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Jorge Palinho...

Jorge Palinhos (1977)

Já me aconteceu muitas vezes escrever em cafés, por acidente ou necessidade de me sentir no meio de pessoas e vidas que não apenas a minha. Mas há umas semanas foi diferente: a associação Mezzanine convidou-me para fazer parte do seu projeto Meia Pensão, de residências artísticas em cafés do Porto. 

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Kierkegaard tem um texto muito bonito sobre uma pessoa que caminha só e repetidamente pelas mesmas ruas e pracetas anónimas de uma cidade que desconhece – as ruas que nenhum guia turístico descreve e as praças que nenhum mapa destaca – e desse modo descobre um lugar que só a si pertence e que não pode partilhar com mais ninguém. 

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É um facto de que as tiragens dos livros são cada vez mais pequenas: livros que antes se editavam aos milhares, editam-se hoje às centenas, quando não às dezenas. E numa altura em que as pessoas leem cada vez mais no ecrã, talvez o grande problema dos livros seja o de que pode ser confuso olhar duas vezes para a mesma página e as letras desta continuarem no mesmo sítio. 

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Há tanta gente a vivê-la dentro dos carros: dos passageiros que suportam a viagem banhados em páginas – como eu os invejo! – até aos condutores que acabaram de ler Guerra e Paz enquanto esperavam pelo semáforo verde; 

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Foi com uma professora da minha escola secundária que eu aprendi o que era a elegância. Não foi paixão minha, daquelas que fazem os alunos fixar intensamente professores distraídos, ou sensualidade dela, das que fazem os adolescentes agitarem-se atrás das mesas. 

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Como se fossem feitos de pedra e não de líquido e tecidos orgânicos. E, estavam pousados em mim, concentrando uma raiva acusatória que eu não conseguia compreender, se me tinha limitado a perguntar no balcão das informações quando partia o próximo autocarro para Bruxelas. 

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Pego da pena para falar da minha cidade, afinal é “noite de estreia”. Tento arrastá-la em movimentos contínuos e ela, teimosa, empanca na cidade de Palinhos, doce, trágica, nostálgica. 

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Por eu insistir em ignorá-lo o livro teimava em tossicar com ar furioso: dando a cada ranger de garganta a veemência de um insulto. 

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Há quem acredite – como Saramago – que a escrita começa nas nádegas e que só na posição sentada pode alguém escrever. 

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A mais injustiçada das grandes instituições portuguesas é a taberna. Durante séculos desprezada pela igreja, pelo estado, pelos livros, é na verdade a coluna dorsal da cultura portuguesa. 

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Rebentou uma discussão entre o homem atrás do balcão e o homem de costas dobradas que contava as moedas na mão curvada como um ninho. 

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Os livros encontrados 

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Os amantes frustrados 

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7 perguntas a Jorge Palinhos

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