Desafios

Ao desafio com Carlos Bonaparte

8 Abril 2017 Comentar

CARLOS Bonaparte é cego de nascença. O desafio que lhe propusemos foi o de verbalizar sentimentos decorrentes da sua condição de cego. As respostas são sinceras, esclarecidas e, às vezes, intercaladas com humor. Entre muitas revelações descobrimos que as palavras podem ser como paisagens, com cor, profundidade e extensão definidas. Aprendemos ainda que uma consequência direta da cegueira é o reforço da memória. No final, Carlos Bonaparte agradece-nos termos permitido que se confrontasse (em público) com a cegueira e mostrasse que lida tão bem com ela quanto pensava.

Por Paulo Moreira Lopes

Consegue lembrar-se do momento da consciencialização da cegueira?

Sim. Eu tinha mais ou menos 7 anos. Ou 6, ou 7. E nessa altura eu estava na escola a imitar um relatador desportivo, de futebol no caso. Era o meu sonho, caso visse. Subitamente tive a noção de que nada daquilo estava a acontecer. Era apenas fruto da minha imaginação mas à minha volta só havia silêncio, as paredes da escola e os amigos que encantados assistiam à minha forma tão precisa de imaginar as jogadas. Eu ouvia relatos de futebol, sabia como se fazia. E tive a noção de, naquele momento, estar a fazer algo para me divertir e aos meus colegas, e não porque realmente estivesse a ver o que quer que fosse.

Como reagiu emocionalmente a essa diferença?

Compreensivelmente mal. E durante muitos anos (uns 10, talvez). Só a partir dos 16/17 anos é que eu deixei de perguntar “porquê a mim” e passei a perguntar “okey, como é que eu vou lidar com isto?” eu sabia que era cego. Já tinha abandonado a ideia de ser relatador desportivo. Mas fiquei sem rumo durante muito tempo. Sabia que era a rádio o que queria, ou a música, mas depois achava que ninguém ia dar crédito a um cego, quanto mais não seja, por ser cego. Na verdade eu não estava tão errado assim. Estava, aliás, até bastante certo, mas percebi que quando nós acreditamos na nossa própria essência, há sempre um pequeno núcleo que também vai passar a acreditar e a colaborar positivamente.

E os seus pais, restante família e pessoas mais próximas?

Acho que ainda reagiram pior do que eu. Colegas, sem dúvida. Eu fui discriminado na escola por muitos anos. Por exemplo, não ia para o recreio, ninguém queria ir comigo. Ficava na sala de aulas mesmo durante os intervalos e feriados. E os colegas só ficavam comigo quando lhes interessava, isto é, quando chovia, aí havia sempre 5 ou 6 que não se importavam da minha companhia. A minha professora de inglês chegou até a fazer um calendário para nos intervalos depois das suas aulas, alguém ir comigo lá fora. Estava no oitavo ano. Mas dos 27 alunos (mais eu) que compunham a turma, apenas 5 aceitaram. E desses 5 apenas 2 cumpriam. Um deles felizmente até fez mais do que cumprir apenas o calendário. Em casa eles pareciam lidar com isso melhor do que eu. Mas notei que em momentos de desespero ainda dizem que lamentam eu ter nascido assim. Não que tenham vergonha de mim, mas que lamentam eu ter nascido cego. Eu não lamento. Até agradeço.

Quais as estratégias que adotou para diminuírem a dependência de terceiros?

“Quando eu não tiver os meus pais, o que farei?”. Esta foi a estratégia. Lembrar-me de todos os que me deixaram de parte e perceber que isso é a sociedade. Portanto ou eu me viro sozinho ou eu sou virado sozinho. Ou eu dou a volta às situações, ou as situações dão-me a volta. No mais, se eu quero ser uma pessoa normal… bom; é isso que as pessoas normais fazem, não é? Portanto eu só tenho que me comportar exatamente dessa maneira, com as minhas diferenças como todos têm; há quem veja e tenha menos cabeça do que eu, por exemplo.

No pressuposto de que a falta de visão aumenta as potencialidades dos outros sentidos, qual o sentido, no seu caso, mais desenvolvido comparativamente às pessoas que o rodeiam e que não são cegas?

Sentido? Não sei. Há normovisuais que ouvem melhor do que eu, há cegos que ouvem pior… mas algo que se apurou imenso em consequência direta da minha cegueira foi a memória. As pessoas anotam tudo o que pensam, o que os outros pensam, têm sempre que ter uma referência visual. Eu não tenho. E na escola nem sempre tinha livros, nem sempre tinha folhas braille para anotar as coisas. E o facto de não ver fazia-me viver tudo intensamente com os outros 4 sentidos. Fosse para ter a noção do que acontecia à minha volta, fosse porque a visão abafaria tudo o que fosse qualquer outro estímulo. Por isso acima disse que agradeço ser cego.

