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Ao desafio com Rui Manuel Amaral

Ao desafio com Rui Manuel Amaral

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CANSADOS de esperar pela publicação de novos contos de Rui Manuel Amaral (diz que não escreve microcontos!), fomos desafiá-lo a falar sobre algumas histórias já dadas à estampa (Caravana e Doutor Avalanche), os estados de espírito, o destino, os amigos cujos nomes ainda não conseguimos pronunciar, sem esquecer a D. Inércia de quem é muito chegado, a saúde, as obsessões (qual delas a mais grave?), os crimes cometidos sem remorsos e ainda por julgar (será que terão prescrito?). Enfim, muitas questões para quem leva o trabalho a sério.

Por Paulo Moreira Lopes

Antes de irmos às perguntas propriamente ditas, e porque gosta tanto de escrever pouco (é copywriter?) só uma pequena curiosidade: é parente, amigo ou admirador da D. Inércia?

Sou um amigo chegado. É uma pessoa muito viva e que não consegue estar quieta, apesar da idade.

Agora a sério: quem escreve microcontos tem micro ideias?

Não faço a mais pequena ideia. Não conheço nenhum microcontista. Se um dia conhecer, pergunto-lhe.

As ideias para os microcontos surgem-lhe de avalanche?

As ideias para os contos surgem-me de muitas maneiras diferentes. As ideias para os microcontos não me surgem de maneira nenhuma. Talvez por isso nunca tenha escrito nenhum.

Escreve primeiro para a leitora e depois para o leitor ou escreve para ambos ao mesmo tempo?

Escrevo para a leitora e o leitor ao mesmo tempo. A leitora e o leitor sou eu.

Se a literatura é uma macieira que dá laranjas, quem terá sido o enxertador?

O homem que trata dos diospireiros.

Por ter mais de 18 anos considera-se um escritor maior?

Ainda não cheguei aos 18 anos.

Já roubou alguma palavra cara? Em caso afirmativo pode dar um exemplo ou tem medo que lha roubem?

Roubo tudo o que valha a pena. Palavras, frases, ideias. Normalmente, roubo aos mortos. Estes mortos já tinham roubado a outros que, por sua vez, já tinham roubado a outros ainda. É uma tradição antiga e muito bonita. Não me importo nada que me roubem, o prazer é todo meu.

Não acha que enfiou o barrete ao aceitar o chapéu de abas oferecido pelo génio de Dostoiévski?

O contista é um fingidor. Na verdade, não era um chapéu de abas, mas um chapéu de coco.

Quando fala com os seus botões eles respondem?

Sim, mas numa língua que não conheço.

Sempre que lê a conta da luz faz-se luz dentro de si?

Mil quatrocentos e vinte e sete focos de luz e uma vela de cera.

Às vezes sente vontade de pipilar?

Pipilo a toda a hora, quando estou fora da gaiola.

(neste momento o perguntador é interrompido por uma chamada do José Augusto. Coitado! esqueceu-se da alma no café e agora não a encontra[1])

O anacoluto, gosta de o coçar?

Não vou responder a esta pergunta. Gosto de preservar a minha privacidade.

Não tem remorsos de ter morto Bartek Praszalek?

Não tenho quaisquer remorsos. Era um personagem sem préstimo.

Ainda caça gambozinos?

Cacei durante muito tempo. Entretanto, consegui criar alguns em cativeiro e agora tenho mais de mil gambozinos em casa.

Vende caro as páginas vazias dos seus livros?

As páginas em branco são muito valiosas. E mais valiosos ainda são os espaços em branco nas páginas impressas. A propósito disto, devo dizer que criei uma lente com a qual consigo ler os textos escondidos nos espaços em branco dos livros. Textos esses que, posso afiançar, são de uma beleza e originalidade sem paralelo neste mundo. Obras-primas secretas que estão para além das obras-primas conhecidas. Se fosse religioso, diria que estas histórias secretas constituem a “biblioteca pessoal de Deus” (aspas vigorosas aqui).

Para quando a publicação do conto Infinitesimais? Será que é sua intenção publicá-lo depois de passar o infinito?

Ainda não escrevi esse conto. Só tenho o título.

Alguma vez virou a cara ao destino? E se sim, como é que ele reagiu?

Nunca virei a cara ao destino. Mas o destino já me virou a cara a mim. Reagi bastante mal. Ninguém aguenta tanta falta de maneiras.

Quando mergulha de cabeça nos seus pensamentos, fá-lo de escafandro?

