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Artigos na categoria Dicioporto

O
[19 Ago 2017 | Comentar | ]
O

O O espantava-se com tudo ou, pelo menos, fazia como se… Perante a rotunda doçura do seu constante pasmar, era difícil decidir se ele mostrava pura estupefacção ou se exagerava para dar graxa, causar agrado, engatar e… fazer jus à sua circular reputação. O que é certo é que o terno pasmadinho era tido em alta conta pela alta roda. Versejava a seco apoiado pelo H. Carpia distintas mágoas encostado ao D. Dava longos passeios com o S se acaso a solidão lhe pesava; por vezes, ambos se juntavam ao …

N
[13 Ago 2017 | Comentar | ]
N

O N era a letra de embalar por excelência. Naturalmente modesto e até um pouco néscio, ambicionava arredondar-se para ocupar menos lugar. E também para instilar sonambulismo no mundo à sua volta, evitando assim ter de encarar com ângulos agudos e casos bicudos. Como os seus desejos não viravam realidade, o N foi-se tornando primeiro simples noctívago, a seguir boémio impenitente. Começou a negligenciar os seus trabalhos de embalo e baby-sitting, e muitas vezes era trazido ao colo para casa porque bebia até cair. O álcool não fazia dele uma …

M
[6 Ago 2017 | Comentar | ]
M

O M era pródigo naquelas falinhas mansas atrás das quais se escondem gumes. Os cimos não lhe metiam medo pois tinha uma secreta admiração pelas alturas, pelas grandes vistas e pelas pessoas bem colocadas. Mal lhe davam um pouco de atenção, todo ele se eriçava de excitação, miava como uma madama desalmada e subia aos píncaros da palração felina. Sabendo-se pouco merecedor, o M defendia-se do duro atrito da realidade através de uma mitomania, a priori inofensiva, mas muito maçadora para os demais. Sabendo-se péssimo prosador e pior poeta desenvolvera um …

L
[29 Jul 2017 | Comentar | ]
L

O L assentava em si mesmo como uma luva. Tinha assento em todas as reuniões de letra grande e, se minusculava, logo estreitava laços com quem o precedia ou seguia. Campeão da flexibilidade, o L prestava-se a lutas de salão, a lutos oficiais e a todos os lugares comuns preconizados pela Ordem alPhabética. Amiúde acusado de ser um descarado lambe botas, não passava de um caso de talento social inato. Líquido e lírico, logo ainda mais serpentino do que o S, o L era exímio em deslizar, esgueirar-se, esquivar-se, devanear. …

K
[22 Jul 2017 | Comentar | ]
K

O K era uma letra inkietante. Antes de mais porke não existia no alPHabeto da língua em que falo, a não ser nas palavras estrangeiras komo kart e kayak. Tinha um medo ke se pelava do O kuando quando este lhe falava kurto e grosso. Se sentia a redonda vogal por perto metia-se debaixo de uma kapa negra e passava à klandestinidade. Tirando a sua natural kompetência para o kaganço, não era má peça. Trabalhava em part-time num gabinete de fonétika, partilhava kasa kom o W e o Y e …

J
[15 Jul 2017 | Comentar | ]
J

O jota era ocioso, alegre, jocoso até. Não gostava de trabalhar e descarregava uma parte substancial das suas tarefas no G, mas saía sempre bem no retrato de família. Ao contrário do I, o jota tinha a sua pinta em alta estima. Chamava-lhe brasão e discorria sobre a sua linhagem. Só queria escrever-se em minúsculas porque (explicava ele, a meio poste, como se acabasse de sair da cama ou se preparasse para deitar) letras grandes são uma cena burguesa e burgessa. O jota tinha teorias sobre tudo, achava-se eternamente jovem …

I
[9 Jul 2017 | Comentar | ]
I

O I gastava fortunas em cosméticos para disfarçar a sua pinta que era um sinal de nascença. Mal podia, tornava-se maiúscula e mentia com quantos dentes tinha como só os crescidos conseguem. No fundo, o I era um ingénuo: não imaginava que aquela marca de fabrico lhe dava uma distinção inimitável, um toque de originalidade na sua elegância natural. Aliás, todas as vogais lhe cobiçavam a linha e a pequena lua cheia. Vitima dos seus complexos, quando se ouvia intensamente em palavras ou frases, julgava reconhecer um «ih! ih!» ou …

H
[2 Jul 2017 | Comentar | ]
H

O H ficava bem à cabeça de qualquer palavra embora não se pronunciasse, pelo que era muito requisitado, quando não assediado. Tinha de inventar desculpas esfarrapadas e etimológicas para não aceder a tantos convites. Fazia-se de muito humanamente tímido, quando, de facto, era um misantropo. Como, ainda por cima, corria o rumor de que o silêncio é de ouro, o H ganhou fama de letra cara e rara. Todavia, o N, o L, e C nunca perdiam uma ocasião lhe chegar a roupa ao pêlo para o tipo não se …

Zero
[13 Jun 2017 | Comentar | ]
Zero

Boca aberta,
cheia de nada e de coisa nenhuma
prestes a sair.
Por João Pedro Mésseder, in Palavras viageiras, Edições Xerefé 2016, página 24.

Upa
[13 Jun 2017 | Comentar | ]
Upa

Palavrinha que,
não sei porquê,
ajuda as pessoas
a subir
para um lugar qualquer.
Por João Pedro Mésseder, in Palavras viageiras, Edições Xerefé 2016, página 19.

Silêncio
[13 Jun 2017 | Comentar | ]
Silêncio

1.
negociavam com estudado silêncio
o resgate dos seus
da possibilidade do naufrágio
Por João Rios, in Aprendizagem Balnear, Cadernos do Grito, página Resgate.
2.
O silêncio é o lugar
Onde baterão as mãos
Por Daniel Faria, in Poesia, Edições Quasi, Novembro de 2003, página 55.
3.
Música fora
da época de cio.
Por João Pedro Mésseder, in Elucidário de Youkali seguido de Ordem Alfabética, Editorial Caminho, janeiro de 2006, página 55.
4.
O silencio nocturno é um oceano invisível e mudo. E no entanto respira. Ferozmente.
Por João Pedro Mésseder, in Abrasivas, Deriva Editores, Novembro de 2005, página 13.
5.
Noite após noite, o silêncio das trevas ensurdece o insone.
Por João Pedro Mésseder, in Abrasivas, Deriva Editores, Novembro de …

Paquiderme
[13 Jun 2017 | Comentar | ]
Paquiderme

Palavra-elefante
com seu lugar, que é grande,
na savana ordenada
do dicionário.
Por João Pedro Mésseder, in Palavras viageiras, Edições Xerefé 2016, página 16.

Quebreira
[13 Jun 2017 | Comentar | ]
Quebreira

Palavra sonolenta
e preguiçosa.
Por João Pedro Mésseder, in Palavras viageiras, Edições Xerefé 2016, página 16.

Mirtilo
[13 Jun 2017 | Comentar | ]
Mirtilo

Pequena cápsula de sangue da terra.
Por João Pedro Mésseder, in Palavras viageiras, Edições Xerefé 2016, página 13.