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O Sul

O Sul

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UM campo de navalhas perfumadas. Tento encontrar a exacta imagem do Verão, a chave do Verão. Releio os poetas, repito as palavras, vacilo, aguardo, espero que a coisa nasça, rebente, naufrague. Procuro poemas onde o Verão rasteje, como uma sombra esquartejada. Porque nesta cidade, até em Agosto, as temperaturas são vãs. É por isso que o amor aqui, no Norte, não agarra. O amor pede temperaturas atrozes, tardes desfeitas, noites festejadas. Já o Sul, pelo contrário, está sempre carregado de Verão. Atravesso um qualquer poema de Lorca e até a morte, tão popular, tem o seu próprio sol, a sua fonte de calor, o seu eros soterrado. É para lá que me dirijo agora, para Lorca, para Cernuda, para Alberti, para todos os poetas onde o Sul fixou no ardor das casas a sua luz, o seu labor.

E não espero regressar tão cedo. Enquanto ouvir Caetano Veloso cantar “Vuelvo al Sur / como se vuelve siempre al amor” é natural que me deixe ficar nessa grande encruzilhada que é a paixão. Haverá nesta cidade algum lugar onde se possa ouvir ou dançar um tango arrastado? Em que arrabalde de sonho uma voz derrama um amor tão culto?

Não. Não espero voltar. “El Sur es un desierto que llora mientras canta” diz um verso de Cernuda. A língua espanhola é a áspera língua do Sul. Quando o mundo arrefece, ou quando a minha língua não é suficientemente quente para dizer aquilo que dobra o coração, eu mudo de idioma, de tradição, de memória, de inevitabilidade. E de repente, já estou no Sul. Já estou a dizer que amo, como se deve dizer que se ama, com uma faca cravada no olhar do futuro. Já estou a arder, a congeminar uma outra temperatura. Já estou num campo de navalhas perfumadas.

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