Não sei mergulhar de cabeça. Mergulho sempre de pés.

Já lhe aconteceu perder a cabeça? Em caso afirmativo, pode-nos dizer como se faz para recuperar uma cabeça perdida[2]?

Perco a cabeça com alguma frequência. Se a cabeça não rolar para muito longe, um simples chá de cidreira com bolachas de aveia é suficiente para resolver o problema.

Se é verdade que alguns autocarros o tomaram de ponta, já experimentou entrar pela porta do meio?

Mudei de meio de transporte. Agora, viajo de metro.

Alguma vez ficou constipado com a lufada de ar fresco de certos escritores?

“Se eu quisesse, enlouquecia. Sei de uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio…”

Costuma fazer análises ao sangue que lhe corre na veia poética? Em caso afirmativo, e se não for sigiloso, pode-nos dizer qual tem sido o resultado?

Colesterol elevado.

A sua obsessão pelas orelhas dos outros é defeito ou feitio[3]?

É mania. Gosto de ouvir as histórias que formigam na cabeça dos outros.

Quando passa uma palavra de boca em boca costuma lavá-la (a boca) antes ou depois de a passar?

Vou dizer que lavo antes e depois. Tenho esperança de conseguir o patrocínio da Colgate.

É frequente queimar a ponta da língua quando passa pelas brasas?

Já não tenho língua. O gato comeu-a.

Já que conhece tão bem Dubrolubov, pode descrever aos nossos estimados leitores o que é que ele via com um olho semiaberto e o outro semifechado na plataforma da estação de comboios?

Um segredo: não deve acreditar em tudo o que o autor escreve. Dubrolubov era cego.

É publico e notório que sabe muitas histórias sobre o dito cujo. Por acaso podemos saber aonde as vai desenterrar?

A propósito do dito cujo, só tenho uma palavra e, por isso, não a posso dar.

Tem visto o Zurbin Raimondi? Ainda continua agarrado pela indiferença ou já se divorciaram?

Não conheço assim tão bem Zurbin Raimondi.

Para si um escritor maldito é aquele que gagueja?

Ah ah ah, gostei muito desta pergunta.

Costuma ir à Baixa esperar que as histórias lhe caiam do céu[4]?

Sim, muitas vezes. Quando não vou à Baixa, deixo-me ficar na cama, deitado de costas, a mão esquerda sob a cabeça, à espera que alguma história caia do tecto.

A propósito do incêndio que deflagrou no prédio onde vivia Mardrus, ali na Baixa de Cdrinka, a causa foram as águas-furtadas? Se sim, o crime foi denunciado à PSP e o ladrão apanhado?

O incendiário fui eu.

Pelas histórias que escreve percebe-se que conhece muitas pessoas com nomes impronunciáveis ou é só impressão nossa?

Se ler os nomes ao contrário, vai perceber que são perfeitamente vulgares.

Acha que se pode dizer que um escritor quando fica caído de amores por uma folha em branco fica sempre sem palavras para descrever o sucedido?

Eis uma boa desculpa para não escrever.

(chegado a esta questão, o desafiador já tem uma dor insuportável nos dedos em consequência da superabundante prosa. Por isso, decide abreviar o desafio)

Antes da última pergunta: o que dizem os seus olhos?

Quatro dioptrias, mais coisa, menos coisa.

Depois de tudo o que acima respondeu, ainda assim, tem-se por uma pessoa que se leva a sério?

Levo o meu trabalho a sério.


[1] Caso tenha visto a alma do José Augusto por favor contacte o Correio do Porto, para o endereço eletrónico: geral@correiodoporto.pt.

[2] Recordemos aqui Lazaros Leumorfis que tendo perdido a cabeça deixou de a procurar por, entretanto, vários assuntos de maior importância o terem chamado a outro lado. Coisas da vida!

[3] Os outros a que se refere o entrevistador são: Skila Krivonóssovitch; o homem que tinha uma questão muito pessoal com os espelhos; Scholz Ebenwaldner; Zarvan Mandale; Zak Maraham e Piper Krejci.

[4] Ups! Desculpe lá o leitor, mas é que o perguntador na longa viagem que fez entre a palavra em causa (céu) e o rodapé, perdeu a nota. Desde já agradecemos ao seu achador que nos avise do achado através do endereço eletrónico: geral@correiodoporto.pt.

Nota sobre a última nota de rodapé: o achador terá, como decorre do disposto no artigo 1323.º do Código Civil, direito ao respetivo prémio.

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