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Elegia

Elegia

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O FOGO fala simultaneamente todas as línguas. E essa é a tirania. Não há tradução possível. As chamas crescem ao longo do idioma do mundo, modificam-no. De repente, as palavras já não são as mesmas. Reconhecemos algumas letras. Mas as palavras estão desfeitas, o seu sentido deturpado ou esquecido. Não conseguimos traduzir. Não conseguimos saber o que ainda arde exactamente. Até porque as coisas ardidas perderam a sua exactidão. Ficaram descontínuas. Ainda estão ali, mas já não estão ali. Desaparecem e reaparecem sem peso, sem valor, sem aviso, como clarões de memória e fantasmagoria em redor do silêncio. Fazem parte da paisagem irreversível, irreconhecível. Do património do caos. E abraçam um léxico extremo. Com a sua própria dor à vista. Com a sua própria morte à vista. De todos e de ninguém.

E agora os nomes também arderam. Ardeu todo um país. A língua portuguesa, no seu esforço de compreender tanta injustiça. Quantas palavras perdemos nestes incêndios? Quantos versos ficaram em branco ou suspensos? Quantos sentidos ficaram reduzidos a cinzas?

E agora, como se regenera uma língua, quando as ruínas ainda balbuciam uma canção desesperada e inerte? Como conciliar o sono e o silêncio, se a dor criou um dialecto monstruoso, obsceno, e nada mais ficou das vidas que se extinguiram senão uma representação desordenada de si mesmas?

E agora, seremos capazes de voltar aos poetas? Seremos capazes de voltar a Camões, ao fogo que arde sem se ver, às metáforas mais belas e pungentes, sem que isso nos lembre que, num dado momento, o amor não foi suficiente, a poesia não salvou ninguém, a desgraça não foi invisível, e que afinal a ferida que doeu se sentiu e ressentiu, aqui e em toda a parte, e que o mundo todo se tornou literal como uma pedra diante das chamas que continuam a lavrar, intraduzíveis, para o resto das nossas vidas?

Por André Domingues

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