Desafios

Ao desafio com Antero de Alda

27 Dezembro 2013 Comentar

ANTERO de Alda nasceu em 1961. Publicou memória de hibakusha (1986) e O Século C.N.A. (1999). É um dos principais autores de poesia visual portuguesa, com E.M. de Melo e Castro, Ana Hatherly, António Aragão e Alberto Pimenta, entre outros. Os seus scriptpoemas são obras da referência no domínio da ciberliteratura. Recentemente publicou a reserva de Mallarmé, ed. GALÁPAGOS, dezembro de 2013, o que nos inspirou a propor-lhe este desafio. As respostas são em prosa com alguns versos à mistura.

Por Paulo Moreira Lopes

Onde e quando tem publicado os outros poemas sem verso?

Consta que Degas encontrou um dia Mallarmé e disse-lhe que queria escrever um poema, mas não tinha ideias. Mallarmé respondeu-lhe que poemas não se escrevem com ideias, mas com palavrasA reserva de Mallarmé reúne algumas das palavras (versos) residuais depois de mais de trinta anos a fazer poesia visual e lírica eletrónica segundo a definição de Herberto Hélder.

Se não foi para morrer que nascemos, na sua opinião, foi então para quê?

Jorge de Sena saberia que morrer não é um destino, mas uma fatalidade. Afinal, «não há nenhuma compaixão por quem vive, só aos mortais é dado o benefício do amor…» Ginsberg é conclusivo: «o peso do mundo é o amor. Sob o fardo da solidão, sob o fardo da insatisfação o peso o peso que carregamos é o amor.»

Continua sem pagar a conta da eletricidade?

Atendendo à natureza da eletronicolírica é impossível escrever à luz da vela, mas estou a confrontar-me com a eventualidade de ver o meu carro penhorado por falta de pagamento de IUC de 2008, 2009, 2010 e 2012. Numa sociedade capitalista, as dívidas são uma realidade com que tenho de conviver frequentemente.

Já encontrou o pedaço de terra que tanto procurava para plantar uma laranjeira?

Manoel de Oliveira, após uma quantidade inumerável de filmes extraordinários e pouco depois de completar 104 anos disse que «a vida é uma derrota…» (jornal Expresso, 4 de janeiro de 2013).

Se o ódio se esconde nas franjas do amor, por que não cortá-las?

Um amor sem franjas não seria verdadeiramente amor.

Alguma vez pensou em enxertar a macieira ácida com um ramo de outra macieira?

«Foi na macieira ácida que lhe deu aquele aperto no peito…» Trata-se duma espécie de maçã reineta, de que gosto muito e aproveitei para plantar no quintal do meu pai: por muito doloroso que seja, é inevitável “matar” o progenitor, como se depreende de Daddy de Sylvia Plath.

Além de Amarante que outros lugares serão bons para morrer?

Por alguma razão, cada um deve ter o seu lugar bom para morrer. Por amor, poderia escolher outro lugar qualquer: «para onde fores leva-me contigo.»

Como tem sobrevivido ao frio deste inverno se inutilizou todos os tubos do aquecimento central?

«Vem aí Setembro. Outra vez. É preciso encomendar lenha seca.»

Não sobrevivo sem o primeiro elemento, a poética do fogo. De resto, o aquecimento central é caro e poderia levar-me a acrescentar dívidas às dívidas que já tenho.

As telhas partidas no telhado já foram reparadas?

Há sempre qualquer nova moléstia doméstica para resolver. Um dia terei de confrontar-me também com «a cancela aberta, que não para de bater…» Agora estou preocupado com um filão de tijoleira que levantou na sala.

Ainda continua convencido que o Céu também tem o seu Diabo?

«Faço negócios improváveis hoje por exemplo troquei um a de amor por um d de dor e ainda um grilo sem uma pata.»

Acredito que poderei ir para o Céu, portanto… (afinal, que serei eu senão um pequeno diabo?)

Pode-nos dizer por que só espera lucros no amor?

O dinheiro é uma droga. Só negoceio com o amor.

O que é a poesia senão esse esforço irreprimível para «salvar o mundo», como diz J. L. Borges em A Cifra?

Como pode garantir que o poema só anda pelas ruas da amargura, quando ainda temos as ruas da liberdade, da alegria, da misericórdia e dos sonhos?

Infelizmente, nos dias de hoje, os significados estão cada vez mais separados dos significantes como a técnica está desprendida da cultura.

Nunca ponderou vender palavras a granel?

Na verdade, faço-o, mas não nos hipermercados. Poesia e consumismo são duas realidades inconciliáveis.

O seu vizinho não se importa que as crianças lhe tirem limões dos limoeiros?