Que proveito tem tirado dessa vantagem, se é que existe?

Como tudo nesta vida, não há só o lado bom, nem só o lado mau. Ser cego também. E a grande vantagem é poder viver com os outros 4 sentidos. A visão impede as pessoas de verem com a alma de um modo genérico. Há uma tendência para tirar as impressões digitais de uma pessoa (figurativamente) numa troca de olhares. Eu tiro-as de mãos-dadas. As pessoas abanam a cabeça para dizerem que sim ou não. Eu preciso da confrontação das palavras. Isso obriga uns e outros (eu e os que me rodeiam) a sermos mais sinceros, até com nós próprios. Quem vê por norma não dá tanta importância ao valor da palavra falada. Noto isso por as pessoas preferirem escrever do que falar, dizer que sim com a cabeça ao invés de falarem, ou gesticularem ao invés de dizer um “bom dia S’er Américo!”

Quando conversa com as pessoas, só o facto de as ouvir, permite-lhe aperceber-se do estado emocional das mesmas e eventualmente do seu caráter? Se está a mentir, por exemplo?

Sim. E talvez por não ver é que posso dizer que apesar de tudo, eu só tive 3 ou 4 pessoas que me desiludiram, das milhares que conheci. Com as restantes, para o bem e para o mal, eu sabia o que esperar delas. Mesmo quando os outros me diziam “isso é impressão tua”.

Em caso afirmativo, que uso faz desse segredo ou é-lhe indiferente?

Não é um segredo; as pessoas sabem que eu estou atento a elas; a questão é que desconhecem a importância das palavras, e por isso caem no erro – e ainda bem – de serem sinceras mesmo até quando pretendem elaborar uma doce mentira. O uso é aproveitar a circunstância para manter longe quem deve estar longe. E mais uma vez, agradeço por ser cego. Se não fosse este filtro não existiria. Nem eu conheceria tanto a força das palavras, nem as pessoas teriam a cegueira como prova de se se querem manter na minha vida ou não. Se são, ou não, capazes de lidar com a diferença dos outros, e se sim, até que ponto.

Que noção tem da luz e da sua ausência?

Acho que é um pouco como toda a gente, a noção da luz. Da ausência dela, nem tanto. As pessoas dizem que está escuro e eu olho para o céu e vejo azul escuro. Bom, atualmente já só vejo luz pouco intensa, porque a capacidade de distinguir cores já não tenho. Mas quanto à perceção luminosa, felizmente ainda se preserva. E muito bem.

Quando pensa numa maçã pensa em quê? No sabor, no odor, no tato do objeto ou das letras em código braille, no som da palavra ou de um dado momento da vida em que aquele objeto o marcou?

Bom, é complicado e até nunca falei disto com ninguém. E vai ser em grande porque vou dizer para muita gente ao mesmo tempo. Eu penso nisso tudo, e mais numa coisa. Para mim as palavras são como paisagens. Têm cor, profundidade e extensão definidas. Os limites dessa paisagem geralmente coincidem com as letras braille. Mas eu consigo adentrar-me por essa paisagem e isso já não tem a ver com as letras. Embora a altura e largura, sim. Maçã, particularmente, é uma paisagem bastante verde que me agrada. E consigo pensar numa maçã vermelha. Mas a palavra maçã continua a ser verde e termina mais ou menos como termina um barco. A parte final dessa paisagem já é branca. Apenas o A e o Ç são verdes. O ã é branco e menos profundo do que as duas letras anteriores. O M é uma espécie de viela asfaltada, com um coberto, como se fosse uma ponte, por cima. No fim desse m desce-se apenas um degrau e eis um extenso verde. Isto é o que eu penso quando me lembro da palavra maçã, ou até quando agarro numa para comer.

Ao ouvi-lo na entrevista que deu ao Nuno Ramada percebe-se que usa um discurso emprestado, ou seja, a linguagem das pessoas que veem. Por isso, fala das imagens que tem do Porto. Acha possível criar um discurso próprio dos invisuais, com exclusão das imagens, ou seja, assente somente nos outros sentidos?

