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Artigos na categoria A Cidade Subtil

O Sul
[4 Ago 2017 | Comentar | ]
O Sul

UM campo de navalhas perfumadas. Tento encontrar a exacta imagem do Verão, a chave do Verão. Releio os poetas, repito as palavras, vacilo, aguardo, espero que a coisa nasça, rebente, naufrague. Procuro poemas onde o Verão rasteje, como uma sombra esquartejada. Porque nesta cidade, até em Agosto, as temperaturas são vãs. É por isso que o amor aqui, no Norte, não agarra. O amor pede temperaturas atrozes, tardes desfeitas, noites festejadas. Já o Sul, pelo contrário, está sempre carregado de Verão. Atravesso um qualquer poema de Lorca e até a …

Elegia
[5 Jul 2017 | Comentar | ]
Elegia

O FOGO fala simultaneamente todas as línguas. E essa é a tirania. Não há tradução possível. As chamas crescem ao longo do idioma do mundo, modificam-no. De repente, as palavras já não são as mesmas. Reconhecemos algumas letras. Mas as palavras estão desfeitas, o seu sentido deturpado ou esquecido. Não conseguimos traduzir. Não conseguimos saber o que ainda arde exactamente. Até porque as coisas ardidas perderam a sua exactidão. Ficaram descontínuas. Ainda estão ali, mas já não estão ali. Desaparecem e reaparecem sem peso, sem valor, sem aviso, como clarões …

De passagem pela Corunha
[10 Jun 2017 | Comentar | ]
De passagem pela Corunha

NO mês passado, tive a felicidade de apresentar o meu livro, “Dramas de Companhia”, em Espanha. Recebi o convite de Inma Doval, artista plástica galega, bibliotecária na Faculdade de Educação da Universidade da Corunha, que, entre outras coisas, luta acerrimamente para que o lado artesanal e a transcendência da leitura regressem, num mundo onde o impacto alienante da imagem e da banalidade se tornou, ele próprio, o centro do gosto e da ambição.
Ao contrário do urbanismo destroçado de Vigo, ou da monumentalidade barroca e triste de Santiago, a cidade da …

Borges e eu
[4 Mai 2017 | Comentar | ]
Borges e eu

TODOS os turistas parecem um pouco míopes quando estão perdidos. Há, na sua mais sincera desorientação, uma ternura proibida, um nítido apelo de luz sobre o rosto. Gosto de os ver caminhar na sua pequena escuridão, com o mapa da cidade amarrotado nas mãos, enquanto se aproximam de algum nativo para pedir ajuda ou direcções. E depois de esclarecidos, gosto de os ver regressados à possibilidade de uma cidade mais clara e mais próxima.
Num final de tarde de Abril, num domingo calado e provisório, fui abordado por um homem na …

O céu transfigurado
[2 Abr 2017 | Comentar | ]
O céu transfigurado

CONSIDERADA por muitos como uma das mais poderosas representações do céu da História da Arte (dinâmico, profético, tenebroso), o quadro “Vista de Toledo”, de El Greco, continua a ser um enigma, em parte devido às liberdades que o artista tomou ao reproduzir na tela a cidade. Doménikos Theotokópoulos, mais conhecido por El Greco, alterou a disposição de alguns edifícios, conservando outros, talvez visualmente mais marcantes, intactos, no mesmo local; recriou ou inventou estruturas, sempre de forma harmónica e provável; e chegou ao ponto de substituir a aridez típica da zona …

Um círculo perfeito
[5 Mar 2017 | Comentar | ]
Um círculo perfeito

ALGUNS aproximaram-se demasiado da lucidez. Quando o pensamento ganhou uma estranha autonomia e começou a levar tudo à sua frente, perderam-se. Agora já pouco sabem, ou pretendem saber, a respeito da cidade e do tempo. Quando olham para o passado, sentem frio, uma vertigem, um relâmpago, silêncio. Lembram-se de como foram violentos e sinceros (há inúmeros vestígios de orgulho por entre a vergonha e o veredicto), de como caíram na armadilha da vida, de como foram parar ali, àquela espécie de palácio ausente, àquele pequeno país com tanta gente deslocada …

Submundo
[3 Fev 2017 | Comentar | ]
Submundo

QUANDO me aborreço da cidade superficial, corro para a estação de metro mais próxima. Gosto de sentir na pele o que Jean Valjean, o miserável herói de Victor Hugo, sentiu quando desceu aos esgotos de Paris. Às vezes, é preciso descer bem fundo, para que depois a ascensão se cumpra, inteira e miraculosa. Lá em baixo, o inaceitável espera por nós. É a parte submersa do iceberg de Freud.
Os esgotos parisienses do século XIX tornaram-se, entretanto, tão assépticos como um bloco operatório, mas não foi por isso que nos deixaram …

