Desafios

Ao desafio com Inês Lourenço

4 Abril 2014 Comentar

PERCORREMOS a obra publicada de Inês Lourenço de trás para frente e da frente para trás, desde Coisas que nunca, Logros Consentidos, passando por Câmara Escura e pela Disfunção Lírica, à procura de opiniões, conselhos e desabafos que a poetisa, sem querer, ou, quem sabe, intencionalmente, tivesse entrelaçado entre os versos. Recolhidas aquelas aparentes manifestações de vontade da autora, devolvemo-las em forma de pergunta. O repto foi aceite e aí estão as respostas a provar que os poetas têm uma outra linguagem e um outro olhar que não o do senso comum.

Por Paulo Moreira Lopes

Se algum dia pudesse disfarçar-se de relâmpago, onde e quando gostaria de fazer faísca?

Esse “fazer faísca” a que se refere o poema COISAS QUE NUNCA, publicado no livro do mesmo nome, em 2010, na & etc, reporta-se a um tempo da infância, onde “Há coisas que nunca/tivemos em criança e perdem/o valor para sempre”. Logo esse faiscante relampejar tem apenas um valor textual, que cada leitor adoptará segundo a sua própria sensibilidade.

Quem é que gostaria de morder com justa causa?

Creio que algumas vítimas das possíveis mordeduras, símbolos das repressões infantis, já nem fazem parte do número dos vivos. No entanto, creio, que se voltasse a esses tempos ou mesmo sendo criança na actualidade, não falta gente para morder com justa causa.

Acha bonito escrever e/ou dizer palavras feias?

Não sei o que são “palavras feias”. Se a pergunta se refere a algum vernáculo, que esporadicamente utilizo na escrita, este faz parte do léxico da Língua Portuguesa e é, como se sabe muito usado oralmente. Mas não sou apologista do uso gratuito desses vocábulos, mas apenas se o sentido do texto os chama.

Não se considera uma pessoa mal educada quando à hora marcada não aparece e ainda por cima dá uma qualquer desculpa?

Os poetas são, regra geral, mal educados, pois, se o são realmente (poetas) têm de rejeitar muito do senso comum e do politicamente correcto que lhes é legado e impingido pelo mainstream, em favor de mundividências outras.

O apelido da Maria Tobias era, por acaso, a Malhada ou a Zebra?

Pois a Maria Tobias existiu, realmente, com esse nome. Era uma sem-abrigo preta e branca, a que os vizinhos chamavam “o gato”. Adoptámos o animal convencidos de que era macho castrado, e como nada sabíamos da sua biografia começou-se a chamar-lhe “Tobias”, por ser um nome curto e fonicamente agudo, o que torna mais fácil e eficaz o chamamento. Só passados uns dias é que se verificou o engano; e como ela já dava pelo nome, assim ficou, embora tivéssemos concordado que o nome “oficial” passaria a ser Maria Tobias.

Será uma contradição ou talvez não, sendo poetisa, dizer que não confia no poder dos versos?

A Poesia é desde tempos longínquos aquela expressão literária que mais questiona os diversos poderes. Já Platão em A República sentenciava que os poetas deviam ser expulsos, pois que eles não procuravam a Verdade. E a grandeza da Poesia será, talvez, o facto de ser a única “liberdade livre”, segundo a feliz alusão de Rimbaud que não é subserviente a nenhum poder: político, religioso, moral, inclusivé ao poder gramatical ou do sistema língua, na acepção saussureana, pois a poesia permite-se desfazer a sintaxe, a pontuação, utilizar a fonética e a semântica, segundo a “arte poética” de cada autor. Por isso muitos poetas escrevem contra os regimes despóticos que cerceam a liberdade de expressão.

Como consegue acender a luz em casa se apagou à mão os interruptores?

Suponho que agora há umas coisas chamadas sensores, que nos poupam o esforço…

Penteia os poemas com madeixas claras para serem parecidos consigo?

Esse poema é uma evocação de uma autora, por cujos textos não tenho nenhum apreço.

Quando a mãe lhe dizia para não olhar para os rapazes era porque naquela altura eles eram feios?

Claro que não, aliás nessa época costumava dizer-se que os homens não se queriam bonitos…Mas é óbvio que uma menina dessa década devia ser comedida e reservada nos olhares.

Recebe com frequência cartas com folhas em branco?

Como toda a gente é raro receber cartas manuscritas, mas sim mails e sms.

Ainda desconfia dos poetas (e poetisas, certamente), que falam muito de luz, das manhãs e das árvores?

Prefiro, sem dúvida uma poesia que perfilhe o desencanto, as grandes perguntas acerca da vida e da morte, mesmo com palavras quotidianas, do que uma poesia levezinha, do contentamento e de um panteísmo fácil, com palavras ditas “bonitas”. Neste desafecto também incluo um certo erotismo de pacotilha, que pretende ser muito libertador, mas que bate sempre na mesma tecla, com mais ou menos zonas erógenas ou objectos de desejo, mas que se transforma numa repititiva chatice.

Ao dizer que só nós nos lemos uns aos outros também se está a referir a mim?

Certamente, se tiver livros publicados ou a publicar.

É habitual ter pruridos nas costas, irritantes e passageiros que logo se esquecem?

