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O céu transfi...

O céu transfigurado

Foto: João Paulo Coutinho

CONSIDERADA por muitos como uma das mais poderosas representações do céu da História da Arte (dinâmico, profético, tenebroso), o quadro “Vista de Toledo”, de El Greco, continua a ser um enigma, em parte devido às liberdades que o artista tomou ao reproduzir na tela a cidade. Doménikos Theotokópoulos, mais conhecido por El Greco, alterou a disposição de alguns edifícios, conservando outros, talvez visualmente mais marcantes, intactos, no mesmo local; recriou ou inventou estruturas, sempre de forma harmónica e provável; e chegou ao ponto de substituir a aridez típica da zona manchega por uns prados verdes e avultados, mais característicos de certas regiões do norte de Espanha.

Em “Traumprotokolle”, um estranho livro onde Theodor W. Adorno descreveu os seus sonhos, encontro uma experiência semelhante. Num dos sonhos relatados, Adorno passeia-se por Paris. Reconhece os nomes dos edifícios, mas estranha a sua disformidade (e uniformidade). Os edifícios aos quais ele atribui um nome e uma certa identidade histórica já não são os mesmos. Estão lá enquanto nome e identidade (e por isso são intensamente identificáveis e perseverantes), mas a sua imagem mudou. Adorno toma consciência no próprio sonho da falsificação, mas é compelido a acreditar que a cidade que vê é, de facto, a Paris de sempre, a Paris autêntica, a Paris real, até porque não pode haver outra. No final, o autor reflecte sobre a luminosidade, típica de um eclipse solar, que confere um ar esotérico à cidade, associando-a, finalmente, à luz espectral que banha Toledo, no quadro de El Greco.

Começo a pensar que o céu afinal não é o limite, mas o princípio pelo qual El Greco, o grande transfigurador, continua e continuará a mudar a aparência das cidades, a deslocar e a recriar o património edificado, a jogar com a nossa percepção, a dilatar as ideias que temos da verdade e da verosimilhança. Será que ninguém ainda reparou como o céu da nossa cidade tem vindo a mudar? Agora, mais do que nunca, pairam nuvens insólitas, gigantes, o azul ganhou um novo tom, intensificou-se, há uma tensão de êxtase e batalha no ar.

O próximo eclipse solar está previsto para o dia 21 de Agosto deste ano. Ao lado deste, os outros eventos de Verão vão parecer insignificantes. Valha-nos a serenidade das pontes e a solidez do Paço Episcopal.

Por André Domingues

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