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A síndrome de Fitzgerald

A síndrome de Fitzgerald

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TENHO andado a voar com a prosa de Fitzgerald. Gosto da destreza com que o escritor americano articula tão amavelmente os temas da dissipação, do luxo, excelso e venenoso, do excesso e do risco, e sobretudo da ideia – omnipresente em “O Grande Gatsby” – de que uma vida assim, tão fiel ao desmesurado apelo do momento e aos poderes que o dinheiro e a juventude autorizam, é insustentável por natureza, e que essa insustentabilidade, paradoxalmente, é o próprio corolário de uma vida bem vivida.

Há qualquer coisa desses loucos anos 1920, que Fitzgerald representa de forma tão vívida e comprometida, nesta cidade que agora atravessa uma eufórica era de ascensão e rejuvenescimento, de auto-afirmação e de permissividade sem precedentes. E isso apesar de todas as já vislumbradas consequências que um fluxo transfigurador deste tipo deixará inevitavelmente numa cidade que teimava (e ainda teima) em manter algumas das suas antigas estruturas fixas, à laia do seu carácter granítico e do coração empedernido das suas gentes.

Literariamente, o Porto está talvez a viver aquilo que eu chamaria de síndrome de Fitzgerald. Contra todos os espartilhos impostos pela tradição, contra um certo desapego provinciano em relação às coisas físicas, contra o cinzentismo acrítico que tanto tempo a consumiu, esta cidade parece que veio agora à tona dos seus instintos reivindicar o que lhe era devido, com a inédita vontade de se mostrar emancipada e desinibida, dignificada com novos nervos, exibir a sua verdadeira pele, uma imagem que excede em muito a do postal antigo, onde mal se distinguia a feição das pedras.

O clima é, portanto, de festa e as festas devem ser levadas até ao fim. O Porto encarnou a proposta de um mundo novo, frívolo, honesto, histérico, feliz, até onde os seus personagens puderem ir.  E, neste sentido, pouco mais há para acrescentar. O preço do sonho dependerá, por isso, menos da gravidade do enredo e muito mais das asas dos protagonistas.

SOBRE O AUTOR:
André Domingues (Porto, 1975). É tradutor, revisor, locutor e redactor de publicidade. Autor do livro de contos curtos “Dramas de Companhia” (Companhia das Ilhas, 2016). Colabora com o Correio do Porto desde 2015.

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