Imagens do Inverno
[3 Jan 2017 | Comentar | ]
Imagens do Inverno

CHEGOU o Inverno, ou melhor, chegaram as imagens do Inverno, a superfície gelada de um lago, uma montanha, ao fundo, ostentando uma espécie de candura avassaladora, o vidro de uma janela fustigado por mil e uma gotas de chuva que o vento impressionou. As imagens do Inverno chegam cada vez mais depressa e desfocadas – o Inverno é uma estação nitidamente desfocada –, e por isso têm todas algo de pintura impressionista, de música abstracta, do rosto escasso e inefável das divas do cinema mudo. No entanto, nenhuma delas é …

Cidade felina
[3 Dez 2016 | Comentar | ]
Cidade felina

VOLTEI a Eugénio, recentemente. Não sei porquê. Ou melhor, até sei. Gosto de gatos, e os poemas do Eugénio – até pela forma como ele os dizia – lembram-me esses animais voluptuosos por fora e por dentro, esses pequenos príncipes que emanam das suas vidas esquivas uma clara ostentação, um luxo que já Baudelaire acreditava sublimar a pobreza.
Os gatos – como os melhores poemas – são intrinsecamente insubmissos. O meu, embora há muito afastado dos surtos de cio, mantém uma propensão inevitável para a queda. Gosta de meditar sobre a …

Variações sobre Novembro
[4 Nov 2016 | Comentar | ]
Variações sobre Novembro

A EXUBERANTE prosa de Onetti entra por este mês dentro sem qualquer pudor ou atrito, os santos prepararam um sonífero para as nuvens que já embaraçam o céu, o frio não chega a ser feroz, mas já arreganha os dentes, há qualquer coisa de medíocre neste mês, tenho a certeza, de história inacabada, de tristeza opaca e destituída. Felizmente a minha cidade não é esta, quer dizer, não é exactamente esta, a minha cidade é tudo aquilo que eu queria que a minha cidade fosse também, “porque é possível fazer …

O amor e um edifício
[4 Out 2016 | Comentar | ]
O amor e um edifício

ESTOU a amar um edifício. É o edifício com mais requinte e carácter que a cidade tem. Fica na Rua dos Bragas, uma rua demasiado severa e estreita. Além disso, aquela é uma rua triste, tão triste que chega quase a ofender a beleza do edifício. Aquele edifício merecia uma praça aberta, coroada por uma família de edifícios tão ou mais belos do que ele. Era preciso deslocar aquele edifício. Desmontá-lo, pedra por pedra, e voltar a erguê-lo num sítio mais digno. Eu tinha grandes propósitos para aquele edifício.
Há, nesta …

Uma obscura lucidez no rosto
[6 Set 2016 | 1 comentário | ]
Uma obscura lucidez no rosto

À MEDIDA que o Verão se apaga, o Porto recupera uma obscura lucidez no rosto. De resto, já não tenho grandes expectativas em relação à rentrée. Sou um leitor caprichoso, intransigente, e persigo, por isso, o Livro Total, a célebre obsessão de Mallarmé, um livro que me deixe a meio caminho entre a perplexidade, o êxtase e a clarividência. A maioria dos meus amigos leitores nem se atreve a pronunciar os nomes de certos escritores que costumo evocar com assombro, e a vida é demasiado curta para ficar à espera …

Uma temporada no inferno
[2 Ago 2016 | Comentar | ]
Uma temporada no inferno

AGOSTO é já Setembro por entre a voluptuosidade das mãos. É impossível dissociar este mês da poesia mais acerada de Eugénio de Andrade, da prosa barroca e requintada de Francisco Umbral, de certos títulos de Nabokov (Fogo Pálido, Ada ou Ardor, Riso na Escuridão). Porque Agosto deixa a cidade numa inércia incendiada; porque agora o tempo degenera num impasse brutal; porque o amor existe em Agosto à sombra de uma esquina ou de um milagre, e os olhares estão quebrados e as paisagens exaustas.
Porque Agosto pode ser fatal. Porque já …

O Verão dos poetas
[5 Jul 2016 | Comentar | ]
O Verão dos poetas

JULHO. Os dias são velozes e esplêndidos. O sol está mais próximo da Terra. Há uma espécie de opulência em tudo o que vejo, toco e sinto. Pergunto-me: por que é que Platão expulsou os poetas da cidade? Provavelmente porque fazia muito calor na República. E o calor traz sempre um certo tipo de desordem atrás de si, não é? E os poetas, mesmo os mais nebulosos poetas, geram e transportam calor, desordem, o Verão irracional de todos os sentidos. E Platão não podia aceitar um Estado justo e em …