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A Arminho do João e da Raquel

A Arminho do João e da Raquel

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O JOÃO e a Raquel dão corpo e alma à Arminho, uma marca independente criada pelo casal que se conheceu em Caldas da Rainha. Cadernos, telas decorativas ilustradas e herbários são alguns dos objectos produzidos na sua oficina que esconde outros tesouros: as suas máquinas. Fruto dum interesse por tecnologias de produção gráfica caídas em desuso e leiloadas ou abandonadas um pouco por todo o país, foram coleccionando a sua frota de impressão. Os tipos de chumbo compostos à mão imprimem as capas dos cadernos que envolvem os papeis adquiridos em pequenos produtores locais e quase sempre nacionais.

Este é um motivo de orgulho para o alentejano João e para a visiense Raquel que encontraram nos velhos ofícios o seu gosto por um trabalho de cunho tão pessoal que, através da internet, conquistou compradores distantes, dos Estados Unidos ao Norte da Europa e à Austrália.

Com o fim de uma renda não renovável do seu espaço de trabalho nas Caldas, mudaram-se para o Porto. A nova casa não só tem espaço para viver mas também para alojar a sua oficina, os gatos e o cão e ainda um quintal que trouxe a possibilidade de colher o que a terra lhes dá. Uma nova cidade trouxe-lhes novas formas de trabalhar e foi na procura de produtores de papel locais que encontraram a velha Fábrica de Papeis da Foz, uma empresa transformadora de papel com origem no século XIX na Avenida Brasil, daí o seu nome, mas actualmente localizada no número 1117 da Rua Pedro Hispano. Engenhos imponentes que outrora imprimiram papéis de parede com rolos de madeira talhados mão, estão agora entregues ao pó e às intempéries de um edifício com poucas condições para os preservar mas que nem por isso lhes tira o encanto.

A fábrica, que se adaptou às novas necessidades dos sectores industriais, deixou os papéis de parede e concentrou a sua produção nos revestimentos, cartão canelado, impressão flexográfica, tubos de cartão ou serpentinas e confettis que revestem um pouco por toda a parte as ruas durante o Carnaval. Sim, porque embora nunca nos tenhamos debruçado muito sobre a produção destes objectos, há sítios onde são produzidos. A Fábrica de Papéis Pintados da Foz é um deles, com a vantagem de ser um pequeno museu da imprensa.

De onde são naturais e qual a vossa relação com esses lugares?

Joao: Vivi toda a minha infância na Ferraria, uma pequena aldeia no norte Alentejo, actualmente não posso lá ir tantas vezes quanto aquilo que gostaria, mas é algo que está sempre presente em tudo aquilo que faço, é uma grande influencia no meu trabalho, o contacto com a terra, a natureza, o gosto pelo trabalho manual provém muito da minha infância.
Raquel: Eu cresci em Viseu de onde só saí para fazer os estudos superiores. Sinto que em Portugal viver longe das grandes cidades dá outra perspectiva às gentes, tal como o João disse mantém-nos mais perto da natureza, do saber fazer, acho que essa vivência dá-nos outra visão sobre trabalho manual. Neste momento Viseu é o lugar onde a minha família mora e onde guardo as memórias da infância e adolescência.

Falem-me do vosso percurso académico, de como se conheceram e da vossa relação com Caldas da Rainha.

Estudámos na ESAD.CR Design Gráfico e Multimédia (João) e Artes Plásticas (Raquel), foi lá que nos conhecemos. A escola e a cidade têm uma dimensão que torna as relações muito especiais, pelo menos até agora só podemos confirmar isso. Vive-se muito perto de tudo, da escola, dos amigos, as relações são todas muito próximas, o que torna o ambiente muito criativo e intenso.

O que vos trouxe ao Porto?

Nas Caldas o nosso estúdio estava num espaço alugado que tínhamos que deixar, então começamos à procura por todo o lado de um sítio para onde fosse possível mudar a nossa máquina e os cavaletes e as restantes toneladas do nosso estúdio. Encontrámos um anúncio, viemos ao Porto ver e decidimos logo que íamos ficar, agora temos a nossa casa e o espaço de trabalho tudo no mesmo sítio que era algo que já procurávamos há algum tempo e que tem imensas vantagens. Agora temos um jardim onde fazemos alguma agricultura e espaço o suficiente para as mil coisas que queremos sempre estar a fazer.

O que mais e menos gostam nesta cidade?

O Porto é uma cidade engraçada, as pessoas aqui são especiais, há um lado muito humano, as pessoas mantêm-se próximas umas das outras como se fossemos todos vizinhos. A cidade em si ainda não foi invadida por grandes superfícies, ainda podemos explorar as ruas e encontrar comércio tradicional, armazéns e pequenas fábricas. Mas não deixa de ser uma grande cidade, com o trânsito, o barulho e confusão.

Têm já algum tipo de rituais ou rotinas?

Não somos pessoas de rotinas, isso assusta-nos. Temos o privilégio de sermos livres de horários e dead lines, fazemos tudo ao nosso ritmo, quando nos dá prazer e vontade. Porque ainda não conhecemos muito a cidade (e porque a oferta é tanta!) também ainda não podemos escolher os nossos sítios preferidos onde possamos sempre voltar.

Sentem que as duas cidades moldam, à sua maneira, o vosso processo de trabalho?

Sim, completamente. Nós dependemos muito dos fornecedores de papel, madeiras, telas… enfim todo o trabalho está dependente do material que conseguimos arranjar à nossa volta. Uma coisa que até gostamos é de sair por aí à procura das lojas e dos fornecedores, porque nessa procura acabamos sempre por encontrar coisas encantadoras que muitas vezes acabamos por usar no nosso trabalho. Para além disso temos sempre de adaptar depois o trabalho aos materiais que encontrámos. Somos muito atentos a tudo o que nos rodeia e vamos colecionando imagens e ideias que depois nos servem de inspiração para o nosso trabalho.

