A Cidade Subtil

Borges e eu

4 Maio 2017 Comentar

TODOS os turistas parecem um pouco míopes quando estão perdidos. Há, na sua mais sincera desorientação, uma ternura proibida, um nítido apelo de luz sobre o rosto. Gosto de os ver caminhar na sua pequena escuridão, com o mapa da cidade amarrotado nas mãos, enquanto se aproximam de algum nativo para pedir ajuda ou direcções. E depois de esclarecidos, gosto de os ver regressados à possibilidade de uma cidade mais clara e mais próxima.

Num final de tarde de Abril, num domingo calado e provisório, fui abordado por um homem na rua que me perguntou, em espanhol, se estava no caminho certo para chegar à Ribeira. Ele ia a descer a Rua das Fontainhas, naturalmente iludido pela contiguidade inesperada das pontes. Ao lado do homem, pairava uma misteriosa mulher magra, de óculos escuros, que nunca falou, e que parecia ter, pela forma como andava demasiado recta e cautelosa, graves problemas de visão. Expliquei-lhes em castelhano que aquele não era o melhor caminho e dei-lhes novas indicações. O homem agradeceu-me, não sem antes me elogiar a desenvoltura com que falava o seu idioma. Disse-lhe que lia muito em espanhol e que o amor que sentia por aquela língua já durava há muitos anos. Mas quando me propus adivinhar o país de origem deles – a Argentina – o homem não escondeu a sua perplexidade e despediu-se sem demora.

Fiquei parado a vê-los afastarem-se, vagarosos e sonâmbulos, pela Rua Duque de Loulé. A luz era já diminuta àquela hora, e os reflexos dourados que vinham do rio criavam uma atmosfera quase irreal, as casas pareciam arder na sua antiguidade silenciosa, e um ou outro automóvel passou sem causar estrépito na paisagem.

De repente senti um golpe na memória, um leve fervor nos olhos que me expandiu a visão, e o mundo abriu-se e multiplicou-se: soube, então, que aquele homem era Borges. A misteriosa senhora que o acompanhava era, claro está, a sua legítima esposa, María Kodama, que ostentava a cegueira duvidosa e sintomática da desordem permutável dos sonhos, talvez para que o escritor pudesse passar incólume na sua existência póstuma.

Quando quis gritar, não havia palavras na minha boca. Quando quis andar e ir ao seu encontro, a rua inclinou-se, a luz tornou-se insuportável e eu não tive outro remédio senão perseverar em mim mesmo, naquele exacto ponto do espaço e do tempo, naquela cidade que já não era a minha, naquela miopia de ouro, no meu assombro. Até que finalmente veio a noite e libertou-me.

Nesse dia, para chegar a casa, precisei de pedir ajuda e direcções.

Por André Domingues

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