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O Homem do Saco de Cabedal

A manta de burel

POR volta da meia-noite, em locais escusos, fazia a mezinha: queimava arruda na pureza do fogo, cosia a boca aos sapos na época do cio. Sobre a manhã, descia ao rio: levantava a saia longa e...

Jogo

O FUTEBOL é um jogo viril. Uma espécie de râguebi sem violência. Sorriu, sem perceber muito bem o que lhe queria dizer o homem do cachecol às riscas. A bola, nessa tarde, andava pelo ar: não...

As árvores do bosque

CANSADO de humanidade, ganhou pelo. Abjurou a marcha bípede, subiu às árvores do bosque: comeu bagas, frutos silvestres e enxotou a fome dos pássaros. A família pôs anúncios nos jornais, dav...

Os homens

NA FEIRA vende-se o gado, romãs, peles de raposa, enxadas. As gargantas, secas, pedem vinho: hipoteca-se, então, a alma. E nos olhos refulge antiquíssima valentia. O homem bebeu, muito – é d...

Paixão das rãs

FUMAVA cigarros com pensamentos ecológicos. O jovem casado chamou a mãe. Mãe, mãe, venha ver o menino a andar. Nessa tarde não pescou nada. Nada. Existe algo de misterioso nos peixes. É a lu...

Homem sem terra

O BOI era o símbolo da valentia da nossa terra. O boi do povo!, explica o homem que tivera de fugir da sua aldeia, porque a barragem tudo engoliu: casa, sonhos, campos, odores, melancolia. C...

Pelos teus lábios

NO Maio como as cerejas pelos teus lábios. Diz o homem do saco de cabedal à rapariga. E a rapariga abandona o largo. A correr, como se fugisse de rude tempestade. Pouco depois, regressam a r...

Que morre devagar

E DE quem são as casas, pergunta o homem do saco de cabedal. Olhe, medraram da ruína, lestas como tortulhos em grainha de uva. Foram nossas, do povo da aldeia que morreu devagar, porque ning...

Fala do homem do saco de cabedal

VENDI o coração ao diabo por um copo de vinho e uma mão cheia de chamas. No vazio do peito dorme agora um seixo afeiçoado, redimido do rio. Tenho no saco de cabedal alguns livros de lirismo ...

Mãos na cabeça

DEVAGAR caminhavam, as mãos na cabeça. Viam o fascínio fresco do rio, na lentidão dos olhos adoravam as trutas. Nunca estes homens comeram um peixe. Na Primavera subiam, eles e o gado, ao mo...

As palavras

NO ALTO destas pedras, uma mulher, cabelo luzidio e olhos claros, reuniu a pequena comunidade. Falou em linguagem rude, áspera, como a vida de todos. No futuro esperam-nos dias felizes e abu...

O inimigo

O RAPAZ esticou a fisga. Redondo, como uma maçã, caiu o curioso pisco na erva fresca. Quando chegou ao largo, o rapaz gritou: abati um avião inimigo! Das soleiras das portas, o povo, num esp...

Segundo dilúvio

PELE branca, olhos azuis. Azuis, como lagos profundos. No mês de maio saía da casa em ruínas: ia com as borboletas na caça de fragrâncias remotas. Colhia flores silvestres, oferecia-as aos c...

Tabuleta Digital

Vai no Batalha

Rui Moreira (1956)

E peço-lhe desculpa se o refiro desta forma tão crua. Diz a senhora presidente que a delegação do Porto não tinha competências técnicas e, por isso, não se justificava a manutenção. De facto, Senhor Ministro, há muitos anos que os intermediários financeiros se queixavam que para qualquer assunto se viam obrigados a deslocarem-se à sede da CMVM em Lisboa. Exatamente p...

Rua da Estrada romana

UM soldado romano e uma estrada é uma daquelas parelhas que não causa qualquer surpresa. É como um semáforo ou uma placa de sinalização de trânsito ou um polícia sinaleiro se fosse cruzamento e se os tempos e circunstâncias fossem diferentes. Não teria havido império se não houvesse uma rede de estradas que chegasse a todas as terras dos bárbaros, sistema de circulação por onde se drenavam riquezas e impostos para Roma, por onde se movimentavam as legiões, a lei e o latim – uma barbaridade de dispositivos técnicos, legais, linguísticos, bélicos, logísticos, simbólicos… para manter um poder ass...

Enigmatógrafo

Enigmatógrafo de Augusto Baptista

Piano não deveria ter letras pretas, letras brancas, para teclar?

Errata

Na campanha do perfume CR7, onde se lê “Dê o seu melhor de si”, deve ler-se “Dê-me o seu melhor de si”, por PML