Cultura

Jorge Sousa Braga no Convívio às 9 da manhã

15 Março 2015 224 Leituras Comentar

ENCONTRAMO-NOS no café Convívio do Porto às 9 da manhã de um Domingo. Um dos espaços preferidos de Manuel António Pina, uma das referências de Jorge Sousa Braga. Sentou-se junto à janela, livros em cima da mesa, um pequeno caderno vermelho no bolso do blusão, que haveria de mostrar-me mais tarde. Livros de poesia e um caderno para tomar notas, marcas diárias da vida deste poeta e médico obstetra: ‘não há um dia em que a poesia esteja ausente, está em casa por todo o lado, e também quando saio para o trabalho. Tenho poesia no iPad, e no saco levo sempre um ou outro livro e um caderninho para apontar ideias’.

‘Não posso abandonar a ideia do poema’

Lê poemas todos os dias, ‘a poesia para mim é uma arte de viver’, mas a escrita tem outro ritmo, ‘podem passar-se meses sem escrever’. Quando escreve, fá-lo como se estivesse a usar uma corda pendurada a meio de duas montanhas para saltar de uma montanha para outra. A metáfora é do poeta para explicar o processo criativo: ‘não posso abandonar a ideia do poema como não posso abandonar a corda. Tenho que ir até ao fim, tenho que chegar ao lado de lá, porque se parar, caio.’

Conhece muitas outras formas de chegar ao poema mas na sua ‘quando a coisa sai bem, sai bem’, e se tiver que ‘andar muito tempo porque o verso não funciona ou não sei quê, o mais provável é aquilo ir para o lixo.’

Para ter a certeza de que a viagem se fez como deve ser, ou seja, de que poema está como queria que ficasse, dá-lhe voz: ‘tenho de ler em voz alta para ver  se soa bem.’

‘Intervir com a ternura destrói tudo de uma maneira muito terna’

‘O Poeta Nu’, nome de um livro com a poesia reunida de Jorge Sousa Braga, explica que é dono de uma poesia ‘bastante fácil e fresca, como quem vai ao mercado à terça-feira’, mas também irónica: ‘não sou propriamente um sujeito muito engraçado mas acho que tenho a arte da ironia. Mesmo no dia-a-dia, intervir com a ironia destrói tudo de uma maneira muito terna.’ A ternura está muito presente na sua poesia, ‘acho que é uma das coisas que mais falta faz no mundo, a ternura, em contraponto à violência que ateia a todos os níveis’, assim como a beleza, e um amor que não é necessariamente romântico. Exemplo disso é a Carta de Amor , poema dedicado a Eugénio de Andrade que termina com os versos ‘Um dia destes vou-te matar/ Uma certeira bala de pólen/ mesmo sobre o coração’. Eugénio de Andrade é um dos poetas que mais o marcou. Fala dele como o ‘mestre’, um homem pouco dado a simpatias mas ‘das únicas pessoas que conheci para quem a vida era a poesia’. Foi um dos convidados do seu casamento e no dia da cerimónia, pelo caminho, deixou o recado: ‘Oh Jorge, os poetas não casam, os poetas casam com a poesia.’

‘Eu gostava de escrever poemas políticos’

O casamento de Jorge Sousa Braga com a poesia começa pela voz do pai, alfaiate de profissão que trabalhava em casa junto dos 4 filhos rapazes, a quem dizia de cor poemas de Guerra Junqueiro, entre outros. Cresceu numa aldeia a 14 quilómetros de Braga e a primeira vez que foi à cidade tinha 5 anos: ‘lembro-me perfeitamente do Campo da Vinha, era uma cidade cheia de árvores.’ Aos 9 anos, foi estudar num seminário em Viana do Castelo, ‘era a única forma de continuar os estudos’, de onde saiu 4 anos depois para o liceu de Braga. Foi nessa idade, em plena adolescência, que fez as primeiras leituras poéticas, ‘nessa altura lia tudo por atacado’, e que escreveu os primeiros poemas. Alguns deles, marcados pelo contexto político específico do país daquela altura onde, por exemplo, a literatura disponível era controlada: ‘lembro-me de ter feito uma ode ao Amílcar Cabral e de passar à mão o ‘Praça da Canção’, um livro de Manuel Alegre que estava proibido na altura. Um dos meu amigos tinha-o, e eu passei-o à mão para o poder ler depois.’ Ainda experimentou escrever poemas parecidos com as leituras e com a urgência desse tempo, ‘eu gostava de escrever poemas políticos, gostava de escrever poemas como o Brecht’, mas a experiência ‘não correu bem.’

Lembra que nesse Portugal onde cresceu se sentia muito a estratificação social, ‘quase porem um gajo no lugar de onde vinha, faziam-nos sentir que tínhamos nascido lá em baixo’, coisa que não esquece nem quer esquecer: ‘não me esqueço de onde venho. Isso tem a ver com uma questão de respeito e é transversal no contacto com os doentes. Trato toda a gente da mesma maneira.’

‘Sempre quis ser médico de mulheres’

Os doentes de que fala são sobretudo mulheres, ‘sempre quis ser médico de mulheres’, e não será então por acaso a presença do universo feminino na sua poesia, embora explique que essa relação não é propositada: ‘nunca pensei incorporar o meu trabalho do dia-a-dia no meu trabalho poético mas no livro ‘A Ferida Aberta’, de facto, acabou por se impor.’ Há outros livros e outros poemas onde a mulher está muito presente e, uma vez mais, a profissão não será alheia a este facto: ‘costumo dizer que as mulheres têm uma sensibilidade e uma capacidade de sofrimento que os homens não têm. Se fossem os homens a engravidar, o mundo já não existia há milhares de anos.’ Acredita que ‘o sofrimento apura a sensibilidade’ e, nesse sentido, que ‘as mulheres são mais criativas que os homens, se as deixarem.’ Pergunto se as deixam, responde que que sim, que ‘agora vão deixando.’

Além de escrever poemas também os traduz, ‘é a melhor forma de conhecer um poeta porque se apanha a técnica toda’, e embora tenha um carinho especial por poetas místicos não elege uma linguagem poética em detrimento de outras: ‘gosto muito do (Matsuo) Bashô e gosto muito do (Walt) Whitman.’

‘Afadigar-se para passar despercebido’

‘É tão difícil guardar um rio quando ele corre dentro de nós’ ou ‘A borboleta que poisou no teu mamilo perdeu a vontade de voar’ são alguns dos poemas de Jorge Sousa Braga citados de cor por muitos leitores, e encontrados até nas paredes de algumas cidades, mas o poeta, não escondendo a satisfação por se saber assim admirado, prefere a discrição.

Conta uma história lida num jornal sobre uma planta estranha encontrada numa praia para explicar melhor esta ideia: ‘alguém vinha da praia e encontrou umas plantas a seguir à vegetação. Uma delas era o Piorno Branco, e uma das características do Piorno Branco é que se afadigava para passar despercebido. Isso bateu-me, essa coisa de se afadigar para passar despercebido.’

Um dia destes poderemos, talvez, encontrar um poema de Jorge Sousa Braga sobre o Piorno Branco. Apesar do desejo do poeta, certamente, nunca os iremos confundir.

Por Raquel Marinho publicado in Expresso

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