tive uma coisa embaraçosa.

Corre na Foz e costuma ouvir música. O Miguel Araújo ouve Miguel Araújo?
Oiço, mas posso explicar. Passo a vida a gravar melodias para o telemóvel e depois sento-me a escrever uma letra e não consigo, sai-me bem é a correr, portanto vou a ouvir isso para ver se me ocorrem palavras. Às vezes oiço outras coisas no Spotify, tenho uma playlist para quando estou mesmo cansado e preciso de ânimo, está lá a “Barcelona”, do Freddie Mercury. Descobri agora Peter Gabriel, é o meu artista do mês, mas ainda só oiço uma música dele. Quando gosto de um tema, oiço milhões de vezes, como agora o do Salvador Sobral.

A separação dos Azeitonas foi inevitável mas também deve ter sido difícil fazer esse corte, não?
A decisão estava tomada para aí um ano antes de eu sair e deu para amadurecer a ideia. Era inevitável. Não podia haver concertos dos Azeitonas sem mim e eles, mais de metade das vezes, ficavam em casa, o que era ingrato para a banda e era chato para mim também. Era uma tensãozita fácil de resolver, deixando eu de fazer parte da banda. Não houve nenhuma zanga, despedimento ou bater de porta violento. Se me perguntarem se eu alguma vez vou voltar a tocar com os Azeitonas, acho que sim, há-de acontecer um dia. Já fui ver um concerto dos Azeitonas, coisa que nunca tinha feito na vida.

Como é ver de fora?
Completamente diferente. Pormenores técnicos que eu achava que não resultavam, afinal resultam, ao contrário também. Foi bom porque lhes dei um relambório com dicas e coisas e eles confiam em mim. Sou a única pessoa que sabe o que é estar dentro e fora. Continuamos amigos, claro.

Por Andreia Costa publicado in Nit

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