Falem-nos das vossas máquinas de impressão, ferramentas e processos.

Tentamos que as nossas ferramentas estejam todas desligadas da tomada. Usamos serrotes para cortar as madeiras, pincéis para pintá-las, martelos… toda a carpintaria necessária é mesmo a tradicional e manual. Temos uma máquina tipográfica que será talvez dos finais do século XIX e que funciona a pedal, é nela que imprimimos todas as capas dos nossos cadernos. Para acompanhar a nossa prensa tipográfica temos alguns cavaletes de tipos de chumbo e todo o material necessário para a composição, o que resulta em várias toneladas de ferro e chumbo. Temos outras máquinas e ferramentas que fomos encontrando aqui e ali, como a nossa prensa de livros, canteador e uma calandra, do século XIX também, que adaptámos para prensa de gravura. Claro que também temos a parte de impressão digital mas que não tem um papel tão importante no nosso processo de trabalho. Para a composição e alinhamento é preciso alguma prática para que o processo possa ser fluído mas depois disso é pôr tinta na máquina e dar ao pedal! Nós fazemos tudo, desde contar as folhas uma a uma, a cortar, embalar e enviar, todo o processo é realmente feito à mão, não há nenhum intermediário no caminho da nossa produção, isso faz com que tudo o que fazemos nos seja muito querido e próximo.

Como e quando descobriram esta fábrica e que razão vos levou a escolhê-la para a nossa visita?

Descobrimos a Fábrica de Papéis Pintados da Foz porque antes de virmos para o Porto estivemos à procura de fornecedores de tubos de cartão, contactámos a fabrica via e-mail e depois de estarmos instalados decidimos ir visitar, curiosos por ver os papéis maravilhosos das serpentinas. Fomos até à rua e encontrámos um enorme portão, tocámos à campainha e uma senhora veio atender, entrámos um pouco a medo e quando chegámos encontrámos as máquinas e rolos e toda a luz maravilhosa da fábrica. Quando saímos vínhamos completamente pasmados, nunca imaginaríamos que por de trás daquele portão estivesse este tesouro. Escolhemos logo a fábrica, porque para além do sentimento fantástico que é este de descobrir algo que parecia antes estar escondido, as nossas máquinas partilham provavelmente a idade, o ofício artesanal e a mestria necessária para operá-las. Achamos que é isso que lhes dá este ar esmagador de gigantes mecânicos.

Utilizam a expressão paper ephemera para descrever os produtos da vossa lojaonline. Que importância tem o papel no vosso trabalho?

Os papeis que usamos são sem dúvida uma enorme fonte de inspiração para nós. É muitas vezes ele que dita aquilo que acabamos por fazer. Gostamos muito de certos tipos de papel usados pelas tipografias antigas, que ainda são produzidos, mas que têm um qualquer toque antigo, são papeis que não são muito comuns e são desvalorizados mas que nós adoramos. A expressão paper ephemera não tem nenhuma tradução para o português, mas o estacionário antigo inspira-nos e vamos coleccionando-o aqui e ali, papel de carta, envelopes, postais etc. Para além disso o papel é o material por excelência das tipografias, e nós não escapamos à regra.

Uma faceta importante da Arminho é a procura de fornecedores de materiais portugueses e pequenos negócios locais. Falem-nos da filosofia por detrás dos vossos produtos.

É uma coisa que gostamos de fazer como já dissemos, encontrar a papelaria mais velhinha cheia de surpresas ou a loja que parece ter tudo é qualquer coisa que nos deixa com a maior felicidade infantil da descoberta, descobrir estes tesouros que antes achávamos perdidos. Claro que para além do gosto que temos, achamos que é um contributo importante para o comércio local, simplesmente não faz sentido que os materiais tenham de viajar quilómetros para virem para ao nosso estúdio quando podem estar mesmo aqui ao lado, é vantajoso para todos, para nós que não temos de esperar muito tempo e para o comércio local e tradicional que morre menos um bocadinho.

Para quem são feitos os vossos produtos e quem são, na maioria, os vossos compradores?

Os nossos maiores compradores são os do norte da Europa, do norte da América e também da Austrália. Não acho que haja um perfil de comprador ou de cliente, mas aquilo que possam ter em comum talvez seja a valorização do feito à mão e das técnicas que usamos, há cada vez mais gente a tentar fugir ao industrial e à produção em massa. Mas a Arminho é especialmente feita para nós, não há nada que nós façamos só para vender, só vendemos aquilo que gostamos mesmo, que achamos que resultou tal qual esperávamos. Poderíamos fazer muito mais coisas ou talvez coisas mais comerciais se estivéssemos apenas a pensar nas vendas, mas não é esse o nosso interesse, aquilo de que nos orgulhamos mais é de poder dizer que vivemos daquilo que mais gostamos de fazer.

Planos para o futuro próximo?

Muitos! Temos muitos planos para o futuro, um deles viver no campo numa casa de madeira, mesmo aquela imagem de postal, nós somos pessoas de projectos e estamos sempre a criar novos. Queremos continuar em Portugal, que é aquilo que acreditamos que faz sentido para nós e para o nosso trabalho e claro ser independentes criativamente. Quanto à Arminho estamos quase diariamente a planear novos designs e a tentar melhorar aquilo que já temos, queremos que seja algo que perdure, que se consiga reinventar e actualizar sem nunca termos de passar por cima daquilo em que acreditamos.

Por João Drumond publicado in Drawn toPlaces

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