Remeto para o poema “Passageira”, na pág. 10 em A Disfunção Lírica.

Já alguma vez falou ou escreveu sobre batatas novas, que costumam aparecer antes da Páscoa?

Remeto para o poema “Sessão Literária”, na pág. 13, do mesmo livro.

Sofre ou já sofreu de disfunção lírica? Em caso afirmativo, qual a receita para a ultrapassar? Será que vem n’A BULA?

Essa disfunção tem a ver, precisamente, com a modificação de um certo conceito de lirismo, que ainda confunde biografia com sujeito lírico e ainda não percebeu que os bons poetas têm uma outra linguagem e um outro olhar que não o do senso comum. Não conheço receituário para nada que diga respeito à Arte, pois ela está sempre por fazer.

Por que está tão convicta que os seus poemas não farão parte de um livro adotado nas escolas?

Porque nas escolas se apresentam textos para a função lírica e não para a disfunção… Ressalvo, é claro, os nossos grandes poetas, desde quinhentos, que infelizmente, cada vez se estudam menos.

Têm sido úteis as últimas transfusões?

Sim. A última grande transfusão foi o magnífico livro de Herberto Helder, Servidões. Agora ando a ler um volume de prosa de um autor que muito prezo: Autobiografia de Thomas Bernhard.

As palavras que habitam ao relento não são suas, de quem serão?

Se habitam ao relento não têm morada certa…

Continua a ser bom ter poucos amigos poetas?

Depende das alturas da vida. Mas o meu conceito de poeta tem a ver mais com o paradigma do escriba arredio, que se isola e não com o conceito de grupo jantante ou de tertúlia em que se pratica a “negociatazita”, do tu fazes uma crítica em tal pasquim e eu incluo-te na próxima antologia de poesia que organizar ou então no evento tal ou tal…

Considera-se uma mulher adiantada em relação às mulheres da sua geração?

O que fazemos, realizámos ou pensamos depende muito de factores biográficos, incluindo a época em que nos coube viver. Mas, certamente, estive sempre confrontada com uma certa sensação de estar fora de contexto…Até porque não temos de aceitar, servilmente, os modelos herdados, mas sim estar sempre disponíveis para as perguntas que não têm resposta.

Por gostar de roupa no corpo significa que é anti naturismo?

Confesso que acho incómodo estar na areia duma praia ou noutro sítio qualquer ao ar livre sem uma protecção têxtil. Além de poder ser até perigoso e anti-higiénico. Os animais têm a sua pelagem, que corresponde à nossa roupa. Creio que em alturas pré-históricas, os nossos antepassados cavernícolas eram providos de densa pilosidade que os protegia de agressões várias. Mas a milenar evolução trouxe-nos até a esta epiderme sem cobertura…

Um dia disse que era filha de mãe incógnita (não sabia quem era a mãe), o que é contrariado com as lembranças da sua infância. É ou não filha de mãe incógnita?

Mais uma vez remeto para o poema CÂMARA ESCURA (2), na pág. 22 do livro Logros Consentidos, 2005, & etc, que mais uma vez joga com os modelos do feminino mais dramáticos e provocadores de alguns mitos, elegendo-os para origem matricial, pois repito a ideia de que muitas vezes, se não a maior parte das vezes, temos que eleger os nossos pais, na História da Cultura e do Pensamento, que pouco terão a ver com os nossos pais biológicos.

Já encontrou nos olhos do seu gato, os dias maiores de Abril?

Não tenho gato, ao presente, embora tenha saudades dos que se foram e nos olhos dos quais encontrei frequentemente a fagueira alegria de estar vivo.

Se nenhuma janela resiste, com tiras de papel impresso, que faz um poeta entre destroços?

Pouco. Relembro o poema do grande Paul Célan, escrito num campo de concentração nazi e que se intitula “Fuga da Morte”, em tradução do nosso grande germanista João Barrento.

É assim tão ingénua para consentir nos logros?

Logro ou lograr ou logradouro também pode ter uma conotação positiva. Deixo ao leitor a escolha desse percurso semântico.

A que sabe a música passada por ovo e pão ralado?

Já não se suporta e dá más digestões…

Quem disse que a solidão é um ser de Inverno?

Tanta gente!…

Sempre é verdade que a poesia portuguesa sofre de maldicções?

Isso, cada leitor de poesia é que sabe.

Tem orgulho em ser do norte e, por isso, não ser casta nem cauta na linguagem?

Não sei se tenho orgulho, não tive qualquer interferência nisso, como todos nós. Mas sim, gosto do Norte e sinto que aqui é a minha Terra.

Antes de apagar os interruptores com a mão escolhia com frequência lâmpadas de quinze velas? Em caso afirmativo, não ficava intoxicada com o monóxido de carbono?

Mas essas lâmpadas eram inofensivas, devido à sua pequena voltagem, se bem me lembro do texto.

Seria um anjo a criança que naquela tarde de névoa, quando foi ao quiosque comprar um jornal qualquer, lhe pediu algo que não entendeu?

Não faço ideia. Acho que todos os seres têm a sua parte angélica e a sua parte malsã. E depois há as inúmeras combinatórias: mais percentagem de anjo ou mais percentagem demoníaca…

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