Os meus vizinhos oferecem-me laranjas, porque sabem que eu não tenho um pedaço de terra.

Costuma fazer muitas vezes jejum pela sua liberdade?

É uma boa ideia, mas o que realmente queria dizer é que de bom grado faço jejum da liberdade que me querem impingir.

Onde arranja as laranjas para afagar o fumo? Se já encontrou um pedaço de terra para plantar uma laranjeira, então fica dispensado de responder a esta pergunta.

A dor não permite que me contradiga: os vizinhos oferecem-me as laranjas.

Tem alguma solução ou soluções para emagrecer a besta obesa?

Banda gástrica. Penso que o capitalismo selvagem acabaria se limitassem os lucros dos grandes bancos e das multinacionais e dos casinos que são as Bolsas de Valores e da publicidade… Infelizmente, estamos a seguir o caminho inverso e optamos antes por desgovernar os impostos e emagrecer o Estado Social. Como disse certa vez Robin Wells (a mulher do Nobel Krugman, também ela economista), talvez daqui a 10 ou 15 anos iremos pensar que devíamos ter feito tudo de maneira diferente.

Afirmou que Deus também deve ler Cervantes (cfr: página 31 de a reserva de Mallarmé). Quer isso dizer que Deus foi ou acabará por ser influenciado pelos feitos do Cavaleiro da Triste Figura?

D. Quixote de Cervantes como Melquíades de García Márquez são metáforas de que nenhum homem deveria libertar-se. Nunca consegui acabar de ler Cem Anos de Solidão, desencantado com a morte precoce do feiticeiro «de barba ferina e mãos de pardal-dos-telhados». Lamentavelmente, desisti um pouco antes da quadragésima sexta página, sem esperança de ver García Márquez ressuscitar o honrado cigano Melquíades e sem saber ainda que a persistência divina de certas criaturas deve ser herança genética dos seus criadores… A essência da fé é «atiçar o sonho».

Considerando que vida não dura mais do que três minutos, o que corresponde ao tempo de ouvir uma canção, qual a canção que gostaria de viver?

Não necessariamente uma que durasse mais do que três minutos, como Disintegration Loops, de Basinski. Talvez Quanto é Doce, de José Afonso na voz de Lula Pena. Ou Grito, de Amália Rodrigues. Ou Maybe Not, de Cat Power. Ou Agnus Dei, de Barber. Ou a Sinfonia Nº 3 (das Lamentações) de Górecki…

Pior do que duas mulheres amarguradas só três mulheres amarguradas?

Duas mulheres amarguradas já é demasiado.

Também é um daqueles para quem a realidade só é suportável sob o olhar da metáfora?

A metáfora é uma forma de exorcizar a dor.

Para si o inverno está na terceira prateleira do guarda-roupa. Podemos então concluir que o outono ficará na segunda prateleira e o verão na primeira? Sendo assim, onde ficará a primavera?

O meu guarda-roupa só tem três prateleiras. Em qualquer caso o inverno está na última. É também uma reserva, talvez até uma reserva moral.

É do domínio público que deixa a chave debaixo do tapete. Não tem receio que um estranho descubra o esconderijo e lhe entre em casa?

Quem foge nem sempre sabe de onde foge, do que foge e até para onde foge.

Tem assim tão má ideia de Deus para dizer que o preparou para entrar no Inferno?

Tenho má ideia daqueles que se querem fazer passar por Deus. «Suporei, pois, que há não um verdadeiro Deus, que é a soberana fonte da verdade, mas certo génio maligno, não menos ardiloso e enganador do que poderoso, que empregou toda a sua indústria em enganar-me.» Descartes, Meditações (1641).

Por que diz que deveria ter feito todos os versos na infância?

«Meu Deus! Meu Deus! Quando me lembro agora de o ver brincar…» (Pascoaes). Tal como a conheço, a infância é onde reside toda a pureza. E agora… Agora crescem-me pedras na boca.

O gato é verdadeiro? É verdade que abandonou a casa e regressou como um filho pródigo?

Não acredito na poesia técnica… O gato é do meu filho mais novo e chama-se Picasso. Quando você vier cá a casa não se esqueça de trazer «um ramo de três sardinhas em escabeche».

Quando se dedicar a construir um celeiro para guardar sonhos avisa-nos para o podermos ajudar?

«A minha maior dor é não ter conseguido fazer ninguém feliz, e agora, como contrariar o instinto fatal da morte? Retomando Steiner, ao olhar para trás vejo a sombra de um eunuco…»

A minha cardiologista disse-me que só tenho 10 anos de vida. Pode parecer macabro, mas já estou a organizar os ficheiros em pastas e a deixar alguns recados no computador.

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