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Clichés e Profecias

Clichés e Profecias

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HÁ uma canção de David Sylvian que diz tudo: September. Gosto de poemas curtos, quase sentenças, de pequenas caixas cheias de música, como o som do mar que sai dos búzios. Podia ficar horas a ouvir esta canção em loop. Mais do que uma evocação, September é o dedo da derrota sobre a ferida que o Verão abriu no coração dos mais ingénuos, e quase todos somos ingénuos quando o Verão termina: “We say that we’re in love / While secretly wishing for rain”. Aquilo que dizemos, de facto, nem sempre cumpre o itinerário do que sentimos. É, por isso, terrível a lucidez de Setembro, essa nova ordem que rompe com todos os códigos e privilégios que Junho, Julho, Agosto, nas suas propostas de fé perpétua, tinham estabelecido. E de repente, o Verão apaga-se na insuficiência dos dias. E de repente, tudo se desmembra em Setembro, tudo se arrepende de ter sido. E de repente, Deus morre aos nossos pés.

É esta a grande lição dos clichés, a da profecia que se auto-realiza.  “Todo pasa y todo queda”, escreveu o grande poeta Antonio Machado. Um halo de luz ao fundo dos dias sem termo, um vínculo com o excesso que as noites mais quentes ajudavam a constituir, as palavras agora mais pálidas e destituídas, horizontes que quebram, ruas inteiras consumidas pela força dos regressos.

Há, no entanto, certas zonas da cidade onde sempre é Setembro, onde tudo permanece dignamente decaído. No jardim de São Lázaro, por exemplo, ao longo da Avenida Rodrigues de Freitas, nas ruas adjacentes, naqueles recantos onde a sombra perdura para além do rosto dos edifícios e do furor turístico, Setembro arrasta, o ano inteiro, solidões e melodias. Porque, quando o tempo se parece com a leveza das fontes e a tarde é uma rosa intranquila, nada mais do a sede tem permissão para existir.

Por André Domingues

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