Eu não sou invisual, sou cego. Explico mais à frente, mas, por agora, digo que acho que não. Ou não sem falsear a realidade. Tudo porque, por exemplo, as minhas imagens do Porto foram obtidas com os outros sentidos; o termo imagem vem de imaginação, não de visão, de forma que uma imagem pode ser captada sob vários pontos e por vários métodos ou sentidos. Uma imagem olfativa ou auditiva, as chamadas imagens sonoras que as duas grandes guerras nos deixaram para a posteridade. Aliás, imagens sonoras que conseguem ter inclusive mais valor do que as raras fotografias que existem. Aliás, mesmo uma imagem visual vem de imaginação; para mim a mulher perfeita, com a altura ideal, a postura ideal e um olhar penetrante, para outra pessoa que vê a mesma mulher, é só uma gorda que até tem “uma cena tipo bigode”. Quanto ao ver; cegos também veem. É o que eu chamo de visão indireta. Todos nós construímos uma visão das coisas. Ou um ponto de vista. Inclusive sobre aquilo que não é palpável. Com a visão, e com os outros sentidos. E com a junção do que esses 4 sentidos captaram, mais a experiência associada a esses estímulos, gera-se uma imagem, como a que descrevi acima.

Quanto ao invisual ou cego: cego é a pessoa que tem uma visão nula ou inferior a 20 pés de distância. Invisual é aquela pessoa que, efetivamente, não vê. Ela até pode ter o sentido da visão, mas o cérebro não processa o que os sentidos captam como imagens. E geralmente esse distúrbio, bastante raro, está associado a faltas de memória ou a condições ainda mais raras em que, por exemplo, o cérebro associa estímulos visuais a imagens sonoras ou olfativas, um pouco à semelhança do que as minhas associações das letras a imagens visuais, mesmo sendo cego.

Por não se distrair com as imagens acha que o seu pensamento se tornou mais reflexivo, mais propenso a questionar do que a descrever?

Sim. Bastante.

Será que podemos falar de um pensamento dos invisuais, que tendem todos a pensar do mesmo modo, a terem reações idênticas e um caráter próprio?

Ainda sim. Mas, felizmente, cada vez menos. Hoje mais cegos vão a escolas normais, têm acesso à internet e isso permite a convivência com normovisuais mesmo que à distância, o que possibilita a destruição dessa forma de estar que criava comportamentos padrão a praticamente todos os cegos.

Existem profissões à medida dos cegos?

Não. Há muito poucas profissões que cegos não possam desempenhar. Em termos de percentagem, talvez 2%. Repare que agora até com a medicina à distância, um cego pode tornar-se cirurgião. Basta que haja uma tecnologia bem desenvolvida e testada para o efeito e que o cego saiba sempre onde está e a quantos milímetros. Só basta que isso haja e passaremos a ter cegos como cirurgiões… (por enquanto eu espero nunca ser atendido por algum deles; eheh)

E profissões onde o desempenho dos cegos é superior à média das restantes pessoas?

 Não. Isso sim, de forma alguma existe.

E, ainda, profissões novas a desempenhar somente por cegos?

Também não. Na verdade o que vai influenciar o desempenho de uma pessoa não é o seu conhecimento mas sim a sua inteligência. Ou seja: não é o que sabemos, mas sim o que somos capazes de fazer com isso. E isso é transcendental às capacidades físicas, motoras ou sensoriais.

Como está a ler este questionário? E como o vai responder?

Estou a ler com os ouvidos. Ou seja, tenho um leitor de ecrã para funcionar com o computador. Para que todas as pessoas percebam, imaginem que estão sentados ao computador e que há uma pessoa que vos lê tudo o que aparece no ecrã. E que diz “aqui tens uma fotografia”. Carregamos na seta para baixo e a pessoa que nos está a ajudar lê-nos o texto “bem vindo ao site do Correio do Porto! Link notícias, link quem somos, link contactos” Seta para baixo e “link para a mesma página ir para o artigo” ou então no fim da página “link para a mesma página voltar ao topo”. Pronto; isto pode ser uma pessoa extremamente paciente, ou então um leitor de ecrã; que entre outras coisas, não precisa de dormir, alimentar, nem fica afónico e muito menos aborrecido. Isto é o meu leitor de ecrã, que uso para navegar na internet, e ler este questionário.

Responder: com as mãos no teclado como qualquer normovisual. Para segurança o leitor de ecrã vai-me lendo as letras que eu vou escrevendo. E assim sei sempre onde estou e quando me engano.

A leitura e consequente reflexão deste questionário ajudou-o a pensar a cegueira de outra forma?

Felizmente não. Pois caso assim tivesse sido, significaria que eu ainda evitava algo que me acompanha 24 horas por dia e que teria sido surpreendido com questões que eu já me devia ter feito há anos, como fiz. Por isso digo felizmente.

Acha útil abordar esta questão de uma forma tão frontal e desinibida?

Sem dúvida! Tudo o que seja dizer às pessoas que cegos são exatamente como normovisuais é sempre bem vindo! E como ninguém nasce ensinado… só comunicando é que aprendemos.

Obrigado por ter aceite o desafio.

Obrigado eu pela proposta. É sempre bom confrontar-me com a minha cegueira desta forma tão frontal e saber que lido tão bem com ela quanto aquilo que eu pensava. E bom para quem lê também.

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