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Imagens do Inverno

Imagens do Inverno

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CHEGOU o Inverno, ou melhor, chegaram as imagens do Inverno, a superfície gelada de um lago, uma montanha, ao fundo, ostentando uma espécie de candura avassaladora, o vidro de uma janela fustigado por mil e uma gotas de chuva que o vento impressionou. As imagens do Inverno chegam cada vez mais depressa e desfocadas – o Inverno é uma estação nitidamente desfocada –, e por isso têm todas algo de pintura impressionista, de música abstracta, do rosto escasso e inefável das divas do cinema mudo. No entanto, nenhuma delas é capaz de desvendar a alma do Inverno. E a grande hostilidade atribuída a esta estação, parece-me, provém precisamente daí.

O escritor norte-americano Weldon Kees (1914-1955) escreveu “Early Winter”, um poema que começa com uma constatação, a da impossibilidade de representar a verdadeira natureza do Inverno. O primeiro verso reza assim: “Memory of summer is winter’s consciousness“ (“A memória do Verão é a consciência do Inverno”). Kees provoca uma distância assombrosa entre “memória” e “consciência” para, ao mesmo tempo, as fazer coincidir. Verão e Inverno são aqui tratados como realidades intercambiáveis que resistem à fixação, à leitura, ao escrutínio. O Verão, porque está prisioneiro na virtualidade da memória; e o Inverno, porque está demasiado próximo da consciência.

Ao longo do poema, o sujeito poético insiste em arrastar a memória do Verão para dentro da consciência do Inverno, mas os resultados não se fazem sentir. Mais uma vez, o Verão nada pode contra a constatação do Inverno, apenas entrevisto através das suas mais prosaicas rotinas (uma porta que bate ao vento, o ruído da neve nos telhados, o brilho do sol de Inverno). Kees termina o poema com alguém derrotado pela impassibilidade da neve, que cobriu até o próprio batimento cardíaco.

Os poetas tendem a ver alma em todas as coisas. Uma finalidade oculta, uma metáfora palpitante e definitiva. Mas a alma talvez não passe de uma imagem também. Uma imagem com uma resolução extrema, cabalística, infinitamente detalhada e assíncrona. A mais bela imagem alguma vez vista, e, por ventura, a mais hostil.

Por André Domingues

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