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Etéreas obras...

Etéreas obras

Foto: Miguel Gomes

NÃO pelo frio, que corre lá fora, mas pela memória de ver serpentear a espuma do café sob a negrura do líquido e dos dias, que me aquece as mãos em concha segurando a tigela.

Não pelo calor, que há-de deslizar a seu tempo pelas paredes exteriores e interiores de um mundo físico, onde cada sombra terá a certeza de sobreviver até nenhum sol mais nascer.

Por onde, por quê, porquê, os dias e dias salpicados de cadências rítmicas que não soam, que não são.

Há onde tu lá estás algum percalço que faça cair as estrelas quando tropeças nas etéreas obras que criaste?

Tenho por fundo o fundo, apenas.

Está para lá, onde as memórias se enaltecem do futuro que ajudaram a edificar, mas cujo fruto nunca puderam saborear.

A cada passa um futuro, o potencial gravítico que me agarra ao planeta.

Como o adoro.
O planeta.
O futuro.

Terminarei ainda antes da música, mas mesmo que não trinem as pautas, mesmo que a filosofia me abandone e eu seja apenas um pensamento parado, a sonoridade encontrará a sua própria forma de, pelo frio, pelo calor, se traduzir na tremeluzinda vela que dança ao sabor do nevoeiro que os nossos corpos, assim como a água quente do chuveiro, enevoaram.

Arrefeço agora, corpo e alma, na esperança da vida pensar que adormeço e o sono se aproxime, chamando o sonho e, assim, eu o capture antes de adormecer e anote todos os segredos que me sussurrou em criança.

Por Miguel Gomes

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